Moda e publicidade no Brasil dos anos 1960 [Resenha Literária]


                                                       
Titulo: Moda e publicidade no Brasil dos anos 1960
Autora: Maria Claudia Bonadio
Editora nVersos

Este livro é um esforço historiográfico sobre como a moda e a publicidade ajudaram a formar a sociedade de consumo no Brasil. Não sei se vocês lembram, mas recentemente o MC Donald's faliu na Bolívia porque essa sociedade não tinha se adaptado ao estilo capitalista de consumo dos fast foods. No nosso país não era muito diferente no início do século passado, pois segundo a autora, os brasileiros em média consumiam apenas um metro de tecido por ano, o que devia dar para apenas uma camisa nova (ou duas talvez...) por cidadão. Por isso, a Rhodia (uma famosa filial francesa de uma indústria de tecidos) e Livio Rangan, bem como "os homens da Praça Roosevelt" tiveram que construir as bases da sociedade de consumo em terras tupiniquins antes de começarem a lucrar com o novo mercado consumidor.

Modelos posando com sertanejos.
A estratégia foi promover os novos tecidos sintéticos que estavam eclodindo na Europa, tais como o nylon, o poliéster, a helanca e o tergal. Para isso, a Rhodia (que detinha o monopólio do direito de produção de muitos desses tecidos) investiu muito na publicidade ao contratar Livio, homem que por meio de sua sensibilidade e olhar estrangeiro "criou"* um estilo brasileiro de se vestir, e na realização das "Fenits", que eram feiras comerciais que também apresentavam shows musicais para agregar o público brasileiro. Muitos artistas famosos, como Wilson Simonal, Chico Buarque e Rita Lee tocaram nessas feiras e atraíram as pessoas para a festa da moda, envolvendo a todos para o espetáculo do consumo.

De certa forma, essas feiras me pareceram ter semelhanças com as Exposições Universais e as Nacionais que começaram no século XIX. Por mais que exista diferenças entre os termos "exposição" e "feira", senti uma certa conexão entre os dois tipos de evento por causa da expectativa de reconhecimento do país no exterior.  Durante o século XIX  as exposições eram usadas para criar e vender uma imagem civilizada do Brasil para a Europa, e as Fenits desejavam superar a imagem do subdesenvolvimento brasileiro a partir do desenvolvimento da indústria.

Outros assuntos que o livro também destaca são: o desenvolvimento das revistas de moda, como a famosa "Claudia", e a "Joia" , suas relações com a moda internacional, ao mesmo tempo que se procurava o pitoresco do Brasil. Fala também do início dos cursos universitários para os profissionais da moda, o surgimento das modelos negras-que se deveu à resistência negra norte americana e o fim da segregação racial nesse país-, a crescente substituição da mão de obra das costureiras pela praticidade das roupas prontas, o investimento na moda masculina e principalmente o anseio pelo desenvolvimento econômico do país. O desenvolvimento da indústria têxtil e seus tecidos sintéticos revolucionaram o nosso cotidiano ocidental e nos levaram a um novo patamar de relação com o mundo.

Luana, a1ª modelo negra do Brasil.
Por todos esses motivos, acredito que ele está para se tornar um livro clássico não só para os historiadores da moda, mas para todos os interessados em história cultural. 

PS: Largando a historiografia para lá, preciso elogiar também a diagramação que ficou bem despojada e criativa. Gostei também de a autora explicar as imagens colocadas no texto. É bem ruim quando o autor coloca várias imagens de cunho meramente ilustrativo sem analisar ou mostrar a conexão delas com o texto.

* Está entre aspas porque essa criação em parte foi uma apropriação da moda internacional.







Nota:


Grande abraço da Alê Lemos!
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Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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7 comentários:

  1. Eu Gosto muito desse tipo de livro ,porque diz como surgiu e tal , eu tenho ums 10 livros assim ,explicando como surgiu varias coisas ,esse ai eu já conhecia ,mas nunca Li ,mas sem dúvidas tenho que ler.

    http://garotinhaadolescentea.blogspot.com.br/

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  2. Aleskita, mesmo que moda não seja meu objeto de estudo é impossível não ter certo interesse por esse livro! História é uma coisa que me fascina e história do Brasil então nem se fala! Lindamente que entra para a lista, um dos livros que ocupam lugar de destaque na estante!

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  3. Eu gosto de moda e pretendo escolher publicidade quando tiver que escolher minha habilitação na faculdade, então acredito que esse livro seria ótimo para mim. Adoro descobrir que tudo tem um por quê na História, até o mais comum dos hábitos pode ter surgido de uma necessidade financeira ou algo assim. Ótima resenha. Bjo :*

    www.bibliophiliarium.com

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  4. Olha, resenha bastante informativa. Não sabia que existia algo relacionado a esse tema. Infelizmente, acabo não me interessando muito por justamente estar fora da minha área, ou aquela que eu pretendo seguir.

    Até mais

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  5. Super interessante esse livro, recentemente eu li um livro que falava sobre a colonização do Havaí, e tbm havia esse sentimento de reconhecimento do país no exterior. Essa necessidade de sermos aceitos pelo próximo, acho que é próprio do ser humano. Vou incluir essa leitura na minha lista de desejados, sou formada em economia e esse tipo de assunto que mudou o mercado da época me interessa. abs.
    www.caprichoseleituras.blogspot.com.br

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  6. O livro parece ser muito bom. Faz tempo que não leio algo com cunho histórico e estou sentindo falta disso. Eu amei também as imagens apresentadas. Uma obra assim fica ainda mais bela com gravuras. Com certeza legenda em fotos é algo necessário em um livro de pesquisa, todos que li até o momento tinham legenda e acho que os que se apresentam sem devem ser estranhos.
    Beijos,
    Monólogo de Julieta

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  7. Obrigado pelo elogio à diagramação :)

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