O Oceano no Fim do Caminho [Resenha Literária]

Já li muita coisa do Gaiman. Acho que qualquer um que me conhece um pouco sabe que ele é o meu autor favorito há mais tempo do que me lembro.

Não li tudo o que ele escreveu, nem de longe, mas me parece seguro dizer que já li bem mais de metade de sua obra (e algumas outras inspiradas por ela também).

Ao longo do tempo, notei alguns padrões e aprendi a reconhecer algumas diferenças em seus gêneros textuais.   Eu já sabia o que esperar ao abrir um conto ou um romance. Aprendi com o tempo. Ou eu achava que tinha aprendido.

O Oceano no Fim do Caminho foi um livro ao mesmo tempo custoso e recompensador. Aterrorizante e íntimo. Chocante e reconfortante. Também foi o livro que puxou o meu tapete tanto como leitor quanto como fã.

Isto ocorreu porque antes eu dividia Gaiman em duas categorias básicas: contos (incluindo aí outros tipos de histórias curtas como poemas e HQs) e romances. Era relativamente simples identificar uma linha narrativa e prever com uma quantidade razoável de acertos o resultado.

Eu não posso mais fazer isso.

E o motivo é um: este livro, que se tivesse de ser resumido em uma palavra, seria íntimo.



Esta mesma amiga apontou que
esta capa é mais condizente.
Ela pode estar certa.
Uma vez eu disse a uma amiga (e insisti bastante neste ponto) que O Oceano não é um livro do Gaiman, mas sim um conto de terror do Gaiman. Quem adivinhar quem foi esta amiga ganha um high-5 virtual. Dicas: ela é implicante, não concorda com nada do que eu digo e o nome termina com Pandora. Talvez eu estivesse certo, talvez não. Não tenho mais certeza, não que isto importe. Mas eu estou me adiantando.

O Oceano tem estrutura de livro, e conteúdo de conto. Como os contos de Fumaça e Espelhos, ou aquelas histórias publicadas apenas uma vez num número de uma revista ou antologia bem shady, e que te fazem pensar sobre ela durante dias depois de terminada.

O Oceano é incômodo e perturbador. A sensação que tive lendo-o é a mesma que tenho ao ler os contos de Cortázar, nominalmente As Babas do Diabo. É uma pulga atrás da orelha, que se apresenta através de uma espécie de frio na barriga, ao mesmo tempo incômodo, desagradável e delicioso. Viciante e frustrante. Deixa um gosto seco na boca, e o sentimento de que não poderia ter acabado ali, um desespero moderado.


Ilustração de 6vedik, no DevianArt
Uma pausa. Este texto nasceu no meu blog, mas cresceu aqui. Por muito tempo adiei escrever sobre O Oceano no Fim do Caminho porque não sabia o que escrever, o que dizer. Uma resenha não teria o tom de proximidade que eu queria, não seria íntima o bastante. Relatar sensações e reações ao ler poderia ser mais adequado, mas ainda assim, faltava algo.

Uma pausa dentro da pausa: eu costumo escrever sobre coisas que eu adorei ou coisas que tem um enorme potencial desperdiçado e que me desapontaram. E eu não adorei O Oceano. Tampouco posso dizer ele me decepcionou. Ele habita o espaço entre o "Amar de paixão", o "tem algo nele que me elude" e "não é o que eu esperava".



Eu MATARIA por esse kit. Hipoteticamente falando.
Certo. Tenho que colocar um resumo da história em algum lugar. Aqui é um bom lugar, assim como qualquer outro teria sido. O Oceano no Fim do Caminho conta a história de um homem que, após um funeral, volta à casa onde cresceu. Lá ele se lembra. Ele se lembra de uma garotinha, sua amiga de infância, chamada Lettie Hempstock, que dizia que a lagoa atrás da casa era um oceano.  Ele se lembra do roubo do carro do pai, e que o ladrão comete suicídio dentro do carro. Ele se lembra de uma catástrofe que pode(ria) ter ocorrido. Ele se lembra de um horror intenso e terrível que adulto nenhum seria capaz de compreender, que apenas as crianças, na sua inocente sagacidade entenderiam.

A poética do Gaiman é perceptível aí. Há referências mitológicas, intertextualidade com outros livros dele, alusões a personagens que aparecem em grande parte do universo Gaimaniano, mistério e originalidade. Dá quase para sentir os dedos de Caim na obra, escolhendo com cuidado o que vai ser contado, como vai ser contado. Algumas técnicas literárias que merecem destaque são o mise en abyme e o tipo de narrador, que não comentarei para evitar possíveis spoilers.

Este livro é duro. Íntimo. O terror é leve e arrasador ao mesmo tempo. Você se sente como uma criança de oito anos em frente àquela situação, e é tomado por um sentimento similar ao de ler sobre o que acontece entre Marion e Ally em Sunstone: tudo o que quer fazer é entrar ali no meio, parar a coisa toda, colocar um casaco e o braço em torno dos ombros das duas e proteger elas.

Ilustração de Cliffor Harper/agraphia.com.uk, retirada daqui.


O Oceano no Fim do Caminho não é uma leitura fácil. Não pela linguagem, mas pelo livro em si. E a tradução de baixa qualidade que a Intrínseca mais uma vez realizou não ajuda. Já disse mais de uma vez o quanto detesto a Intrínseca.

Eu deveria reler O Oceano. Mas não vou reler tão cedo, por uma razão similar à de eu não reler Entes Queridos: eu não estou preparado. Talvez nunca esteja. Mas estou criando coragem para me jogar novamente em Entes Queridos.

Este é um dos livros mais adultos e complexos que já li. Um dos mais diferentes também. E até hoje, quase dois anos após lê-lo, pensar nele me traz aquele frio na barriga.

Um fato: há um Hempstock em O Livro do Cemitério, e há um Hempstock em Stardust.

Um segundo fato: nós nunca vamos saber o nome do protagonista.

Eu não gosto de colocar notas em livros. Em filmes tampouco, mas o Netflix tem que saber do meu gosto cinematográfico. Já avaliar objetivamente livros é um processo muito mais árduo. O Oceano é próximo demais de mim para que eu possa dar uma nota, então ficamos sem Harrys desta vez.

Rafael
Compartilhe no Google Plus

Sobre Rafael Castro

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

comentário(s) pelo facebook:

11 comentários:

  1. Rafael, até você mencionar a Pandinha eu achava que era ela quem estava resenhando. Você falou coisas que ela mesma disse uma vez. Ganhei esse livro dela numa aposta sobre a final da copa do mundo e também acho que a leitura é difícil, a pesar da linguagem ser fácil kkkk é um livro que confronta nossas ideias e precisa ser lido de vagar. Acho que as pessoas que estão começando a estudar história fariam um bom exercício se lessem O oceano no fim do caminho. Íam entender bem sobre memória. Vou procurar stardust pra ler kkk adorei saber dos hempstocks.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Hey hey, Aleska!
      Já disse o quanto é desonroso pra Jacilene ter apostado o Oceano?
      Desonra! Desonra pra ela, desonra pro gato dela, desonra pros livros dela, desonra pro Kobo, desonra pros mangás.
      E o que foi que ela disse?
      Stardust é lindo lindo lindo lindo lindo!
      E o filme é ainda mais!!! *--------*
      Claire Danes <3

      Ainda assim, acho que minha Hempstock favorita é a de O Livro do Cemitério, que é a bruxinha mais fofaaaaaaaaaaaaaaaaa

      Excluir
  2. u jamais conseguiria fazer uma análise tão profunda e perfeita. Admirei o seu trabalho, realmente fantástico. Talvez por ter sido o único livro que li deste autor, foi grande a minha decepção, não gostei do livro, não gostei do final, não tem final, eu gosto de finais felizes, sim sou mulherzinha que gosta de coisas de mulherzinha, mas diante da sua crítica sou bem capaz de me aventurar pelas letras dele de novo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Marise.
      Obrigado pelo elogio.
      Não se deve conhecer o Gaiman pelo Oceano, é como começar a fazer exercícios físicos e já tentar levantar 150 kg e correr uma meia maratona enquanto carrega os 150 kgs.

      (É, eu sei, não sou bom com analogias.)

      A maior parte dos romances do Gaiman tem finais felizes, ou, pelo menos, um final feliz.
      Claro que isto é bem relativo, para mim o fim de Richard em Lugar Nenhum é feliz, enquanto para outros, pode ser angustiante.

      Se você quiser voltar, recomendo Stardust, O Livro do Cemitério e Deuses Americanos (deixa esse por último).

      Abraço, e bons sonhos

      Excluir
  3. Ainda não li esse livro. Fiquei intrigada por sempre falarem de Neil Gaiman, então comprei para descobri. Estou com outros livros na frente, então quando chegar a vez dele, espero que eu goste. Apesar de ser um livro complexo, como foi dito, espero que me deixe intrigada e mova algo em mim. Os livros servem para isso: para não nos acomodar.
    Bom saber a opinião do blog.
    Ah, eu amo a Intrínseca rsrs
    Abraços Mika,
    Pensamentos Viajantes

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Mikaele!

      Desculpe a demora, semestre muito complicado.
      Como disse acima, não acho legal começar a ler o Gaiman com o Oceano. Ou talvez isso seja neura minha.

      Espero que você goste do livro.
      E, em nota, esta é minha opinião, não a do blog haha

      Abraço e boa semana.

      Excluir
  4. Oi, Rafael! O Oceano no Fim do Caminho foi o primeiro livro que eu li do Gaiman, então imagina o tapa na cara que foi? Terminei de ler e marquei logo o Gaiman como autor favorito porque sou dessas hahaha Também foi difícil fazer a minha resenha, mas tem uma frase nesse livro sobre os mitos que eu acho que é sensacional para descrever o próprio livro: "mitos não eram histórias para adultos e não eram histórias para crianças. Eram melhores do que isso. Simplesmente eram." (ou algo assim)
    Bjo e parabéns pela resenha!

    Tici | www.bibliophiliarium.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Haha como não amar o Gaiman?
      Desde o primeiro livro que li dele ele foi direto pro centro do meu coração como meu autor favorito.
      Depois ele só fez consolidar sua posição e afastar os outros.

      Fico feliz que você tenha gostado do livro e da resenha.

      Acho que uma de minhas citações favoritas do Gaiman é "Chamam de acaso, ou sorte, ou chamam de Destino."

      É claro que a minha favorita sempre vai ser... "Bons sonhos".

      Excluir
  5. Uau!!!! Depois dessa resenha preciso ler esse livro urgentemente!
    Do Gaiman só li Stardust e um outro que esqueci o nome... Gostaria de ler mais livros dele e esse livro parece ser uma boa escolha!

    Beijos,
    Sora - Meu Jardim de Livros

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Sora!
      Espero que você tenha lido e gostado.
      Possivelmente o outro que você leu foi Deuses Americanos, Lugar Nenhum ou Coraline. São os mais comuns aqui, e todos foram reeditados recentemente.

      Desculpe pela demora em responder, semestre longo. Muito longo.

      Beijo

      Excluir
  6. Nunca li esse livro mas sempre tive curiosidade, achei no começo que era meio espirita HUSAH.
    Sua resenha me deu muita vontade de ler!
    Beijos, Tabatha
    http://aproveiteolivro.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir