O conto da Princesa Kaguya [Resenha do Filme]


“O conto da princesa Kaguya” é uma adaptação de Isao Takahata, do Studio Ghibli, do conhecido conto japonês, “O Conto do Cortador de Bambu”. Um dia, um senhor cortador de bambu encontra uma menina pequena dentro de um bambu e a leva para casa. Lá, quando sua mulher a segura, a menina vira um bebê que cresce rapidamente, fazendo com que a senhora até ganhe leite para amamentá-la!

Conforme a menina vai crescendo, ela vai conhecendo os meninos da aldeia e fazendo amigos, especialmente Sutemaru, um rapaz mais velho que a trata sempre com cuidado e carinho. Porém, a alegria da menina dura pouco, pois seu pai adotivo encontra em outro bambu roupas caras e acha que isso é um sinal divino, que ela deve ser criada como uma dama. Como se para provar ainda mais sua certeza, o velho pai também encontra ouro no bambu, tornando-se um senhor rico. Assim, termina toda a primeira parte do filme, onde mostra os primeiros anos de Kaguya em extrema felicidade, vivendo na pobreza e na simplicidade, mas uma vida simples, inocente e livre.


Toda a segunda parte do filme é concentrada na princesa na cidade, vivendo uma vida que ela chama de farsa. A princípio Kaguya até se alegra com as roupas e a mansão, mas logo a nova vida a sufoca. Kaguya não quer ser uma dama, ela quer ser livre, brincar com os amigos e por isso dá bastante trabalho para a senhora que precisa educá-la! Assim, como aconteceu na floresta em que ela aprende as coisas rapidamente, Kaguya tem um talento natural para tudo que faz, principalmente para tocar o instrumento Koto. Sua extrema beleza e habilidade chama atenção de cinco homens ricos que a pedem em casamento. Porém, Kaguya é esperta e já que eles a comparam com joias raras, a moça diz que só vai se casar com quem trouxer as tais joias. Três anos se passam e três homens voltam e mentem para princesa, mas todas as trapaças são desvendadas. Entretanto, a morte de um dos rapazes abala bastante Kaguya, que se sente culpada. Aliás, a culpa é algo que acompanha a princesa que não consegue ser feliz e nem consegue ser aquilo que o pai dela tanto quer que ela seja. 

É possível ver que a princesa alterna momentos de profunda tristeza e conformismo e momentos de rebeldia, até que tudo piora quando o Imperador decide que deve tê-la e tenta levá-la! É neste momento que descobrimos de onde exatamente ela vem: da Lua. Interessante notar que a Lua não tem referência na história em nenhum momento, apenas quando Kaguya se recorda de sua outra vida.


Muitas passagens da história mostram a clara interpretação de Takahata para o conto e uma estreita relação com o budismo, como se a princesa quisesse viver o carma e, uma vez aqui na Terra, sofre ao viver uma vida ao lado de um pai ambicioso. Em determinados momentos Kaguya vive sonhos surreais e depois acorda para encarar a dura realidade de seu sofrimento. Algumas passagens do filme também não estão no conto original, mas ajuda a dar um tom maior na dor de Kaguya e dá uma boa coerência ao enredo. 

“O conto da princesa Kaguya” pode ser interpretado de várias formas, por isso, o final pode ser considerado como um suicídio, ou apenas a volta da princesa ao seu mundo, um castigo para seus pais, ou simplesmente tudo isso e mais um pouco. É um filme que é preciso ver e rever e na diversas vezes se encontra mais e mais referências.


Takahata tem uma tendência a produzir filmes mais dramáticos, sem a leveza dos filmes de Miyazaki, o que não é ruim, apenas diferente. “O conto da princesa Kaguya” foi feito em uma animação que parece gravura, desenhado em papel, o que nos dá um tom mais antigo para a história, o que combina perfeitamente. Não é um filme para crianças, embora eu tenha encontrado algumas na sessão em que estava, e sim uma animação adulta que joga na nossa cara a inversão dos valores e a hipocrisia da sociedade. Filme super recomendado!
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Sobre Michele Lima

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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5 comentários:

  1. Oi Michele,
    Sempre leio elogios a respeito desse filme, e parece ser bem bonito, apesar desse lado aparentemente mais emotivo.
    Adorei o estilo da animação, super linda.

    Ótima crítica.

    bjs e tenha um ótimo final de semana
    Nana - Obsession Valley

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  2. Oi Michele!
    Não conhecia o filme, mas achei lindas as imagens que você mostrou na postagem. A história me pareceu cheia de significados, e como é repleta de metáforas, cada qual deve interpretar de uma forma diferente. Gostei muito da resenha :)
    Beijos... Elis Culceag. * Arquivo Passional *

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  3. Olá!!

    O filme ainda está em cartaz em São Paulo e na semana em que estreou eu preferi assistir o Homem Formiga ao invés do Conto, por causa do horário. Pelo jeito, terei que esperar até que a animação estreie na TV a cabo, como aconteceu com Vidas ao Vento. E depois de ler sobre o filme, me senti mais tentada em ir vê-lo, pena a grana estar super escassa.

    Até mais

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  4. Oii Mi, tudo bom?
    Não conhecia o filme, mas fiquei beeem curiosa!! Obrigada pela dica.
    Um beijo
    Katrine Bernardo

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  5. Não sabia dessa animação, mas fiquei tentado a assisti-la. Primeiramente porque ela faz pensar, o que já me agrada muito. E essa forma de arte que ela foi produzida me chamou muito a atenção, também.
    Excelente dica.

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