The Sleeper and the Spindle [Resenha Literária]

The Sleeper and the Spindle de Neil Gaiman (com ilustrações de Chris Riddell), é um livro com cheiro. Livros bons são um passeio sinestésico, afinal, e meu sentido mais imaginativo e ativável é o olfato. O seu cheiro é de maçã, sorvete derretido e leite com um toque de canela. Talvez tenha um leve toque de baunilha, mas eu posso estar imaginando isso.

Duas capas...
Tive certo trabalho, mas consegui comprar o livro na pré-venda pelo Amazon. Dois meses angustiantes seguiram enquanto esperava pela entrega. No entanto, no momento em que eu tirei o livro da caixa, eu percebi que a espera valeu à pena. E se tivesse sido 15 vezes mais demorado, teria valido também. Só a capa do livro já valia. Capas nos dizem muito do livro que você tem em mãos, ao contrário do que aquele ditado quer que acreditemos. Para começar, The Sleeper tem duas: uma capa dura e uma luva. Além da arte ser linda e já nos trazer uma bela dose de prefiguração, a luva é feita de nada menos que papel-de-arroz. Definitivamente a capa mais bela, perfeita e artística que já vi. Mas e no verso? Uma citação. E uma caveira.



“Ela era uma daquelas bruxas da floresta, conduzida às margens um milênio atrás, e uma das más. Ela amaldiçoou a criança no nascimento, de forma que quando a menina tivesse dezoito anos, ela espetaria seu dedo e dormiria para sempre.”

Uma caveira... E uma citação.
A história começa com uma trupe de Três Anões (não, não são Sete, são Três) atravessando uma montanha (perto dela nem mesmo os corvos voam) para chegar ao reino vizinho. Eles vão em busca de um presente de casamento para a Rainha. Ela tem a pele Branca, talvez tanto como a Neve, e cabelos negros. Provavelmente tem lábios vermelhos como rosas também, mas este é livro que tem personalidade. Não nos mostra cores além de branco, preto, mostarda forte e tons de cinza. Chegando num povoado, eles são avisados pelos moradores de que o sono, antes contido a um único castelo, está se espalhando, cada vez mais como uma praga. Em um dia, no máximo, chegaria àquele povoado. E todos dormiriam. Exatamente como eles estavam. Sono de maldição, em que as pessoas não envelhecem. As pessoas não conseguiram chegar a uma conclusão sobre quem lançou a maldição, se uma bruxa, uma fada malvada ou uma feiticeira, mas concordaram que a primeira pessoa a dormir foi uma Bela, que espetou o dedo ao fazer dezoito anos. Tampouco precisaram quando isto aconteceu. A solução para o problema era sabida por todos, no entanto. A única forma possível, como os contos dizem.

A Rainha, que passara um ano dormindo e depois despertou, de todos os humanos, era a única que poderia resolver este problema. E tinha o dever de fazê-lo.

Se despede de seu noivo, que era um Príncipe, apesar de ela ser uma Rainha. E ela parte em busca da Bela.

A narrativa é leve, linda e genial. Inovadora, surpreendente e sagaz. Não é a primeira releitura de contos de fada do Gaiman. Na verdade, não é nem a primeira com a Rainha. Em ambas as histórias com ela, há uma veia erótica forte.

Juro que isto não é spoiler. Serviu até de material promocional para o livro.
Confiem no cara com dentes de vampiro, ele não mentiria para vocês.

A diferença é que aqui o elemento erótico é refinado e exigente, consumindo o leitor como uma centelha numa floresta. Começa como um leve ruído, ou um aroma bem sutil, talvez você nem se dê conta. Talvez você pense estar imaginando. E logo um estalo de luz mostarda irrompe no meio do dos tons de cinza, iluminando. E talvez você precise interromper a leitura para abraçar o livro (porque este é um daqueles raros livros que merece ser abraçado junto ao peito com carinho) e perceber que sim, que há um cheiro de baunilha acentuado nas suas mãos.

Nota:

 e




Rafael

P.S.: considerando a velocidade com que as editoras brasileiras estão publicando os livros do Gaiman, acho que é bem provável que tenhamos uma edição ainda este ano. Espero que seja da Conrad. Contanto que não seja mais uma da Intrínseca ou da Panini, não vou reclamar muito. Também não pode ser da Rocco, ia acabar com o livro.

É, definitivamente a Rocco não ia dar certo com este livro.
Repitam comigo: "Intrínseca não, Intrínseca não, Intrínseca não"
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Sobre Rafael Castro

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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18 comentários:

  1. Nossa! Gostei muito desse livro! Quer para ontem!!r srs Já foi parar nos desejados do Skoob!! ótima resenha!

    Beijinhos

    Mirelle - meumundoemtonspasteis.com

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    1. Olá, Mirelle!
      Que bom que você gostou! E mais ainda, colocou na lista de desejos.
      Deixa eu te dizer, o site da Cultura está com ele em estoque.
      O preço está um pouco salgado, mas definitivamente vale à pena.

      Espero que você goste.

      Bons sonhos,

      Rafael

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  2. Vou torcer para vir logo para o Brasil. E pela Intrínseca não hehe. Essa capa está perfeita e o livro parece ser muito bom. Talvez esse seja o livro que me faça gostar do autor, já que até agora ainda não é um dos meus favoritos. Adorei a resenha!

    Blog Prefácio

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    1. O que você já leu dele?
      Meu livro favorito dele é Belas Maldições, que eu não vou dizer quantas vezes eu já li, mas que rima com "ementa".
      Comecei aí, depois fui para Stardust, Sandman e segui para alguns livros de contos. A partir daí, foi paixão duradoura. Stardust é muito lindo e divertido, por que você não dá mais uma chance?
      Quando sair uma edição brasileira, eu vou comprar uma cópia para mim (com quatro pedras na mão, haha) e deixar ela do lado da outra em posição de destaque no meu quarto.

      Fico feliz que você tenha gostado da resenha e que tenha se entusiasmado.
      Até breve! Bons sonhos

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  3. Achei sua descrição do livro encantadora, a começar pela experiência ao recebê-lo, tocá-lo e cheirá-lo. Infelizmente ainda não li nada do Gaiman, mas imagino que ler a obra na língua original seja mais satisfatório, pena que eu não saiba inglês. Espero que a tradução chegue ao Brasil numa edição à altura.
    Beijos... Elis Culceag. * Arquivo Passional *

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    1. Hey, Elis! Nem sempre, sabia? Depende muito da qualidade da tradução. Eu amo muito minha edição de Fumaça e Espelhos por isto, a tradução dos poemas está perfeita, e desperta tantos sentimentos quanto os originais. O mesmo acontece com as edições brasileiras de Fábulas, do Bill Willingham.
      O problema do Gaiman é a falta de disponibilidade de muitas das obras dele em português.
      Estou torcendo muito por uma edição igualmente linda em português de The Sleeper, é um livro que merece todo o amor.
      Caso queira ler algo dele, recomendo Stardust, Coisas Frágeis e Belas Maldições. Ah, Instruções também.
      Obrigado pelo comentário e pelo elogio.
      Beijo e bons sonhos

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  4. Eu adoro esse seu lado emotivo Rafa! Também sou uma leitora emotiva que acaba escrevendo resenhas do mesmo jeito! Amo Neil Gaiman, ele é um dos meus autores favoritos e certamente aguardo ansiosa para que esse texto chegue ao Brasil em português, da melhor forma possível!

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    1. Humpf!! Você como leitora de teste tem a obrigação de cortar o que não tá bom! (cof cof estou dizendo que se o texto está bom, a responsabilidade é em parte sua cof cof)
      Você ainda vai se convencer de que seu autor preferido é o Gaiman. O número de livros dele na sua estante já comprova meu argumento.
      Chata. Humpf.

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  5. Olá!!

    Que resenha! Fiquei com vontade de ler o livro. Mas quando chegará aqui? Intrínseca foi a responsável por O Oceano no Fim do Caminho, será que ela vai atrás desse? Como você disse, Intrínseca não! rsrsrsrs

    Até mais

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    1. Olá, Natália!
      Meu problema com a Intrínseca começou justamente com O Oceano, então rezemos para que não seja kkkkkkkkkkkk
      Obrigado pelo comentário! Nos vemos!
      Boas leituras

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  6. Oi Rafael, adorei sua resenha e adorei o livro! Fiquei muito ansiosa para que ele venha logo para o Brasil, tomara que esse ano mesmo! Adoro a escrita do Gaiman e essa história parece incrível!

    Beijos

    http://www.oteoremadaleitura.com

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    1. Oi, Kétrin!
      Que bom que você gostou! Este livro foi um da série "Quando eu vi, pensei EU PRECISO TER ISSO", e é um dos melhores e mais divertidos contos do Gaiman.
      Espero também por uma edição tupiniquim digna
      Nos vemos!
      Beijo

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  7. Oie!
    Mas gente, nunca tinha ouvido falar desse livro do Gaiman! Que... diferente...? hahaha Adoro o Gaiman!
    Ótima resenha!

    Beijos,
    www.girlfromoz.com.br

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    1. Oi, Carol!
      Esse livro é o penúltimo lançamento do Gaiman, deve ter quatro meses de lançado. É, se não me engano, foi em outubro do ano passado.
      Espero que você goste do livro!
      Beijo e bons sonhos

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  8. Oi Rafael. Tudo bem???

    Adorei a resenha. Você deixou transparecer todos os sentimentos que tomaram conta de você durante a leitura. Amei! Adoro releituras e espero realmente que chegue logo esse livro aqui no Brasil. E sim, também espero que seja por uma editora que faça um trabalho lindo com ele. Gostaria bastante se a Tordesilhas trouxesse ele, a editora sempre faz trabalhos de diagramação e capa lindos! <3 :D
    Bjoks da Gica.

    Uma Leitora Aquariana

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    1. Olá de novo, Giane!
      Bom te ver por aqui.
      Que bom que você gostou da resenha!
      Quanto à Tordesilhas, acho que eu tenho alguma coisa do Poe publicada por eles. De fato, a edição é muito bonita.
      Acho que esse ano vai lançar também aqui no Brasil a releitura de João e Maria que ele fez, estou ansioso. Muito.
      Nos vemos!
      Beijo e bons sonhos

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  9. Olá! Não conhecia o livro! Aliás, ando percebendo que provavelmente ainda não conheço umas 500 obras do Gaiman! D: E adorei o que você disse sobre o cheiro e capa de um livro!
    Mas por que você não quer que o livro seja publicado pela Intrínseca? Fiquei curiosa agora!
    Beijos!

    www.bibliophiliarium.com

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    1. Olá, Tici!
      Fico feliz que você tenha gostado!
      E olha, este livro é bem novo, foi lançado em outubro/novembro do ano passado, e ele lançou muitos ano passado, então é comum não ver as notícias.

      Vamos lá... Eu considero a Intrínseca uma grande destruidora de livros. Ela tem mais potencial desperdiçado que Transcendence - A Revolução.
      Ela tem artes de capa lindas e nomes bons no catálogo, como O Oceano no Fim do Caminho, o livro da Amanda Palmer (ainda não lançado), a série dos dragões da Cowell e vários outros.

      No entanto, repetindo a comparação que fiz outro dia, o catálogo dela é que nem o currículo do Nicholas Cage: tem coisas muito boas, mas estão tão suprimidas por coisas bizarras que fica difícil dar uma nota positiva. Este é apenas o motivo secundário, afinal, a qualidade das obras que ela publica é relacionado ao gosto individual. O verdadeiro motivo é o seguinte:
      Traduções horrorosas.

      Eu poderia ter superado a publicação de Crepúsculo, 50 Tons e mais todos aqueles romances de mercado, afinal, há um público (grande) que consome este tipo de literatura e eu respeito o gosto e possibilidade de escolha de cada um ler o que quer, se não fosse pelo elefante branco na sala. E o motivo para minha angústia literária não é outro que não o Gaiman.

      Quando comecei a ler O Oceano no Fim do Caminho, senti nas primeiras páginas cheiro de tradução mal feita. No meio do livro eu já implorava para me salvarem daquilo. Eu desenvolvi uma resistência por um livro que eu realmente gosto devido ao trabalho ruim da editora. Tipo, muito ruim. Ruim como em "a pior tradução que eu já vi". O Oceano é um livro em que sentir é extremamente importante. Você deve se sentir como uma criança de sete anos aterrorizada. A edição brasileira não consegue isso. Não se realiza.

      Outros exemplos seguem: comprei Como Treinar Seu Dragão para ler para meu irmãozinho que é obcecado pelos filmes. Ele adorou o livro, eu gostei da história, mas a tradução medíocre. A edição que tenho é a mais recente, com capa do filme, não posso dizer da edição antiga.
      Sem entrar no quesito de qualidade literária da Stephanie Meyer, a Intrínseca fez um trabalho igualmente porco. Traduções literais. Um exemplo: um dado momento, Swan fala sobre como aconteceu alguma coisa e Edward chegou ao lado dela "em uma batida de coração". Esta expressão não soa em português, piscar de olhos. Tem uma série de outros problemas, mas li há muito tempo e fiz questão de esquecer da maior parte.

      Ontem recebi a notícia de que A Arte de Pedir da Amanda Palmer será editada pela Intrínseca. Já estou até imaginando a tragédia. Espero estar enganado.
      A Verdade É uma Caverna nas Montanhas Negras, idem.

      Esta não é a única editora que faz um trabalho ruim nas traduções, a primeira edição de As Crônicas do Gelo e Fogo também foram muito ruinzinhas (editora Leya), bem como aquela série do Tigre, que eu estou me retorcendo há um mês para terminar o primeiro livro (editora Arqueiro). A Panini tem feito um trabalho deplorável com Sandman também, mas nenhuma coleciona uma sucessão de fracassos tão grande como a Intrínseca.

      Acho que eu posso ter exagerado um pouco. Tenho uma pequena impressão. Ah, eu gosto de falar mal de editoras.
      Eu deveria colocar uma nota de fim de página no texto dizendo que esta é a minha opinião e não representa a do blog ou outros colunistas.

      Enfim, desculpe pelo longo comentário.

      Beijo e bons sonhos!

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