Problemas indissolutos [Devaneios]

Algumas histórias são tapas na cara e algumas histórias te fazem reconsiderar as suas opiniões sobre livros que você adorava, seus posicionamentos e até mesmo tudo o que você (achava que) sabia sobre seu autor preferido. Algumas histórias te chocam de uma maneira intima, e você as leva para sempre.

"O problema de Susan" é uma dessas histórias. Da primeira vez que o li, passou batido. Era apenas mais um conto. Alguns anos depois, já tinha lido "As Crônicas de Nárnia" e voltei a lê-lo. Aí sim o texto me chocou e me mostrou o quanto Gaiman pode ser cruel. O quanto ele pode ser justo. Acima de tudo, me lembrou porque ele é tão genial, e porque ele é meu escritor preferido.

"As Crônicas de Nárnia" é uma das séries mais adoráveis e importantes para a literatura infantil/fantástica que há. Lewis é um dos cânones, e isto é indiscutível. No entanto, ele tem alguns posicionamentos que são, no mínimo, perturbadores e estereotipados. Um deles é a representação islâmica na sua obra. Embora "Um Menino e Seu Cavalo" tenha sido o livro que mais gostei, sendo um dos que Lewis mais ostenta sua visão deturbada do Islã. O outro é o destino final de Susan (que é de longe o meu personagem preferido), e tudo o que isto encerra.

Antes de proceder, devo deixar claro que não estou julgando Lewis (da mesma forma como não julgo Lobato, creio que a melhor forma de se lidar com escritores assim é trabalhar de forma a não perpetuar aspectos negativos), pois o meu lugar como leitor não é julgar um escritor inglês, extremamente religioso e falecido há mais de meio século como se ele fosse contemporâneo. Estou meramente comentando alguns pontos complexos.

Susan, a irmã guerreira que leva um arco (com o qual nunca errou um disparo), enquanto a irmã leva um kit de primeiro socorros numa garrafa, me incomoda. Melhor dito, Susan não me incomoda, ela é adorável. Mas sim o que é feito dela. Ou com ela, não sei. Susan, que é a irmã mais velha e mais bonita é a primeira a descobrir festas, batons e sexo. E por isto ela é punida. Mais de uma vez. A primeira por Aslan, ao negar-lhe o retorno a Nárnia. A segunda punição parte do narrador: ela é apenas mencionada en passant depois de Príncipe Caspian. Por fim, ela é punida novamente por Lewis, não mais como narrador, mas sim como escritor, que não nos diz uma palavra sobre seu destino (apenas que ela se tornou uma mulher tola e presunçosa, mas que teria bastante tempo para se “corrigir” e ser aceita no País de Aslan.)

Alguém avisa a Disney que a Susan deveria ser a mais
linda das irmãs, não do universo inteiro.
Nos filmes da série o componente religioso foi em grande parte suprimido, eliminando assim diversas situações desconfortáveis. A Disney evitou mexer num grande vespeiro. Apesar de ainda ser a irmã menos querida por Aslan, a Susan de Popplewell já se mostra muito menos passiva e bitolada do que sua contraparte de Lewis. Até o momento, ao menos, já que apenas três dos sete livros foram adaptados. (Devo. Resistir. À. Necessidade. De. Fazer. Piada. Com. Trilogia. De. Cinco. Livros.)


Voltando ao "Problema de Susan", com delicadeza e tato, Gaiman traça um novo final para Susan. A Susan injustiçada e condenada. A única sobrevivente. A menina/mulher forçada ao amadurecimento súbito após uma tragédia/capricho. E é com uma crueldade afiada e íntima que ele nos abre os olhos para ela. Para sua vida depois do ponto final. Porque ele sim nos conta o seu destino. E não é tão luxuoso (ou seria luxurioso?) quanto Lewis pensava.

A suavidade com que Gaiman aborda "O Problema de Susan" é justamente o cruel no conto. Assim como o castigo sem ódio de Duma e Remiel são muito mais cruéis do que toda a punição sem sentido anterior. Uma única comparação entre deuses e gatos corta mais fundo do que a mais afiada das lâminas. Justiça, mas não apenas poética.

Isto me choca. Me comove. Me deixa com um formigamento no estômago. E, acima de tudo, me deleita.

Talvez, quem sabe, se eu fosse ela... Talvez, só talvez, eu não quisesse me “corrigir”.

E talvez esta seja uma "daquelas" situações. Qual? Uma daquelas, tão tentadoras, em que “eu preferiria desperdiçar a vida com coisas frágeis, do que gastá-la tentando evitar a dívida moral.”


Rafael


P.S.: "O Problema de Susan" está disponível no livro "Fragile Things", de Neil Gaiman. A edição brasileira do livro foi completamente esquartejada, massacrada e destruída pela Conrad, que resolveu lançar "Coisas Frágeis" e "Coisas Frágeis 2", sem interesse ou respeito pelo alegre tormento de algumas semanas para colocar o livro na melhor ordem. "O Problema de Susan" está na parte 1. Lá pela página 50. As capas dos dois são lindas, no entanto, bem mais bonitas que as originais, o que pode fazer a compra valer à pena.

A capa do 2 é linda. E definitivamente combina com as histórias.
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Sobre Rafael Castro

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

comentário(s) pelo facebook:

32 comentários:

  1. Adorei a análise! Fico me pensando se a Fox irá continuar os filmes que a Disney abandonou... Espero que sim, pois a história é encantadora. Abraço!

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    1. Alexandre, li recentemente que o 4º filme está em produção. Seguirá a história da Cadeira de Prata, de acordo com as notícias, e salvo engano, será lançado ainda em 2015.
      Fico feliz que você tenha gostado do texto.
      Abraço!

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  2. eu realmente queria ler todo o seu post, eu li até o "uma garrafa, me incomoda. Melhor dito, Susan não me incomoda, ela é adorável" porque eu não sabia o que aconteceria com Susan e só pretendo saber quando eu ler a série toda! mas tenho que te escrever que eu me apaixonei por sua escrita, me apaixonei pelo seu post .. voltarei para ler esse post, assim que, num dia, eu terminar de ler a série da qual só li três crônicas/contos.

    gabryel fellipe - quimeras mirabolantes

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    1. Olá, Gabryel! Fico feliz que você tenha gostado do meu estilo.
      Espero que você leia em breve os outros livros, são adoráveis, apesar dos problemas de Lewis. Adoraria ter sua opinião sobre ele.
      Até breve

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  3. Oi, Rafael. Tudo bem?

    Confesso que eu não li nenhum dos livros e fiquei me perguntando quantas histórias aconteceu isso comigo. De fato, é uma situação deveras complicada. Olhar uma obra, lê-la e não sentir aquela coisa toda e depois, numa segunda leitura, se impactar... É algo que está fora da habitualidade, mas que nos faz olhar e enxergar com outros olhos.
    A Disney exagera um pouquinho nas coisas e acho que seja por isso que o sucesso esteja regredindo. Vai saber, né?
    Adorei essa postagem.

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    1. Olá! Prazer!
      Gaiman é sempre um mestre e, acima de tudo, um amigo. Esta história nos ensina que não somos juízes, acima de tudo. Recomendo ele a todos, sempre.
      Eu gosto bastante da Disney, sou apaixonado por desenhos. Até onde sei, ela tem conquistado cada vez mais público, principalmente por estar se adaptando e revendo seu discurso para se adequar à sociedade. Comprar a Marvel também ajudou neste quesito.
      Obrigado pela leitura e pelo comentário.
      Até breve!

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  4. Oi Rafael, aqui é a Alê (uma das chefinhas rsss). Gostei de saber que o Gaiman escreveu sobre a Susan, não porque eu gostasse muito dela, na verdade preferia a Lucy com suas questões existenciais, sua fé e bondade natas,mas confesso que quando fazia fanfics gostava de pegar esse mesmo gancho, quer dizer, o não dito pelo autor. Onde posso encontrar esse livro?

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    1. Oi, Aleska! Eu gosto bastante da Susan. E de Aslan. Os outros me parecem um pouco... Insossos, a verdade é essa.
      Coisas Frágeis está disponível na Saraiva, Cultura, Submarino e Estante Virtual. No Submarino, o volume 1 está por 10 reais. O volume 2 está em promoção também. Se você quiser de 2ª mão, na Estante Virtual provavelmente está mais barato.
      O volume 1 tem histórias mais sangrentas, o 2 é bem mais leve e com diversas releituras de contos de fadas e poemas.
      Espero que você goste.

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  5. Muito interessante sua opinião sobre a obra e também o autor. Ainda não li As crônicas de Nárnia...por isso não posso concordar nem discordar. Agora sua postagem me fez ficar com mais vontade de pegar logo esse livro da minha estante e ler...algo que estou devendo para minha própria pessoa há tempos!
    Beijos!
    Monólogo de Julieta

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    1. Olá, Paloma! Lewis tem alguns problemas, mas se você conseguir deixar isto de lado, é uma leitura deliciosa, leve e muito importante.
      Dê uma chance a ele em breve, você não vai se arrepender.
      Bons sonhos ;)

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  6. Achei bastante interessante sua análise depois de uma leitura mais analítica por assim dizer. Ainda não li nenhuma das duas obras, mas pretendo em breve começar a ler As Crônicas...
    Bjim,
    Tammy
    LivreandoFacebook

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    1. Olá, Tammy!
      Leia, leia, leia! Se você ainda não conhece o Gaiman, recomendo que leia primeiro Coisas Frágeis 2. Os contos são bem mais próximos e lindos do que no 1. Mas o 1 tem O Problema de Susan, Outubro na Cadeira e O Pássaro do Sol, então acaba se tornando completamente necessário.
      Espero que você goste.
      Bons sonhos

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  7. Eu somente assisti os filmes das Crônicas de Nárnia. Mas não tinha ideia de toda essa história envolvendo Susan.... nem que Gaiman havia escrito sobre ela. Fiquei, confesso, até um pouco chocada ao saber desse babado todo..... G-zuiz.....
    Eu tinha muita vontade de ler o livro (principalmente por ter apenas 3 filmes), mas depois dessa, fiquei com o pé atrás.... Quem sabe um dia, né?!

    =)

    Suelen Mattos
    ______________
    ROMANTIC GIRL

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    1. Olá, Suelen!
      Os livros de Nárnia são interessantes, e são um marco referencial para a literatura. Tem seus problemas, mas realmente vale à pena. Se você tiver um tempo livre, consegue ler em até dois dias.
      Até breve!

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  8. Olá, Rafael!
    Bem, eu li As crônicas de Nárnia e vi apenas um ou dois filmes que foram adaptados das crônicas. No entanto, não consegui ficar vidrada nos filmes, acho que porque também não morri de amores pela obra-prima de Lewis. Nada contra ela, aliás, que reconheço ser um clássico. Só não é muito o gênero que gosto de ler. E o fato de eu não ter gostado taaaanto como a maioria das pessoas parece ter gostado foram pelos elementos religiosos/cristãos que estavam presentes na maioria da obra. Tudo bem que ele é bem religioso e quis fazer uma analogia com a religião que seguia, mas... Eu não consegui adorar a obra. No entanto, gostei mais de alguns volumes mais do que de outros que fizeram valer a leitura como um todo.

    Blog || FanPage

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    1. Entendo o que você quer dizer, Erica.
      Minha relação com Lewis é similar à minha com Lobato, considero os dois análogos. Ambos são importantes no seu contexto, ambos tem uma escrita leve, delicada e arraigada de discursos complicados.
      Durante um tempo eu achei que os odiava. Depois eu percebi que não, que eu adorava os escritores. Mas os homens devem ser tomados com muita cautela.
      Não consegui gostar de A Cadeira de Prata. Tentei. Não desce.
      A Última Batalha me horrorizou um pouco, pela forma como ele lida com "o outro". Homem complicado.
      Enfim, obrigado pelo seu comentário, e espero te ver aqui novamente.
      Até mais ver!

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  9. Nossa, adorei! Não li "As Crônicas de Nárnia" ainda, então não sabia que a Susan dos livros era retratada assim! O Gaiman faz tudo com sutileza, então já me interessei por ler as considerações dele sobre a irmã mais velha Pevensie! Muito obrigada pela dica e, sim, a Anna Popplewell é linda mesmo! Beijos!

    www.bibliophiliarium.com

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    1. De nada, Tici!
      Espero que você goste de ambos os textos, embora espere que você goste um pouquinho mais do texto do Gaiman... Por motivos.
      Beijo

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  10. Adorei o post Rafa, adoro as cronicas de nárnia!!!!
    Seu blog é lindo, parabéns!
    Beijos.
    http://www.garotadolivro.com/

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    1. Obrigado, Katrine! Fico feliz que você tenha gostado!
      Este foi meu primeiro post aqui, este é um projeto idealizado pela Jaci (Pandora), Michele Lima e Aleska Lemos. A culpa do blog ser tão lindo é delas.
      Bons sonhos, Katrine

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  11. Sou suspeita para falar sobre As cronicas de Nárnia, já que é um dos meus favoritos. Quanto ao outro livro não posso comentar pois não li. Sobre a Susana, por ser uma história bíblica contada para crianças e o autor sendo evangélico, não discordo da forma como ele procedeu. Cada autora vai escrever e "puxar sardinha" para o seu lado é claro. De acordo com a bíblia muitos não irão herdar o paraíso, e ele quis mostrar isso com Susana. Para mim não foi uma implicância com o personagem e sim foi o personagem que tomou um rumo diferente. Mas cada um tem uma opinião.

    Blog Prefácio

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    1. Olá, Sil.
      Embora eu entenda seu argumento, acho a situação santimonial demais, principalmente considerando a relação dele com a Joy que foi de certa forma, transferida para Jill Pole.
      Se por um lado, há uma espécie de redenção com a Pole em A Última Batalha, por outro, a ignorância religiosa se torna ainda mais forte no mesmo livro.
      Mas, como você disse, isso é uma questão bíblica e eu tenho muitos pontos de divergência com a mesma e sua hermenéutica.
      Bom final de semana,

      Rafael

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  12. Oi Rafael,
    Li As Cronicas de Narnia há uns dez anos, então nao me lembro mto bem dos detalhes das estórias. Mas acho que nunca tinha parado para pensar no que teria acontecido com a Susan. Acho que a posição do Lewis de fato é compreensível, mas certamente é questionável.
    Não sabia que o Gaiman tinha escrito um conto sobre a Susan. Agora fiquei mega curioso para ler.
    Abraço,
    Alê
    www.alemdacontracapa.blogspot.com

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    1. Boa tarde, Alexandre.
      Gaiman, assim como Borges, às vezes dá novos finais ou perspectivas a alguns personagens já conhecidos.
      Acho que um de meus favoritos é A Câmara Oculta, em que ele revisita o conto do Barba Azul sob uma ótica... Diferente.
      Apesar de ter muitos problemas com a canibalização que a Conrad fez com a edição e mais ainda, com a tradução de Coisas Frágeis, o livro é lindo demais para que eu não recomende.
      Espero que você goste.
      Abraço,
      Rafael

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  13. Tenho que dizer que já tinha ouvido falar desse conto de Gaiman em uma outra resenha meses atrás. Nunca li ele nem os livros de Lewis, mas gostei da sua análise, e realmente não dá para querer julgar alguém que viveu muitas décadas antes da nossa época usando os paradigmas atuais. Enfim, posso não ter lido os livros, mas percebi que Susan foi deixada de lado nos filmes (no último lançado ao menos), ela aparece como personagem tanto quanto marcante no primeiro e segundo filmes e no terceiro é só mostrada escrevendo uma carta para os irmãos mais novas por breves segundos. E fiquei pensando assim: como assim tiraram os dois irmãos mais velhos da trama?

    aguardandoocamaleao.blogspot.com

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    1. Hey, Flávia!

      Olha, tanto nos livros quanto nos filmes, os irmãos mais velhos se afastam. A justificativa dada por Aslam é que eles estão velhos demais para voltar a Nárnia. Nos livros seguintes, ambos são mencionados esporadicamente, mas apenas Peter participa d'A Última Batalha, o último livro da série (tanto em lançamento quanto em cronologia).

      Ambos são, até certo ponto, substituidos por Eustace e Jill (que ainda vai aparecer, possivelmente no próximo filme, afinal, aparentemente está sendo seguida a ordem de lançamento dos livros).

      Acredite, em O Peregrino da Alvorada, Susan tem muito mais expressão no filme do que no livro homônimo, chegando a aparecer com clareza na alucinação de Lucy, enquanto a contraparte dela era muito mais desimportante.
      Para mim, o livro em que ela demonstrou mais força e presença foi O Cavalo e Seu Menino, ainda que este seja o livro no qual os Pevensie tem uma posição secundária na narrativa. Acho que é o 5º ou algo assim.

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  14. Devo dizer: acho a Susan uma vaca, assim como odeio toda essa análise religiosa da série de Lewis. Não estou negando que ela exista, pelo contrário, só acho que tem gente que esquece a história em si pela questão religiosa, assim como tem gente que esquece de viver por estar amarrado a uma religião.

    Vamos do começo: a primeira vez que li Nárnia foi na maior das inocências, sem qualquer visão religiosa. Depois, averiguando mais da série, descobri um ótimo site e, consequentemente, comecei a 'conviver' com seres que veem Harry Potter como sendo do diabo enquanto Nárnia é 'religiosamente recomendado', assim como ler comentários desprezando o fato do Skandar Keynes (que interpreta o Edmund) divulgar o trabalho de seu tatataravô, Charles Darwin - porque, afinal, 'Deus criou o mundo'.

    Enfim, não vou dizer que a representatividade de Aslam me passou despercebida, mas sempre vi tudo como uma alegoria do nosso mundo real: há pessoas que acreditam em Deus, outras que não. Mais que isso: cada Pevensie tem uma personalidade diversa e suas atitudes resultam em consequências específicas. E é por isso que o meu favorito é o Edmund - ele é o mais real pra mim, ele errou (e aqui eu digo com os irmãos, não com Aslam), se ferrou por causa disso e aprendeu com sua lição. E isso ele fez só, sem qualquer história de Aslam o converter ou coisa do gênero (não, não estou esquecendo a parte do sacrifício, mas Edmundo já estava arrependido antes disso).

    Quanto a Susan, sempre a vi distante de todos, de alguma forma superior e alheia aos demais irmãos. Sua presença em Nárnia foi mais "para estar junto" do que propriamente por querer ou gostar daquilo. Não retornar a Nárnia não foi propriamente uma punição divina (a meu ver, apesar de Nárnia acabar retratada como céu), mas sim uma escolha dela. Ela não se encaixava nisso, não gostava disso. Talvez pelos motivos que tu disse, por ter atitudes diferentes das esperadas, etc. Enfim, não estou julgando a Susan por isso, pelo contrário, acho mesmo que ela tem que fazer o que lhe dá vontade e o que lhe faz bem. Minha aversão a ela é justamente por estar ali "pra dizer que está" ou de algum modo se sentir obrigada a se encaixar a algo que ela interiormente não aprova e/ou com o que não se sente confortável.

    Ah, provavelmente eu passaria horas aqui tentando me justificar, mas a verdade é que acho que jamais convencerei o universo a ver a parte religiosa como um detalhe e não como o principal de Nárnia. E não diga que o Lewis foi mau com a Susan, acho que ele apenas fez o seu papel em dar personalidades diversas e mostrar que nem tudo termina "no que é considerado felizes para sempre". Assim como Dumas fez ao fim da trilogia dos Mosqueteiros, Lewis manteve a essência principal de cada personagem e mostrou que os caminhos são diversos e variam com cada personalidade e, consequentemente, com suas decisões.

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    1. Boa noite, Ana.

      Em primeiro lugar, deixo claro que não conheci Lewis quando criança, só vim a lê-lo depois de estar mais velho. Isto condicionou minha leitura, impossibilitando que eu visse todos os indícios de outra forma, o que não ocorreu com as obras do Tolkien, que apesar de também terem um componente religioso, para mim, este é beeeeeeeem secundário.
      Há alguns meses (talvez um ano, não lembro), li um artigo que citava uma das diversas cartas que Lewis enviou a seus fãs, e nele dizia que ele não via Nárnia como uma releitura da Bíblia, mas sim uma transposição da mesma para um mundo análogo ao nosso, mas com animais falantes no lugar de humanos, o que corrobora o meu ponto. Devido ao tempo, não tenho mais a fonte deste artigo, infelizmente.

      No entanto, eu também considero duas outras coisas.
      A primeira é que você deve confiar na história, não no narrador.
      A segunda é que os autores das obras são apenas isto: autores, e não senhores absolutos do texto, e que suas leituras são apenas uma leitura de alguém que conhece bem a obra, não muito diferente de um bom leitor.

      Quanto ao Edmund, eu não acredito em arrependimento. Eu acredito em reparação, coisa que para mim, ele só faz quando destrói a varinha de condão de Jadis.
      Acho o Edmund um personagem ok, embora idiota. Quando eu tinha 10 anos, já sabia diferenciar certo de errado.
      Quanto ao Peter e Lucy, não aguento os dois. São duas Mary Sue.
      Eustace me lembra demais a mim mesmo, e não sei o quanto a Jill Pole é do Lewis e o quanto ela é da Joy.

      De forma alguma eu vejo a Susan como distante de todos, muito pelo contrário. A um dado momento, ela se propõe a casar num casamento arranjado em nome da diplomacia. Isto é uma demonstração de comprometimento ao credo maior do que de, digamos, Peter.
      Tá certo que ela acaba não casando, mas...

      Diferentes pessoas, diferentes leituras.

      No entanto, acho que ele foi cruel sim. Não tanto como narrador (seu pecado foi por omissão) mas sim com os seus comentários como escritor.
      No entanto... "Confie na história, não no narrador."

      Acho que eu também poderia continuar por bastante tempo, mas precisaria de um café.

      Ou três.

      Bom te ver por aqui, Ana. Espero te ver novamente em breve.

      Bons sonhos.

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  15. O que aconteceu com Susan sempre me intrigou, sempre achei injusto puni-la por ser a mais velha e a que conhece o mundo mais cedo.Fiquei com vontade de comprar esses livros, que não comprei antes pois não sabia sobre oq era.
    Belo texto.
    Beijos, Tabatha
    http://aproveiteolivro.blogspot.com.br/

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    1. Olá, Tabatha!
      Recomendo muito a compra de Coisas Frágeis, mesmo com os seus probleminhas.
      Ah, eu pareço um velho rabugento às vezes.
      Espero que você goste.
      Obrigado pelo comentário.
      Beijo

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  16. Oi Rafael.
    Também achei o destino de Susan meio ingrato. Ela não tem culpa de conhecer os prazeres da vida primeiro e acho que isso não significaria que Aslan não a aceitaria. Mas não estamos aqui para julgar um escritor falecido e hiper religioso, como você mesmo disse.
    Adorei o seu devaneio literário e em todo o texto me vi balançando a cabeça em concordância. Parabéns.
    Bjoks da Gica.

    Uma Leitora Aquariana

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    1. Olá, Giane.
      Fico feliz que você tenha gostado do texto.
      Obrigado pelo seu comentário!
      Beijo e bons sonhos

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