Coisas Frágeis [Resenha Literária]

As capas brasileiras. Minha edição americana está com minha orientadora, assim que pegar de volta, eu posto a foto aqui.
Neil Gaiman é um escritor com uma produção literária bem diversificada.

Ele já escreveu romances, HQs, livros infantis, graphic novels (que estou  separando de HQs por costume, entende-se que graphic novels são mais... Gráficas, com um conteúdo mais adulto e discussões mais dolorosas ou, mais comumente,  violentas), adaptações de roteiros e muitos, muitos contos e poemas. Já editou mais de uma antologia de autores diversos e publicou até o momento, se não me engano, 5 antologias de escritos próprios.

Escreverei sobre três delas: Coisas Frágeis (2006), Fumaça e Espelhos (1998) e Trigger Warning (2015), esta última ainda sem edição em português. As outras duas, Angels and Visitations e M Is for Magic, não serão resenhadas por dois motivos: não tenho a primeira, é de 1993, raríssima e é cara. Cara. Cara cara cara cara cara. Cara como um pônei feito de diamantes. E eu não me refiro a uma estátua, mas um pônei de verdade. A segunda, M Is for Magic, por sua vez, é de 2007, e praticamente só contem histórias que foram publicadas em outros locais, seja outras antologias ou em outros livros mesmo.

Não me lembro qual li primeiro, se Coisas Frágeis ou Fumaça e Espelhos, mas considerando o estado dos meus exemplares, acredito que tenha sido este último. Coisas Frágeis, Fumaça e Espelhos e Trigger Warning são bem diferentes em seu conteúdo, mas, de certa forma, são ao mesmo tempo, são similares. Com distâncias temporais grandes entre um e outro, não digo que se pode notar uma evolução em Gaiman, mas uma mudança. Afinal, "chega uma hora em que ou você muda, ou você morre, e você faz sua escolha.".

Coisas Frágeis é um livro que fala exatamente sobre isto: coisas frágeis. Problemas íntimos e indissolutos. Reencontros com amigos distantes. Máfia, tesouros, relacionamentos perdidos e lembranças. Legados. Um pouco de esperança. Dever. Poesia daquele tipo que te faz sorrir ao terminar de ler.

Para falar a verdade, quando comecei a escrever este texto, achei que ia sentar na frente do note e dá-lo à luz todo de uma vez. Bem, nem sempre as coisas funcionam da maneira que planejamos. Agora estou me perguntando a melhor forma de continuar.

Já falei um pouco sobre o panorama geral das antologias, um pouco sobre Coisas Frágeis, talvez o ideal agora seja seguir para alguns dos contos. Meus favoritos. Antes eu vou reclamar um pouco, claro, é impossível ler um texto meu sem que eu reclame de algo.

Coisas Frágeis foi publicado originalmente em 2006. Era apenas um livro. Por algum motivo que eu não sei dizer (na verdade, até sei, foi mercenarismo da Conrad mesmo), a edição brasileira foi dividida em Parte 1 (2008) e Parte 2 (2010), e foi cobrado o preço de um livro inteiro em cada um.

Editar uma antologia dá trabalho. Quem já escreveu uma monografia, tese ou o que seja, sabe como dá trabalho escolher a ordem certa e sequencial, de forma a fazer com que o conjunto faça mais sentido. Imagina fazer isto com 15, 20 textos, colocando num livro de forma a haver uma sequência, linear, e de dar mais prazer ou explosões mentais ao leitor? Não é simples. É cansativo. Demorado. Muita gente tem o mau costume de ler uma antologia de forma aleatória. Eu acho isto um assassinato. O escritor pode não ser o único dono da obra, afinal, um texto é feito tanto pelo escritor quanto pelo leitor, que o constrói e reconstrói, mas quem o editou sabe o que está fazendo e teve o cuidado de deixar melhor para quem está lendo. Me pergunto se estas pessoas assistiriam um filme começando pelos 10 minutos finais, voltariam pro meio, e iram vendo os capítulos de forma aleatória (PULP FICTION E DEMAIS FILMES NÃO LINEARES NÃO CONTAM, se algum de vocês citar Pulp Fiction, eu acho que eu pego o livro mais pesado da minha estante e taco na testa de um. E só pra vocês saberem, meu Teoria da Literatura de Vitor Manuel de Aguiar e Silva tem 900 gramas de puro amor e não é nem o 5º livro mais pesado, tá? S2) O próprio Gaiman já comentou sobre isto, numa introdução, que é alegremente trabalhoso organizar uma, e que você pode (e deve eventualmente) ler fora de ordem, mas vai ser uma experiência muito melhor ler na ordem original.

Mas o que a Conrad fez? Colocou os textos de forma ALEATÓRIA. E uma parte dos contos tem problemas com a tradução. Admito, alguns deles era muito difíceis de traduzir, mas os de Fumaça e Espelhos também eram, e foram impecavelmente traduzidos.
Mas aquelas capas são lindaaaaaaaaaaas, coisa que falta nas edições americanas e inglesas.

A partir de agora, farei um comentário sobre os contos na ordem original, não seguindo o trabalho digno de Jack o Estripador que a Conrad fez (e olha que a Conrad é uma de minhas editoras favoritas).

O Cartógrafo  é um conto curto, que está escondido em uma parte do livro que muita gente ignora. Neste conto, de estética bem borgiana, nos é contada a história de um antigo imperador chinês e sua obsessão de mapear coisas. A melhor forma de se descrever um conto é contando-o. O mapa mais preciso seria o próprio território, preciso ao máximo... E inútil ao máximo. "O conto é o mapa que é o território". O imperador decide um dia criar um mapa da China dentro do lago de seu jardim na escala de 1/1000. A manutenção é cara. Trabalhosa. E em breve ele começa a planejar construir um mapa em escala de 1/100. O limite?
Eu estaria sendo completamente impreciso se dissesse mais alguma coisa.

O primeiro conto (ou seria o segundo?) é Um Estudo em Esmeralda. Nesta história, uma releitura pastiche de obviamente, Um Estudo em Vermelho, conhecemos um novo lado dos detetives. Há um feeling lovecraftiano também arrodeando toda a obra. Foi apenas na segunda leitura que notei a segunda coisa mais óbvia. Gosto deste conto.

A Dança das Fadas  é o primeiro poema que temos no livro (se você não gosta de poemas, não se preocupe, os poemas são de graça, o livro custaria o mesmo se não tivesse eles). É ligeiramente sombrio, ligeiramente ominoso, ligeiramente definitivo, mas, ainda assim, divertido e leve, e deve ser ótimo de se cantar ele no meio de um grupo com um violinista, uma pessoa batendo o pé e umas duas ou três batendo palmas, todos em torno de uma fogueira e um monte de gente dançando, talvez com uma cabra ao redor balindo porque ninguém está deixando ela dormir com esse barulho todo que estão fazendo e, obviamente, todos muito mais bêbados do que acham, se eu fosse jovem e o sonho e a morte fossem distantes como então.

Não que eu já tenha feito isso, imagina. Acho que nunca vi uma cabra que não estivesse assada.

A Vez de Outubro nos lembra de uma tradição: sentar ao redor de uma fogueira esquentando os pés e trocando histórias uns com os outros. Os meses também fazem isto, um de cada vez.

E sim, Setembro me representa. Que nem a Nojinho.

Uma frase meio clichê é que a história é escrita pelos vencedores. Uma mais ainda é que todo discurso convem uma ideologia. E uma terceira, que pode não ser tão clichê, mas que é igualmente brega, é que ninguém nunca planejou se tornar um monstro. Em A Câmara Secreta nós encontramos um Barba Azul diferente. Um Barba Azul discreto, talvez cansado, que decidiu romper com a tradição em alguns pontos. Se ele é um monstro ou uma pessoa que viu o bastante e desistiu, é outra história. O fato é que no poema, leve e delicado, não encontraremos ossos no porão, ou sangue e nem uma porta trancada. Mas talvez, no meio da noite, notemos que há um espaço vazio onde deveria haver um quarto. E isto é tão perturbador quanto a outra opção.

Adoro este poema. De paixão. Ele é íntimo, delicado, perturbador na medida certa, nos faz pensar e sorrir. E talvez no fim você até mesmo simpatize com Barba Azul, mesmo detestando ele devido ao excelente trabalho do Willingham.

Noivas Proibidas dos Escravos sem Rosto na Casa Secreta da Noite do Temível Desejo eu preciso realmente escrever sobre este conto? Acho que não. É um conto divertido, mas não me lembro de nada dele, e eu já devo ter lido esse livro umas 15 vezes. Pode-se argumentar que eu devo ter pulado ele pelo menos umas 10. Ganhou um monte de prêmios, incluindo o Locus de Melhor Conto de 2005.
#TeamDiCaprio

O Cascalho da Ladeira da Memória é uma das muitas histórias deste livro que foi inspirada em uma estátua de Lisa Snellings-Clark. Também não me marcou, mas acho que deveria estar em alguma das edições de O Oceano no Fim do Caminho. Talvez esteja numa edição comemorativa, quem sabe?

Tem algumas coisas do Gaiman que me deixam apreensivo. Que eu não sei quanto ali é o Gaiman falando e quando é o narrador. Hora de Fechar é uma delas. Mesmo as partes que não são verdade. Principalmente estas partes.

Virando Wodwo é mais um poema excelente deste livro. Muita gente não gosta deles (Estas pessoas invariavelmente leram o livro seguindo a (des)ordem carniceira da Conrad). Eu adoro. Tem contos esquecíveis, mas volta e meia um poema vai voltar a passar pela sua mente, e só de ler o título, ou algo que te lembre dele, você terá aquele lampejo.
Virando Wodwo faz isto. E faz você pensar sobre as consequências das ações do personagem.
A propósito: o poema conta a história de uma pessoa que se torna um wodwo, um selvagem da floresta.
E me pergunto como seria dizer meu nome ao vento.

Pó Amargo. Zumbi. De verdade. Santería. Pulp. "Essa gente deve saber quem somos e contar que estamos aqui". Não, sério, isso tem que ser o bastante para fazer qualquer um querer ler.

Os Outros foi por muito tempo um de meus contos favoritos. Segue sendo um dos que mais gosto, mas não sei... Neste vemos bem forte a estética Gaimaniana, com símbolos da mitologia judaico-cristã, a idéia de responsabilidade e algo recorrente em seus contos: a estrutura do Anel de Möebius. O Anel de Möebius é uma figura geométrica sem extremidades, sem fim e sem começo. Infinita.
"-O templo é fluido por aqui." É com estas palavras que o demônio recebe o recém chegado. Um homem. O homem sabia que ali tinha de ser o infenro, não havia outra possibilidade para a existência de ambos. O demônio o pune físicamente, com 211 instrumentos de tortura. Mas antes, um aviso: depois disto, vem algo muito pior.
E vem.

Lembranças e Tesouros... Eu adoro este conto. Simples. Simplesmente adoro. É uma história de leitura fácil, mas extremamente difícil de tragar. É dura. Forte. Perturbadora. É narrada por um leão de chácara de um homem rico. Rico rico rico rico rico. Rico. Nosso protagonista é um homem atroz. Terrível. Eu amo odiar ele. Ele é um monstro. E é um homem. Ele faz algumas missões para o Sr. Alice, seu chefe, e vai nos contando coisas sobre seu passado. Lembranças. Um dia, o Sr. Alice resolve comprar um dos shahinai, uma tribo de jovens belíssimos, os mais belos do mundo, que já serviram de amantes para algumas das figuras mais importantes. Tesouros.

Lembranças e Tesouros é difícil, mas também é, em pontos, reconfortante. É triste. É revoltante. E é um conto amigo.

E talvez o motivo para que odiemos tanto Smith é que ele é extremamente humano. É difícil a percepção de que mesmo os piores monstros são seres humanos, que sofrem, comem, amam e são capazes de eventuais coisas boas.

Garotos Bonzinhos Merecem Favores. Nah.

Os Fatos no Caso da Partida da Senhorita Finch. Yeah.
Ela começa pelo fim. O título te conta o que vai acontecer. E não teremos como impedir. Apenas assistir, imponentes, os fatos em questão. É uma leitura rápida, leve, despretensiosa e, em certos momentos, inspiradora.
Esta história virou uma história ilustrada pelo Michael Zulli (o mesmo que fez as ilustrações de Criaturas da Noite, se não me falha a memória. A Jaci fez uma resenha perfeita sobre Criaturas da Noite, esperem só até ver). Você deveria ler as duas. Todos deveriam ler.

A Deusa do Amor e as Três Estranhas.
Meninas Estranhas é um conto bem diferente, na verdade. Composto por vários microcontos, Gaiman nos apresenta a diversas Meninas. Algumas são estranhas. Outras são familiares. Talvez um dia eu tente achar relações entre algumas delas e outras personagens de outras obras dele.
Minha favorita é a Coração de Ouro. A melhor é a Chovendo Sangue.
Mas nenhuma destas é a que mais me representa.

Sabe quando você conhece algo em uma mídia e quando vai para outra, estranha? É algo como assistir o remake antes dos originais. Você vai se divertir vendo os originais, mas vai estranhar a qualidade da imagem, o quanto é antigo, como a trilha sonora parece velha e desgastada, suja... Eu tenho isto com A Paixão do Arlequim. Conheci A Paixão do Arlequim há quase uma década. Ela foi publicada como livro ilustrado, e ilustrado por ninguém menos que o John Bolton, que é um de meus artistas favoritos. Ele tem um estilo fotorealista, lindo. E eu conheci A Paixão do Arlequim assim. A versão em prosa simplesmente não tem o mesmo efeito para mim, não sente tão bem quanto o livro. Certo. A Paixão retrata uma arlequinada completa, com os personagens presentes e realizando trocas entre si. Um jovem Arlequim, num dia "14 de fevereiro, naquela hora em  que todas as crianças foram levadas à escola e todos os maridos já foram de carro para o trabalho ou então deixados, encapotados, e bafejando vapor, na estação de trem no limite da cidade para o Grande Translado", prega seu coração na porta de sua Colombina com um alfinete que ele comprou em algum lugar... Praga? Gasconha? Ele não lembra. Ela sai, pega o coração, guarda num saquinho ziplock, limpa o sangue com um borrifador e um paninho e vai conversar com o Doutor. A história muda. Os personagens também. E no fim, assobiamos.
Em minha defesa, ele foi impresso em 2002 e eu o tenho desde 2008. E um dia vai ganhar uma resenha.

Cachinhos é uma história que é impossível ser lida sem um sorriso no rosto. Um poema curto, um pai contando a sua filha uma história para ela dormir, e ela participa da história, com aquela certeza que apenas as crianças de dois anos tem. E o pai vai retornando também, em partes, à infância, suas próprias lembranças de histórias contadas a ele. O amadurecimento. A perda da inocência. Uma das histórias mais felizes do livro, simplesmente adorável.

Como você escreve essas coisas, Sr. Gaiman? 
Agora, este é um dos melhores contos do Gaiman. Em todos os termos. Referências, sutileza, adequação, questionamento. O Problema de Susan é uma resposta ao esquecimento/abandono de Susan Pevensie em As Crônicas de Nárnia. Com erotismo, sutileza e dor, Gaiman nos traz uma realidade mais difícil, mais dura, do que C.S. Lewis havia concebido. Que a vida de Susan não foi tão fácil assim. Já escrevi sobre este texto antes, podem encontrá-lo aqui.

Na internet você acha um monte de Instruções. Instruções de como subir escadas. Instruções de como chorar. Instruções até mesmo de como fritar um ovo. Não que eu já tenha pesquisado esta última, claro que não. Mas tem um que é o mais importante de todos... O que fazer se você se encontrar num conto de fadas? Um poema curto, alegre e cheio de referências a diversos contos de fadas das mais diversas culturas. Ganhou uma versão ilustrada, protagonizada por uma raposa, porque todo mundo sabe que raposas são amor. Uma amiga tinha este poema desenhado nas paredes do quarto. E é impossível ler Instruções (que é ótimo para ser lido em voz alta) sem um sorriso no rosto e sem uma enorme sensação de esperança.

Como Você Acha que Me Sinto? Ok, hora da historinha. Muita gente diz que eu não tenho coração. Eu nego veementemente isto. Eu sei muito bem que tenho. Por conta deste conto. Ele conta a história de um homem que coloca uma gárgula acima de seu coração, para protegê-lo. Gárgulas protegem igrejas. Devem funcionar com corações também, não? Eu também tenho uma gárgula. O nome dela aparece neste texto. Ela é uma ótima companheira. Ajuda a lidar com malcriações de crianças, adultos insolentes, vizinhos irritantes e todo o tipo de interação social indesejável.
É incrível a quantidade de poder que damos a quem queremos.
E, dica de amigo: se for ler este conto, leia ouvindo esta música.


Minha Vida é monólogo rápido, dinâmico e que sempre será agradável.


Quinze Cartas Pintadas de um Tarô de Vampiro... O que dizer...
-Sabem o jogo de Vampiro, A Máscara?
-(Pausa para resposta).
-É, aquele RPG antigo, isso. Então, tem um livro de arte desse jogo. E se você procurar o nome do Gaiman numa livraria qualquer, este livro aparece.
-(Pergunta).
-E daí que eu (e muitas outras pessoas que eu conheço) comprei o livro (o meu era o último do estoque da região), abri o livro, comecei a ler e descobri que era apenas a introdução ilustrada e belíssima que era do Gaiman.
-(     )
-Não ligo, é uma outra história composta por vários contos, cada uma para um dos arcanos maiores do Tarot, só que cada um destes arcanos é um vampiro diferente.
-(Pergunta).
-Os outros sete o Gaiman jura de pé junto que ainda vai escrever.
-(Mais uma pergunta.)
-7, 11, 14, 15, 17, 19, 20 e o 22. Provavelmente o 22.

Quem Alimenta e Quem Come... Uma amiga minha adora essa. É divertida. E é uma história real, basicamente. Até onde é possível ser. É perturbadora também. O título diz tudo.

Pediram que ele escrevesse um artigo para um livro de doenças imaginárias. Ele escreveu sobre uma doença imaginária sobre doenças imaginárias, e como ajudantes teve o Babble (que fez participação em Sinal e Ruído) e um almanaque de medicina. Saiu O Crupe do Criador de Doenças.

No Final é o último livro da Bíblia. Simples.

Eu não gosto de Golias. É uma história inspirada/que se passa no universo de Matrix, e eu detesto Matrix. Acho chato e completamente supervalorizado. Péssimos atores. Péssimo roteiro. Péssimas atuações. Péssimo tudo. Detesto o Lawrence Fishburne. Detesto ligeiramente menos o Keanu Reeves. O Hugo Weaving não, ele é bacana. A Carrie-Anne Moss levou 15 anos, mas pelo menos ela aprendeu a atuar.  Chato chato chato chato chato. Juro que no meio desse conto tem alguma coisa relacionada a uma xícara.

Páginas de um Diário Encontrado numa Caixa de Sapatos Abandonada num Ônibus de Greyhound em Algum Lugar entre Tulsa, Oklahoma, e Louisville, Kentucky
Você leu esse título. O mínimo que você deve fazer é ir ler o resto do conto.

Eu não entendi Como Conversar com Garotas em Festas quando li pela primeira vez e certamente ainda não entendo agora. É tudo o que tenho a dizer.

O Dia em que os Discos Voadores Chegaram é LINDO. Não, sério, é. Não tem outra forma de se dizer. É um poema leve, divertido, impossível de se ler sem um sorriso.

Boatos de que houve uma edição especial numerada em poster do Dia.


Eu poderia dizer que o foco aqui é no nome do ilustrador, mas todo mundo sabe que é na caneca da Mulan.

Um presente de aniversário. Gaiman sempre teve problemas com prazos. Quadrinhos, livros, tudo. Sentimos bem forte a inspiração do Douglas Adams neste ponto. Aos 17, Holly Gaiman, a filha mais velha, disse ao pai que o que queria de presente de aniversário de 18 anos era algo que ninguém mais poderia dar a ela: um conto. Mas também sabia o quanto o pai era enrolado com prazos, então não teria problemas se o conto ficasse pronto até o aniversário de 19 anos. O Pássaro-do-Sol é uma história alegre, linear e divertida. Conta a história de um clube epicuriano (que é dedicado a descobrir os prazeres através dos sentidos. No caso deste, o do paladar) que já comeu absolutamente tudo o que há para se comer na Terra. Com personagens apaixonantes, incluindo um descendente de Casanova, uma socialite decadente e um homem que frequentemente perde e reencontra sua fortuna, que ele deixa bem guardada e tem o dever de perder sempre que a encontra, porque só então ele se lembra do porque de a ter perdido em primeiro lugar, Gaiman nos leva a uma viagem até o Egito, onde os epicurianos vão comer uma iguaria raríssima que eu não vou dizer qual é ou perderia um pouco da graça da coisa. Em nota: Holly só recebeu o conto aos 19. E meio.

Trecho da introdução. 
Inventando Aladdin... Não é meu poema favorito deste livro, mas está em terceiro lugar. Mas é o melhor. Trazendo uma discussão metalinguística bem bacana, tanto dentro quanto fora do texto, Gaiman nos mostra um lado diferente de Scheherazade: a mãe. A dona de casa. A salvadora. A escritora. A escritora. A salvadora. Será que estes dois são tão diferentes assim? Afinal, "nós nos salvamos de formas bastante improváveis."

O Monarca do Vale nos oferece um reencontro com um antigo amigo e dois novos conhecido (o Smith e Sr. Alice de Lembranças e Tesouros). Também nos mostra um pouco de mitologia. De poesia. E de perdas. Shadow é o protagonista de Deuses Americanos. Mais do que um personagem, ele é um amigo. Alguém com quem nos preocupamos. Que queremos bem. Seguro. Feliz. Ele tem um dom inato de evitar tudo isto. Depois de Deuses Americanos, nos o reencontramos de novo em Coisas Frágeis, num conto inspirado por Beowulf (lembremos que foi o Gaiman quem fez a adaptação do poema para o roteiro do filme). Foi com grande surpresa e alegria que reencontrei Shadow. Foi com mais surpresa, mais alegria e felicidade que, ao ler Trigger Warning, lá estava Shadow, mais uma vez no último conto do livro, bem como a promessa de voltarmos a nos encontrar. Mas ainda não chegamos lá.

E trecho do poema. Titânia, sai daí, você vai ter sua vez.

Agora há pouco, muito após terminar o texto, agora estou só colocando as imagens (muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito, muuuuuuuuuuuuuito depois, definitivamente não foi anteontem), fiquei pensando que talvez tivesse sido melhor encerrar o livro com Inventando Aladdin, e não com o Monarca do Vale, mas logo dispensei essa idéia. Afnal, O Monarca do Vale é uma história de Shadow, e em Trigger Warning, a história de Shadow também é a última. Talvez seja um padrão. Saberemos em alguns anos.

Não tinha notado o quanto minhas edições estão batidas. Por um lado, é ruim. Por outro, é bom. É o que aconteceu com a maior parte dos meus livros do Gaiman: eles estão velhos prematuramente, vestigios de uma época em que eu levava meus livros para o colégio ou qualquer outro lugar, na mochila. Se por um lado indica um descuido por parte do Rafael adolescente que fui, por outro, também demonstra quanto amor e atenção eles receberam.

Há alguns meses, a Jaci fez um post maravilhoso sobre Coisas Frágeis e O Mal Estar da Cultura. Nele, ela relaciona ambos os livros de forma delicada, dedicada e bela e escolhe as melhores citações para acompanhar. Nem se eu tivesse um milhão de anos e um limite de caractéres eu conseguiria fazer um texto tão enxuto e bonito.

Segue o link:

Fiquei um bom tempo pensando como terminar esta resenha. Às vezes o fim vem antes do início. Nem sempre. Hoje não veio. Acho que... prefiro me lembrar de uma vida desperdiçada com coisas frágeis a uma vida gasta evitando a dívida moral. Porque acho que é assim que hei de me lembrar de você: de formas bastante improváveis.

Rafael Castro
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Sobre Rafael Castro

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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14 comentários:

  1. Olá!

    Bacana sua resenha!
    E acredita que nunca li Neil Gaiman? Sério!

    Me inscrevi sem seu site, inscreva-se em nosso site Irmãos Livreiros também, ficarei super contente!

    Abraços!
    Danny
    Irmãos Livreiros

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  2. Gostamos da sua resenha!! Ainda não lemos nenhum livro do autor!!

    beijos

    http://www.onlyinspirations.blogspot.com.br/

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  3. Olá, tudo bem?
    Já li um livro Neil Gaiman e gostei bastante. Pretendo ler tanto os livros como hqs. Um dos seus livros que mais vem me chamando atenção na atualidade é este Coisas Frágeis, mas não posso deixar de mencionar Erros Fantásticos.

    Até mais. http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

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    1. Olá, Renato! Como está?
      Faça Boa Arte é realmente um livro fantástico, que foi diagramado lindamente. Eu ainda não vi o discurso, no entanto. Foi bom você me lembrar dele, haha
      Se você quer ler as HQs do Gaiman, sem dúvida o melhor lugar para se começar é Sandman e depois ir trabalhando a partir daí.

      No entanto, tenho que dizer: Sinal e Ruído. Lindo demais.

      Abraço, Renato!

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  4. Oi, Rafael!
    Eu ri da edição que é cara como pônei de diamante.
    Nunca li nada do Gaiman, mas o que desperta minha vontade é Stardust.
    Gostei muito da sua resenha. Vou dar uma olhada nessa antologia.
    Beijos
    Balaio de Babados | Participe do sorteio do livro Marianas

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    1. Oi, Luiza!

      Obrigado pelo comentário! E fico feliz que você tenha gostado

      Stardust é maravilhoso. Sou apaixonado pela Yvainne - em especial da Yvainne da Claire - e pela Una do livro.
      Qualquer dia eu tenho que tomar vergonha na cara e ir ler o romance, li apenas a versão ilustrada.

      Até breve! Beijo

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  5. Essa resenha ficou longa, mas também ficou linda! Foi muito consciencioso de sua parte comentar conto a conto, eu adorei isso, a delicadeza da foto de abertura também é tocante, esse é o tipo de texto que quando a gente reler descobre algo que não percebeu na leitura anterior, de certa forma dialoga com o livro do qual fala. Obrigada por ter escrito Rafael, obrigada por citar e elogiar meu texto!

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    1. Hahahahaa sim! Eu não vou mentir, fiquei com medo de ninguém ler.
      E Jaci, não fiz nada diferente do que você faria com o Tio Cartola. Mas você inflou o ego do meu fotógrafo interior S2
      Fico feliz por você ter gostado e tenho certeza de que eles vão amar seu texto de Criaturas da Noite, tanto quanto eu.

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  6. OI! Hoje vi um vídeo falando de Coisas Frágeis e agora me deparo com seu post, e mais vez me pergunto como ainda não li. Do Gaiman só conferi O livro do cemitério e desde então fico protelando as demais obras, não por não ter gostado, eu amei, é pura falta de tempo mesmo.

    Bjos!! Cida
    Moonlight Books

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    1. Hahahaaha que coincidência!
      ADoro O Livro do Cemitério! E adoro Nin, e Silas e a Bruxinha Hempstock! Fofíssimo! Um dos melhores livros infantis do Gaiman!
      Espero que você tenha tempo de ler ele em breve!

      Bons sonhos!

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  7. Organizar uma antologia realmente não é nada fácil. Então é uma pena que tenha havido a publicação na sequência não canônica.
    Quanto aos contos especificamente, fiquei muito curioso por Noivas Proibidas dos Escravos sem Rosto na Casa Secreta da Noite do Temível Desejo. Adoro contos e livros com nomes gigantes; geralmente são excêntricos e cômicos. Esse parece fazer por merece o nome grande.
    Fiquei curioso com o poema A Dança das Fadas. Essa mistura de sentimentos que ele exala, incluindo o sombrio, me agrada.

    Devido ao ataque hacker sofrido pelo blog, voltamos com novo nome e layout. Venha conhecer! Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de reinauguração. Serão quatro vencedores!

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    1. Pois é... E como disse, gosto bastante da Conrad, mas ainda assim, a edição foi esquartejada e isto tem que ser comentado.


      Se você gosta de livros com nomes longos, vou deixar a recomendação - e inclusive, neste livro, encontramos um conto do Gaiman - Pássaro do Sol, se não me falha a memória:

      "Foras da lei barulhentos, bolhas raivosas e algumas outras coisas que não são tão sinistras, quem sabe, dependendo de como você se sente quanto a lugares que somem, celulares extraviados, seres vindos do espaço, pais que desaparecem no Peru, um homem chamado Lars Farf e outra história que não conseguimos acabar, de modo que talvez você possa quebrar esse galho".

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  8. Olá, Rafael.
    Pensei que nunca ia terminar de ler a postagem hehe. Eu só li um livro do autor até agora e não gostei muito. Sempre vejo esses livros em promoção no face, mas até agora não me animei em comprar. Não sabia sobre esse detalhe de terem trocado as crônicas de ordem, muito chato isso.

    Blog Prefácio

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    1. Olá, Sil!
      Pois é, desculpa pelo post longo, haha

      Mas queria realmente comentar um a um, então não deu para diminuir. E eu adoro falar bastante, então...

      Qual livro você leu? Admito que detesto o livro de Coraline, e aquele da Trilogia de Entremundos também. A maior parte dos outros é bonito, ou interessante ou contagiante.

      Espero que você mude de idéia em breve.
      Bons sonhos!

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