Os livros da minha mãe! [Devaneios]



Mainha e eu nos tornamos amigas ao longo de minha infância e adolescência. Temos o habito de compartilhar histórias passadas, angústias do presente e as expectativas e sonhos para o futuro.

Quando o habito de ler foi se tornando uma característica marcante de minha personalidade, minha mãe me contou sobre os livros que lia na adolescência.

Quase não parece real que antes de ser mãe de três, esposa do Hulk e ser essa pessoa tão resiliente, pragmática, cética e humorada que ela é, minha mãe foi uma moça romântica apaixonada por romances tipo Julia, Bianca e Sabrina.

Esses livros não eram os meus preferidos, mas quando adolescente eu costumava lê-los para relaxar a mente depois de uma leitura "mais pesada", mas fazia isso muito raramente. No entanto, a medida que fui amadurecendo essa realidade foi mudando, quando me vi estudante de história o habito de ler romances água com açúcar entre textos densos já estava cristalizado em mim. Desde essa época amo esses textos.

Atravessei o curso de história usando esses livros como válvula de escape para as tensões geradas pela rotina de trabalhar oito horas e ainda ter que encarar um curso exigente como a "Licenciatura Plena em História" da UFRPE. Também foi ao longo do curso que construir minha pequena coleção, assim como histórias engraçadas envolvendo esse habito.

Lembro de um dia ter chegado a faculdade com um Sabrina no braço, meus amigos queriam ver o titulo para perturbar com minha cara e eu rapidamente enchi a capa dele de adesivos. Não funcionou nem um pouco, sofri bullings do mesmo jeito kkkkk


Porém, a lembrança me enternece, assim como a lembrança do dia em que um de meus amigos de graduação chegou mais cedo para aula e me encontrou lendo um desses livros. Nós ficamos papeando, ele me perguntou porque eu lia esses livros ciente dos enredos repetitivos, com homens maravilhosos e finais felizes muitas vezes fora da realidade... Eu expliquei e no final ele acabou me comparando a Lisbela, tal como ela, segundo ele, ao ler esses livros, estou vendo sempre a mesma história, mesmo sabendo tudo o que vai acontecer, na esperança de enfim viver eu também qualquer coisa de meramente semelhante...


Talvez ele tenha razão, talvez eu tenha alma de Lisbela mesmo. Não me importo dos textos serem repetitivos ou coisa do gênero. Assumo que para mim a grande graça desses livros é justamente isso. A história não mostra grandes surpresas, a narrativa é despretensiosa, a linguagem é simples, a maioria dos autores não se sente o último biscoito do pacote ou quer escrever a história que vai mudar a vida do leitor. Eles não querem escrever o livro do ano, querem simplesmente contar mais uma história de amor, fazem isso de forma clara e objetiva. Eu respeito muito essas pessoas e seu trabalho!

Às vezes eu penso que talvez as leitoras desse tipo de livro sejam todas um pouco Lisbelas. Nem um pouco tolas ou ingenuas, do tipo que não sabe definir o sonho da realidade. Tal como Lisbela nós dominamos os segredos dos mares narrativos por meio dos quais navegamos.

Bem, quanto a mim, sei bem a diferença entre a vida e o romance e talvez por isso, vez em sempre, me permito uma escapada da realidade para o jardim secreto e encantado da fantasia contido em um romance histórico.

Nem que seja pelo tempo de uma tarde preguiçosa me permitindo deixar a mente pender ao sabor do vento e do momento em um jardim de fantasias baratas, como a moça rosa que balança risonha e languidamente no velho quadro de Fragonard.

O Balanço (1767), Fragonard.

Pandora
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Sobre Pandora

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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5 comentários:

  1. Outro dia li em "A psicanálise dos contos de fadas" que as crianças repetem os mesmos desenhos várias e várias vezes, justamente porque conhecem o enredo e sabem que ele não vai mudar. Isso dá uma sensação de segurança para a criança já que tudo a volta dela vai mudando muito rápido e ela tem sempre que se adaptar. às vezes é a mesma coisa com os teus romances:necessidade de segurança. E também um escape da vida real.

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    1. Aleska, eu acho que você disse tudo!!! Não poderia ter sido mais no alvo!

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  2. Nunca li esse livros. São os harlequins certo? Os romances de banca não? Enfim, oportunidade não me falta - toda semana chega um novo exemplar onde trabalho. Mas vejo pessoas que simplesmente adoram e que não ficam sem ler um....

    Interessante esse devaneio...

    Até mais

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  3. Já li muitos desses livros. Minha Tia tem uma estante cheia desses livros Julia, Sabrina, etc... rsrs.. são ótimos mesmo para desopilar! Eu gosto. Hoje em dia é que não tenho mais tempo...Aí prefiro outro tipo de leitura. Mas um agua com açucar é sempre bem vindo
    Beijos
    Adriana

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  4. Que texto mais lindo Pandora!!
    Quando eu tinha 15 anos, minhas tias "me aliciaram" nos livrinhos de banca e eu fiquei uns 2 anos lendo-os sem parar, depois parei de ler por muito tempo, absorvida por estudos e trabalho. Somente duas décadas depois meu hábito de leitura retornou e agora (com 39) eu amo intercalar essas histórias românticas e leves entre as outras leituras que faço. Amei a postagem.
    Beijos... Elis Culceag. * Arquivo Passional *

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