Conto: A esquina da morte [Devaneios]

Um pequeno conto para o Dia dos Finados!

Desde quando me mudei para minha nova casa sempre via um bonito homem, pele jambo, olhos escuros e cabelos ondulados, parado na esquina da minha casa. Sempre achei estranho, mas ele nunca me incomodou, pelo contrário, exceto por hoje. O homem estava parado no mesmo lugar, fumando e olhando pra mim como se estivesse esperando alguém e logo percebi que esse alguém era eu:

- Vamos – disse o estranho homem.

- Para onde? – Respondi

-O que acha que está fazendo aqui?

- Acho que estou......

Era uma boa pergunta, eu não sabia o que estava fazendo na esquina de casa.

- Você precisa ir pra o seu mundo.

- De que mundo você está falando?

- O mundo dos mortos.

De repende me lembrei de que havia sido atropelada, mas não sentia dor alguma e estava com as mesmas roupas de antes, senti um enorme vazio e muito frio, comecei a tremer.

- Está com frio?

-Sim, estou.

- Normal, isso sempre acontece quando estamos longe do calor humano. Como estou de bom humor vou te emprestar meu casaco.

O homem tirou o casaco preto que estava usando e percebi que usava uma camiseta colada ao corpo e, meu Deus, que corpo! Céus! Será que estava mesmo morta?

- Vamos caminhando – sugeriu ele.

- Pra onde exatamente eu vou?

- Já disse, não?

-Vou encontrar meus avós?

-Não. Eles estão em outro lugar.

- Por quê?

- Eles eram católicos.

- Eu também!

- Você realmente acha que é católica?

Parei um momento de caminhar e pensei seriamente sobre o assunto. Não era católica, dizia que era porque era difícil explicar que não tinha uma religião.

- Quer dizer que vou para o inferno?

Ele deu uma enorme gargalhada.

- Sempre me perguntam isso! Não. Não vai.

- E para onde eu vou?

- Para um lugar com pessoas iguais a você, com fé, mas sem religião. Mas não se preocupe, você pode visitar seus avós no mundo deles, dos católicos. Eles, assim como os evangélicos, estão esperando pelo juízo final.

- E quando isso vai ser?

- Não faço nem ideia, se é que vai ter.

- Espera um pouco, você está dizendo que o mundo depois da morte está separado por religião?

Não por religião e sim por tipo de fé. Se você acredita que pode reencanar, então você vai reencanar, se você acredita no juízo final, então você ficará esperando por tal dia.

- E se eu não acreditar em nenhuma dessas coisas?

- Então você vai para o mundo de fé sem especificação. Um lugar para onde as pessoas com fé, mas sem uma religião especifica, ficam.

- E o que a gente faz lá?

- Vivem de acordo com a própria fé, com as próprias regras.

- Isso não é a Terra?

- É bem parecido, a diferença é que você já está morta, mas pode mudar de fé e ir morar em outros mundos sem problemas. Ultimamente há uma grande movimentação no mundo daqueles que se dizem espírita, muitas pessoas estão querendo viver de novo!

- Então é simples assim? É só querer?

- Não, tem que ter fé para poder mudar.

- E se eu não tiver fé, não acreditar em nada!

- Difícil, se você não acredita não pode ficar em nenhum mundo. Entretanto, não se iluda, muitos dizem não acreditar em nada, mas se surpreendem depois, ao perceberem que sempre acreditaram em algo, não necessariamente em Deus, Jesus, Buda, etc, mas em alguma coisa.

- E você, em que mundo está?

- Em nenhum, sou um Deus da Morte.

- Isso explica sua muita coisa.

- Por exemplo?

- Cara, existem tantos homens querendo um físico desses.

Ele deu novamente uma bela gargalhada, mas me olhou profundamente, de um jeito que me senti completamente nua.

- Vejo que ainda há muita coisa humana nesse corpinho, os hormônios parecem que são os últimos a morrerem.

- Mas morrem mesmo?

- Você vai descobrir.

Com um olhar perdido, o Deus da Morte parou de repente e eu que estava vidrada em sua beleza percebi que havia chegado ao meu destino. Estava no topo de uma colina, dava pra ver toda a cidade do alto. O clima estava ameno, isso me deixou animada.

- O clima é sempre assim?

- Depende das emoções de vocês, às vezes chove bastante por aqui e outras vezes faz bastante sol.

- E nos outros mundos?

- Geralmente é só sol, mas em alguns mundos só existe chuva, frio ou um calor infernal, se é que você me entende. Aqui é o único mundo que o clima muda com mais frequência.

- Gostei! Posso mesmo visitar meus avós?

- Sim, seu líder virá te buscar em breve e irá te orientar.

- Você já vai?

- Sim, preciso fazer mais algumas caminhadas.

- Quando te vejo novamente?

- Não sei, geralmente não marco encontros com meus clientes.

Dessa vez a gargalhada foi minha.

- Você não ficava me esperando na esquina de casa?

- Sim, mas não só você, todos do seu bairro quando morrem passam por mim, mas não se preocupe, qualquer hora eu apareço, quem sabe você muda de mundo?

Olhei para aquela nova cidade e me senti estranhamente em paz.

- Acho difícil, mas quem sabe......

Michele Lima

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Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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13 comentários:

  1. Gostei muito do conto
    Está de parabéns

    Já estou seguindo ;)

    Beijos
    @pocketlibro
    http://pocketlibro.blogspot.com

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  2. Será que esse cara é amigo da Botan? Me identifiquei em muitos momentos com vc, até com a cara de pau de elogiar o corpo da entidade kkkkkkkk

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  3. Opa...gostei do conto. Com uma pegada escura e ao mesmo tempo divertida. Parabéns, você escreve muito bem. Esse Deus da Morte eu imaginei na pele de vários galã gostosões de filmes. kkkk Bem que poderiam existir mundos para cada crença depois da morte....quem sabe? kkk
    Beijos!
    Paloma Viricio-Jornalismo na Alma.

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    1. Seria muito bom né Paloma? rsrsrsrs E obrigada pelo elogio!!

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  4. Ficou bem interessante. A gente não sabe ao certo que tem do outro lado, quando a gente morre. Isso se tem. Ninguém voltou de lá pra dizer, né? Ah, sim, lembro de ter visto em outras histórias (filmes) de pessaos que estão mortas, mas não se dão conta disso.
    :: @hisakurasan :: {Emilie Escreve} ::

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  5. Muito, muito bom mesmo! A divisão por crença é sensacional!

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  6. Poderia ser encenado pela galera do zombiewalk

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