Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré [Resenha Literária]


Livro: Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré
Autor: Reza Aslan
Editora Jorge Zahar

Após a grande repercussão na mídia sobre o livro de Reza Aslan resolvi comprar e ler. Não só pela repercussão, mas também como historiadora das religiões fiquei bastante intrigada com o termo “zelota”, já que entendo o emprego do termo mais tardiamente e não um termo para ser empregado a Jesus e ao seu tempo.

Enfim, após a leitura optei também por fazer esta resenha, afim de propor um olhar crítico sobre o livro que foi apontado como o melhor livro de publicação de 2013 pelo New York Times. Num primeiro momento o que me ficou claro é que o livro em nenhum instante se propõe a ser um trabalho de caráter acadêmico, no sentido de trazer elementos novos para o campo. O autor visa tão somente reunir e propagar alguns estudos feitos em torno da personagem Jesus e seu movimento. No que diz respeito ao termo "zelota", o autor afirma que é uma conotação que este emprega para aqueles que eram observantes da lei e que de alguma forma se opunham ao sistema imperial. Quanto a isso, posso dizer que apesar de ter compreendido o que o autor quer expressar acredito que o termo não seja ideal. Um pesquisador que trabalha também com o campo do Jesus Histórico chamado Richard Horsley defendeu muito bem o porquê do emprego apenas para finais de 60 e início de 70 do século I EC (Era Comum). Período este em que ocorrem de fato movimentos com caráter mais ativistas e violentos. 

Outro ponto que me preocupou bastante após a leitura do livro foi a utilização do termo ‘galileu’. Ainda que o autor reconheça Jesus como judeu em alguns pontos do livro, a sua ampla descrição da região da Galileia, como uma área quase que dissociada da Palestina, acaba por corroborar com a ideia forjada na Segunda Guerra Mundial pelos nazistas, onde se criou a ideia de que a região da Galileia era uma área separada ou independente do restante da Palestina, sendo os habitantes desta região não judeus. Ideia esta que acabou sendo mais um argumento para a legitimação do holocausto. 

Um elemento também conflituoso é o fato do autor, apesar de reconhecer a existência de mulheres no movimento de Jesus, acaba por silenciar por completo a sua participação no movimento, reconhecendo apenas o apostolado a homens, sendo que a documentação neotestamentária nos dá indícios que havia mulheres apóstolas e com outras funções no interior do movimento.

Por fim, ainda fui levada a me questionar quanto à construção feita sobre Paulo. O autor reconhece que há contrastes entre Atos dos apóstolos e as cartas paulinas. No entanto, este por fim, tende a harmonizar as documentações de forma que ele acaba por dar continuidade a uma perspectiva dogmática sobre Paulo, usando termos como conversão, sendo que Paulo jamais deixou de ser judeu e nem muito menos instaurou uma nova religião. Ou ainda a concepção de Jesus como divino, já que que a ideia de divindade de Jesus ainda estava em construção. Apenas no evangelho de João (documento do século II EC) é que Jesus é apontado como Deus. Para Paulo, Jesus é aquele que anuncia uma boa nova, um mensageiro. 

Enfim, apesar de minhas críticas, acredito que o livro pode contribuir para atrair e despertar o interesse do público geral para a pesquisa. O que é de fato o grande mérito de “Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré” e espero apenas que minha resenha possa contribuir para uma leitura crítica do livro. 

Abs,
Juliana Cavalcanti
____________

P.S: E.C. (Era Comum) Adoto esta nomenclatura, pois entendo que d.C. (depois de Cristo) é uma leitura por demais cristã e acaba por não levar em conta a pluralidade.
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Sobre Poesias e Coisas Nada a Ver da Ju

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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29 comentários:

  1. O livro me pareceu interessante, mas não faz muito meu tipo de leitura favorita.
    Acho que me sentiria como você se lesse, iria gostar da leitura, mas não iria deixar passar as falhas encontradas no mesmo por você. Muito boa sua resenha.
    Até mais. http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

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    1. Agradeço o comentário e realmente acredito que não devemos deixar de lado determinadas questões.

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  2. Vi a entrevista do autor na GloboNews e achei que o livro fosse bom. Se bem que eu gosto do tema, mas acho que não tenho tanto conhecimento dele como você. Então iria acreditar no que esta escrito nele. Bom saber que não é tudo isso que estão falando!
    Beijos
    adriana

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    1. Adriana,
      como disse no final o livro se torna interessante para quem desconhece o assunto. Embora eu acredite que haja livros mais interessantes para isso. Um bom exemplo é o livro dos professores André Leonardo Chevitarese e Pedro Paulo Funaria. "Jesus histórico: uma brevíssima introdução" da editora Kline. Eu inclusive já resenhei ele aqui no blog.
      E minha preocupação em resenhar o livro do Aslan "Zelota" foi também para chamar atenção a estes detalhes que são falhos a meu ver.
      Abs,
      Juliana

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  3. Mais um livro que vc comenta e que eu nunca tinha ouvido falar, hihihi, até que fiquei curiosa dessa vez, e espero que no futuro eu tenha acesso a essa história.

    Beijos,
    whoisllara.com

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  4. Olá, Lara!
    E essa foi ótima. rs
    Mas alegro-me por saber que as resenhas estão tendo uma boa recepção.
    Bjs,
    Juliana

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  5. Minha querida amiga Juliana! Mais uma vez contribuindo com outra resenha a cerca dos estudos que despertam grande interesse, ainda que o público leigo ainda esteja longe de tais. Dai, ótima ideia de resenhar aqui o que andam lançando mundo a fora a cerca do cristianismo primitivo e os estudos do Jesus Histórico. Conforme tal acompanhamos juntos o surgimento da publicação do livro no Brasil e você foi testemunha ocular ai no Rio de Janeiro da aquisição do meu exemplar que estava na parte dos best-seller. Confesso que terminei de ler o livro semana passada. Ou seja, demorei mais que você, mais isso não importa não é mesmo. pois ainda está fresco algumas lembranças da leitura do livro Reza Aslan que acho que causou uma falsa polêmica nos EUA. Pois sem dúvidas as questões que você pontuou que são muito pertinente mostra que o autor não trouxe nada de novo ao debate. Sò o torna interessante para propagar o interesse do público como o " Código da Vinci" de Dan Brown que se tornou para muitos uma "bíblia" imediatista com questões que são pseudo-polêmicas como o tão famoso beijo de jesus na boca de Maria Madalena( indico a leitura do pesquisador Pedro Lima Vasconcelos e seu livro: Código da Vinci e o cristianismo dos primeiros séculos) que desconstrói e ajuda a aprofundar o tema também. que passaram a procurar informações sobre alguns pontos preconceituos do mesmo. Voltando a sua resenha considero que um maior aprofundamento do tema por autores que já estão ai a bastante tempo contribuindo para a área acadêmica como Horsley, Crossan e aqui no Brasil de forma laica na UFRJ nosso pesquisador André Chevitarese. Assim o livro " Zelota: A vida e a época de Jesus de Nazaré" é uma boa propaganda de título pois o autor que polemizar, mas não consegue trazer muitas informações novas para o debate acadêmico. O livro no máximo ganha força então pra difundir o interesse pelo tema. E pode ser uma referência para começar a aprofundar sobre a temática, Mas como você assinalou muito bem Juliana, temos mais estudos profundos sobre tal e sobretudo um debate que deve sempre se pautar pela pluralidade, diversidade das experiências religiosas, seja na época de Jesus ou cá entre nós contemporâneos. Assim parabéns por mais uma resenha saída do forno pra nóis

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    1. Meu querido amigo Robério, agradeço o seu comentário. Que por sinal é sempre pertinente. E respondendo a uma das leitoras eu inclusive falei no livro do Chevitarese "Jesus histórico: uma brevíssima introdução".
      Mas estes livros midiáticos são assim mesmo, quanto mais polêmico mais eles vendem. rs
      Bjs,
      Ju

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  6. Achei interessante a parte do apostolado feminino. É um tema bem trabalhado ou falta estudos sobre ele? Bom, é realmente necessário tomar cuidado com best-sellers que pretendem trazer "a verdade" sobre a História. Normalmente eles trazem a informação mastigada e de um jeito atraente ao público, mas não necessariamente informam exatamente o que os historiadores estão produzindo. Infelizmente não temos uma educação básica que nos prepare para ler um livro complexo criticando-o, e as pessoas acabam não lendo com um instinto investigativo, questionando se o que estão lendo vale para a realidade em que vivem, e assim tomam como verdade, algo superficial.

    PS: eu não queria ter soado pedante, mas infelizmente não deu kkkk. beijos e parabéns pela resenha!

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    1. Querida amiga,
      os estudos sobre a apostolicidade feminina tem avançado bastante muito por conta das entrada das feministas (que acabam por interferir na leitura de gênero como um todo), mas ainda há muito a ser dito. No Brasil, há poucos bons estudos. Entre eles temos o André Chevitarese e orientandos que eu acabo por me incluir parcialmente nessa turma também. Já que meia hora ou outra escrevo ou toco nessa questão.
      E infelizmente vc tem toda a razão, de um lado nós historiadores somos culpados, pois escrevemos mal. De outro, o o mercado editorial brasileiro ainda é muito restrito o que invalida a possibilidade de conhecimento do grande público de pesquisas atuais e sérias.
      Bjs,
      Ju

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  7. Ju, como sempre você arrasa nos posts sobre os livros mais clássicos, vivo dizendo a Aleska que você corre o risco de ter seus textos muito copiados por graduandos espertalhões e preguiçosos... kkkk Adorei sua critica, e suas explicações pois aprendo com você.

    Agora, tu poderia explicar um pouco mais a respeito dessa forma de contar o tempo chamada Era Comum? Eu confesso que em meus dias de estudo de teoria da história, uma área pela qual tenho grande afeição, não fui apresentada a essa discussão. Se tu puder me indicar alguém teórico que fale a respeito também fico grata!!!

    Cheros, Jaci. <3

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    1. Jaci, agradeço. Fico feliz de estar contribuindo de alguma forma. E sem problemas, eu ando publicando também no meio acadêmico. rs
      Sobre a nomenclatura EC eu posso te indicar no Brasil o Chevitarese. Mas temos também autores como Brown e Koester que fazem observações sobre o porque de EC ao invés de dC. E não se preocupe, o termo usado pela nossa academia é em grande parte ainda dC. Nos dizemos laicos, mas ainda usamos conceitos complicados como este. Qualquer coisa pode falar comigo melhor pelo face que eu te passo mais detalhes.
      Bjs,
      Ju

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  8. Olá Ju! Nunca tinha ouvido falar ness livro, mas parece ser interessante para quem gosta do assunto. Não me chama muita atenção.
    Beijos!
    Paloma Viricio-Monólogo de Julieta

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    1. Oi, Paloma!
      Esse livro tem dado grande repercussão na mídia. E sim ele acaba por ser mais interessante para quem se interessa pelo assunto.
      Bjs

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  9. Não conhecia, mas gostei muitíssimo da dica
    Não costume ver resenhas de livros assim

    Beijos
    @pocketlibro
    http://pocketlibro.blogspot.com

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    1. Olá, Angela!
      Estou por aqui sempre publicando resenhas nesse campo. E fico feliz por ter contribuído.
      Abs,
      Juliana

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  10. Juliana, sua resenha ficou maravilhosa. Soube fazer críticas que, mesmo sem ter lido o livro, suspeito que são pertinentes e fundamentais. Você de fato sabe fazer uma resenha crítica, levantando questões sobre as contradições do livro, as falhas, as faltas, etc. Gostei bastante da resenha. No entanto, não é um livro que me atraia. Não leria.

    Um abraço!

    Sacudindo Palavras

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    1. Oi, Erica!
      Agradeço o reconhecimento. E realmente o livro acaba por atrair mais um público que se volte para a área.
      Abs,
      Juliana

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  11. Estou lendo o livro e estou achando intrigante, procurando separar a minha fé do Jesus historico ,ao qual procuro nesse livro.De qualquer forma, sem ter ainda chegado ao final, prefiro guardar a minha fé e esperar q o autor nos brinde também com uma visão historica de Maomé...rss..

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  12. Juliana Cavalcanti7 de março de 2014 09:30

    Olá, Luiz!
    Acho importante sim separar o Jesus da fé do Jesus histórico. É o que eu particularmente faço. Mas se vc tem interesse em saber mais sobre o Jesus Histórico porque vc não lê "Jesus histórico: uma brevíssima introdução"? Dos autores André Leonardo Chevitarese e Pedro Paulo Funari.
    E sobre Maomé, realmente não temos muitos trabalhos em português. Mas talvez valha a pena vc dar uma olhada em "Maomé e a ascensão do islã" do Margoliouth.
    Abs,
    Ju

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  13. Estou com este livro na minha estante... aguardando uma oportunidade para lê-lo. Boa resenha. os/as Historiadores/as são feras! rsrsrs Abraços, companheira de ofício! :)

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    1. Juliana Cavalcanti13 de maio de 2014 18:06

      Obrigada, Alexandre! E se depois de ler o livro quiser trocar ideias, estamos aí. ;)

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  14. Juliana,
    O livro me fez pensar e repensar. Acabei de lê-lo e o achei, em primeiro momento, muito interessante.
    Vale a leitura, apesar das controvérsias. Porém acredito que foi essa a intenção de Reza Aslan. Ele deixa a entender que Jesus foi muito importante, porém talvez não tanto como se difunde, já que na época aparecia um messias atrás de outro.
    Também achei meio controverso e com base em achismos as cizânias entre Paulo e os demais apóstolos, porém concordo que o cristianismo em si, sem Paulo, nada seria, mesmo que este não tenha sido um dos que participaram com Jesus em vida.

    Sua resenha traduz realmente o que fica. E a leitura é válida, para que se entenda e se discuta quem é realmente o homem ou o que foi todo esse movimento que nos marca até hoje.

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    1. Juliana Cavalcanti13 de maio de 2014 18:18

      Alexandre Feitosa,
      em primeiro lugar gostaria de agradecê-lo e em segundo achei suas colocações muito interessantes. Sobre Paulo e os demais apóstolos eu poderia recomendá-lo a leitura de uma revista acadêmica a Jesus Histórico. Caso vc tenha interesse este é o endereço: http://www.revistajesushistorico.ifcs.ufrj.br/
      Abs,
      Juliana

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  15. Para conhecer verdadeiramente Jesus, leiam: O evangelho dos Anjos, Um novo ceu para uma nova terra.
    São 6 volumes.
    Ou pesquise os livros do prof. Severino Celestino.
    Ou ainda leiam: O evangelho de Darúbio.
    Ou ainda " Boa Nova" de Humberto de Campos.
    Ou para saber sobre Paulo. O Livro: "Paulo e Estevão"

    O diferencial é que estes livros foram escritos pelos próprios apostólos que viveram com Jesus, e hoje estão no mundo espiritual. Mas querem esclarecer a humanidade quem realmente foi jesus com todas as verdades.
    Informação: Em dezembro vai ser lançado um documentário: "nos passos do Mestre" que também vai narrar a mais verdadeira de todas as histórias da vida de Jesus.
    Como eu fico sabendo disso? Ouvindo a Rádio Boa Nova. www.radioboanova.com.br - Uma excelente opção para responder a nossa pergunta: quem somos, de onde viemos e para onde vamos. - Filosofia, Ciência e Religião, mas com fé raciocinada.

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    1. Juliana Cavalcanti23 de junho de 2014 13:13

      Jesulino,
      eu agradeço a sua participação no blog. Mas é bom que se esclareça duas coisas: 1) há o Jesus do ponto de vista da fé e o Jesus do ponto de vista histórico; 2) sou historiadora de formação e busco trazer ao público numa linguagem leve e descontraída algumas informações sobre o que é possível ser dito sobre a figura do Jesus histórico e o movimento que se deu a partir dele. Os livros que vc citou são livros de cunho religioso e não científicos.

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  16. vc está é com inveja ,porque nem se vc tivesse 100 vidas ,vc faria um trabalho bem feito como esse livro ,vc muito mal tem um mestrado ,o cara tem phd e se formou em havard ,vc tem um blog que ngm conhece e ainda assim está se achando

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  17. Não sou nem um pouco conhecedor do assunto, mas li o livro na época do lançamento e terminei com a sensação de que faltava algo, porém, gostei do livro. As poucas informações, cientificamente prováveis, nos contextualizam o espaço e o tempo de maneira muito adequada, ampliam nossa percepção sobre uma história com raríssimos elementos para a fundamentação de uma biografia definitiva, no caso impossível.
    Tenho consciência de que a sensação de "faltar algo" sempre estará presente nos estudos sobre a história de Jesus de Nazaré, mas somente a possibilidade de desmitificar acontecimentos impregnados de religiosidade sem agressão à essa mesma religiosidade, já valeu a pena ter lido.
    Aproveitei para anotar as sugestões bibliográficas e providenciá-las para as próximas leituras.

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  18. Me desculpem, mas não dá para comentar o que não se conhece. Como escritor ele é muito fraco e repetitivo. Como historiador é pior ainda pois a todo momento só dá coloca seu ponto de vista sem base nenhum ou literaturas supostamente perdidas ou distorcendo textos bíblicos. Exemplo ele diz que 2 Samuel 7:14 fala sobre Davi e qualquer um que conhece um pouquinho de Bíblia sabe que ele tá falando do Cristo, em nenhuma parte da sagrada escritura é dito filho de Deus se não a Cristo ou a Jesus Cristo. Faça um curso básico de Bíblia depois Leia esse livro que o resultado será lata de lixo.

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