As aventuras de Pi [Resenha do Filme]


2014 finalmente chegou... Alguns curtiram o ‘show da virada’. Outros optaram por celebrações de cunho religioso. Outros ainda optaram por simplesmente viver apenas mais um dia, ou por crerem que a vida sempre se repete ou porque acreditam que a vida deve ser vivida como cada amanhecer sendo uma nova busca de uma trajetória sempre linear... E estas concepções de tempo acabam por muitas das vezes interferindo na forma como o homem se relaciona com o sagrado. 

Afinal, muitos nas suas mais distintas formas de passar o ano buscaram um traje com uma tonalidade específica que pudesse atrair algo desejado para o ano que então começou. Outros aproveitaram a praia e pularam as famosas sete ondas. Outros ainda recorreram à astrologia, terreiros, igrejas e outros meios na expectativa de pedirem proteção ou mesmo para tentar saber como será o ano de 2014. O fato é que o homem, mesmo em meio a uma sociedade que se julga racional sempre está recorrendo ao divino ou sagrado para que este possa de alguma forma intervir em seu cotidiano. E foi pensando nisso, que eu resolvi resenhar o filme “As aventuras de Pi” (Life of Pi).

 As aventuras de Pi (original em inglês: Life of Pi) é uma produção cinematográfica estadunidense de 2012 dirigida por Ang Lee. A história é fruto de uma obra literária de nome homólogo (2001), produzida por Yann Martel. O filme narra os caminhos que o personagem Pi percorreu para acessar ou se relacionar com o sagrado. Pi nasce numa família hinduísta proprietária de um zoológico situado em Pondicherry, na Índia. 

 Ao longo de sua infância e parte de sua juventude Pi acaba tendo contato com diversas religiões. Sempre na busca de encontrar a Deus. Entre elas a religião de sua família, onde aprendeu todos os costumes e práticas desta religião; perpassando pelo cristianismo e islamismo. O interessante é que o personagem ainda novo percebe que poderia acessar ao sagrado em todas as religiões e por isto mesmo acredita que deve seguir todas as religiões e crenças possíveis. O que o leva a ter problemas com seu pai e ao relatar ao escritor sua trajetória, deixa este assustado. Inclusive em sua conversa com o escritor uma de suas falas chama atenção. Pi nos diz que não importa a que fé ou crença que o indivíduo acredite ou professe o fato é que o homem sempre está em busca do divino e o acesso ao divino pode se dar em qualquer ambiente inclusive fora de um templo ou lugar tido como sagrado. 

E a partir disto, Pi abre espaço para um segundo momento do filme que é muito interessante. Momento em que o personagem central percebe ter realmente encontrado o divino. E é na viajem frustrada para o Canadá. Esta viajem ocorre quando sua família decidi-se mudar da Índia . Viajando em um cargueiro com os animais de seu zoológico. O navio acaba afundando e Pi perde sua família, mas consegue sobreviver em um barco salva-vidas. O mesmo acaba ficando perdido no oceano Pacífico e divide o barco com uma zebra, uma hiena, um orangotango e um tigre de bengala chamado Richard Parker.

 O período que Pi passa perdido no Pacífico ele questiona diversas vezes a existência divina e pede sinais de sua existência. Inclusive se pergunta o que ele havia praticado de errado se ele havia tentado acessar ao divino por diversos caminhos. A morte da hiena, da zebra e do orangotango acentuaram suas dúvidas e indagações. Todavia, alguns episódios como a ilha que desaparecia e se alimentava de si mesma e o próprio tigre; o levaram crer que o divino há e que estava interagindo com o mesmo. Essa percepção do personagem nos leva pensar que tanto os caminhos de acesso ao sagrado como as experiências religiosas são sempre plurais. E são próprias do homem, uma vez que este busca explicações e sentidos para o seu cotidiano. 

Outro elemento ainda deve ser ressaltado e este pode nos ajudar a refletir sobre a relação do homem com o divino no contexto da modernidade. Refiro-me as duas versões dadas ao episódio em que Pi esteve perdido no Pacífico. Pi afirma e não duvida do que viveu. Mas no contexto da modernidade, ou melhor, da racionalidade ao qual nossa sociedade vive desde o advento do Iluminismo. Levam o personagem a apresentar outra versão dos episódios transcorridos no Pacífico. Uma versão onde não existem animais selvagens, mas pessoas que em uma situação limite acabam se matando. Versão esta ideal e aparentemente lógica para os jornalistas que conversam com o menino Pi assim que este foi encontrado e levado ao hospital para sua devida recuperação.

Todavia, a segunda versão em nenhum momento anula a primeira. Estabelecendo-se assim uma tensão onde de um lado temos uma aventura quase que épica e de outro temos uma curiosa história de sobrevivência que é fruto de uma casualidade. E esta tensão permanece e é levada ao escritor quando anos depois Pi relata sua história ao mesmo. A tensão é resolvida com a seguinte pergunta: “então, com qual versão você opta por ficar?”.

Desta maneira, esta pergunta demarca a tensão em que o homem moderno vivencia. De um lado temos o ‘homem religioso’ que recorre à astrologia, as igrejas, aos terreiros e outros ambientes e ou meios para se comunicar ou se reportar ao divino. Mas que não está livre da esfera linear e lógica, pelo contrário os mecanismos que este se utiliza para se comunicar com o sagrado puxem uma demarcação temporal e ou espacial. De outro temos o ‘homem profano’ que rejeita toda e qualquer ideia ou possibilidade da existência de algo que fuja as explicações racionais e lógicas. 

Enfim, este filme além de se uma produção belíssima no quesito de efeitos e pleno diálogo entre a construção dos quadros e os personagens. Nos é um bom elemento para se pensar nossa própria realidade enquanto indivíduo e sociedade. Um abraço a todos. 

E um feliz 2014! Juliana Cavalcanti
Compartilhe no Google Plus

Sobre Poesias e Coisas Nada a Ver da Ju

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

comentário(s) pelo facebook:

24 comentários:

  1. Engraçado e que nos nos assustamos com a quantidade de religiões que Pi segue, mas nos brasileiros, não frequentamos a igreja domingo, não meditamos na quinta e não cremos em assombração "encosto" e pomba-gira? Gostei tb de quando vc diz que Pi encontrou desde pequeno a soluçao para a heterogeneidade da fe. Minha mãe costumava dizer que todas as religioes levam a Deus, mas esse argumento foi caindo quando nos deparávamos com algum absurdo religioso.

    ResponderExcluir
  2. Juliana Cavalcanti2 de janeiro de 2014 21:06

    Esta é a questão minha amiga. Estamos sempre recorrendo ao sagrado e muitas vezes por vários caminhos. Ainda que seja uma pessoa que não acredite no sagrado. Ela dialoga de alguma maneira com estes caminhos também. E acredito que os caminhos para o sagrado são diversos, mas o choque entre as interpretações gera tensões muitas das vezes intolerantes.
    Bjs,
    Ju

    ResponderExcluir
  3. Já tinha ouvido falar desse filme
    e parece ser realmente muito bom
    É até inspirado em um livro
    Já estou seguindo ;)

    Beijos
    @pocketlibro
    http://pocketlibro.blogspot.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Juliana Cavalcanti3 de janeiro de 2014 12:23

      O livro também é muito interessante. Vale a pena ler.
      Bjs,
      Juliana

      Excluir
  4. Ótima opinião sobre um ótimo filme. Achei de uma singularidade tremenda este longa, além de ter efeitos especiais muito bonitos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Juliana Cavalcanti3 de janeiro de 2014 12:33

      Obrigada, Alexandre! E é verdade os efeitos são magníficos. Não é atoa que todos as indicações nesse quesito o filme conquistou a premiação.
      Bjs,
      Juliana

      Excluir
  5. Acredita que ainda não vi esse filme? Me sinto uma alienada, preciso tomar vergonha na cara e comprar o DVD, adorei saber sua opinião.


    Beijos,
    Lara - whoisllara.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Juliana Cavalcanti3 de janeiro de 2014 12:36

      Oi, Lara. Obrigada! E não precisa se sentir alienada. Talvez só não tenha ocorrido ainda a oportunidade. Mas tenho certeza que vc irá gostar. E quem não sabe de quebra vc já aproveita e lê o livro também?
      Beijos,
      Juliana

      Excluir
  6. Muito boa a resenha e as observações, Juliana. Gostei muito e sou dessas pessoas que acreditam que o amanhã é uma conquista contínua. Já tinha ouvido falar bastante desse filme por ai, mas nunca tinha prestado muito atenção nessas lições que o filme trás. Vou colocar na minha lista de filmes para assistir em 2014.
    Beijocas!
    Paloma Viricio- Monólogo de Julieta.

    ResponderExcluir
  7. Juliana Cavalcanti3 de janeiro de 2014 12:39

    Olá, Paloma! Obrigada! E a vida é assim mesmo. Cada um pensa de uma forma. Mas quanto ao filme tenho certeza que vc irá se encantar.
    Bjs,
    Juliana

    ResponderExcluir
  8. Não conhecia o seu blog, achei atraves do mata hari. Adorei sua resenha, é um filme que eu ainda não assisti e fiquei com muita vontade!

    beijos
    www.pontoemcomum.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Juliana Cavalcanti3 de janeiro de 2014 14:03

      Olá! Obrigada! E vale a pena assisitir. E achei sua página muito bacana. Curti a postagem sobre o GTA.
      Bjs,
      Juliana

      Excluir
  9. Oi, Ju.
    Sei que este filme é famoso, mas eu não tinha noção da história. Sua resenha foi esclarecedora!
    Agora quero assistir!
    Beijos

    www.ratasdebiblioteca.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Juliana Cavalcanti3 de janeiro de 2014 14:10

      Oi, Thaís! Fico feliz por ter ajudado. :)
      Bjs

      Excluir
  10. Eis um filme que quero assistir e sua resenha só atiçou ainda mais a minha vontade. Pretendo ler o livro também. ;-)
    -Distante do Sol-

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Juliana Cavalcanti4 de janeiro de 2014 09:16

      Oi, Diego! E obrigada! Que bom que a resenha tenha contribuído.
      Abs,
      Juliana

      Excluir
  11. Ler é uma das minhas paixões...cinema outra delas...gostei muito da sua resenha etambém do seu blogue...vou voltar e já estou a seguir!Bom dia!
    Beijinhos
    Maria


    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Juliana Cavalcanti4 de janeiro de 2014 09:18

      Olá, Maria!
      Obrigada por seguir o nosso blog.
      Bom dia!
      Bjs,
      Juliana

      Excluir
  12. Oiee,
    Quando vi o trailer desse filme logo imaginei que seria um ótimo filme, não errei sempre estou lendo ótimos comentários hehe.
    Pretendo assisti assim que tive uma oportunidade.
    Beijos

    Mari - Stories And Advice

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Juliana Cavalcanti6 de janeiro de 2014 14:45

      Mari,
      assista sim. Irá adorar.
      Bjs,
      Juliana

      Excluir
  13. Eu já li tanto o livro como assistir o filme e, resumindo, é realmente uma história fascinante!
    Parabéns pelo post!

    Agnes (Guii)
    http://www.literaturaummundoparapoucos.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
  14. Juliana Cavalcanti8 de janeiro de 2014 12:16

    Obrigada, Agnes. :)
    Bjs,
    Juliana

    ResponderExcluir
  15. Oi Juliana, gostei muito também deste filme. Já o vi umas 3 ou 4 vezes. Gostei tanto do filme que resolvi comprar o livro homônimo pra ler; Está guardado na estante aguardando uma oportunidade,. Mas sobre o sagrado ou a sua relação com ele de que trata o filme, achei muito apropriada a sua utilização do filme pra falar sobre o assunto. Parabéns!

    Sou Alberto Valença do blog Verdades de um Ser e colaborador do blog Meu pequeno vício.
    http://verdadesdeumser.com.br
    http://meupequenovicioo.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
  16. Eu comecei a ler As Aventuras de Pi hoje e estou gostando. Particularmente acho que vou gostar da historia mesmo não sendo muito fã de livros que queiram mostrar a fé em algo. A leitura está sendo fácil e fluindo, espero gostar mesmo dele. Seu blog já está nos meus favoritos.

    Meu Blog: www.umcontainer.com

    ResponderExcluir