40ª Mostra Internacional de Cinema: Ma’ Rosa


O novo trabalho do diretor filipino Brillante Mendoza vem recheado de suas marcas, como o uso de não-atores no elenco, o drama social e uma câmera quase documental captando a história. Certamente este é superior ao seu anterior, Armadilha (2015), lançado também aqui na passada 39ª Mostra – um melancólico e poético drama sobre as vítimas e os sobreviventes do violento tsunami que varreu uma costa das Filipinas em 2014, porém, na prática, um filme de desenvolvimento truncado e exageros melodramáticos.

“Ma”, diminutivo carinhoso de “Mãe”, “Mama”, soa também como o respeitoso pronome de tratamento “Don” dos mafiosos. Rosa Reyes é a matriarca duma família pobre do subúrbio de Manila – num país de capitalismo periférico, ou “terceiro mundo”. O filme explora o drama dessa família imersa numa realidade – que conhecemos bem no Brasil – da qual não podem fugir, mas onde aprenderam a sobreviver e de certa forma se habituaram. Logo no início do longa somos apresentados ao principal núcleo de personagens: Rosa, seu marido, Nestor, e seus filhos. Todos vivem num sobrado de favela onde a parte da frente é também um pequeno comércio, o armazém de nome Ma’ Rosa. 

Constantemente símbolos e signos do poder (político, religioso ou econômico) adornam este universo: seja na camiseta do Kiss de Rosa, seja na euforia da criança por um “ice cream”, nos bonés e camisetas de políticos, no pôster da santa ceia colado na parede do armazém, nas grandes marcas, como “coca-cola”, por vezes presentes em cena, nos detalhes, como se compusessem uma paisagem natural. No entanto, são ressignificados em forma de pastiche, numa espécie de “dadaísmo” social; por isso não são ignorados pela direção de arte e pela fotografia.

Brillante Mendoza geralmente se destaca pelo uso de não-atores misturados no elenco e a locação da favela é real, mas a verdade é que só assistindo ao filme é impossível dizer, porque as personagens dispostas em cena, a fotografia e a locação (ou “cenários”) estão tão naturalizados que o filme se torna real, visceral. Além disso, a dura realidade social de uma classe marginalizada na sociedade capitalista é retratada com afinco. Também é completamente crível como é retratada a vida comunitária que invariavelmente essas pessoas levam e o tipo específico de economia praticada ali: circular, coletiva, permeada de pequenos negócios, empenhos de bens, relações simples de compra e venda, e muitas vezes o tráfico de drogas ilícitas.

Rosa é uma espécie de mafiosa, porém não aquela figura romantizada ou fetichizada do mafioso; ela o é, sem nem saber. A “Ma’” coloca tudo nos eixos. Ela toca o armazém, comanda a casa, cuida dos filhos, do marido (e não lhe importa se ele está viciado na própria droga que vende, pois para ela é até cômodo assim), e no fim, resolverá os problemas. Ela é conhecida nas ruas; quando passa, todos a chamam pelo apelido carinhoso e pedem “gelo” (o eufemismo pro crack que ela vende). Todos sabem de sua vida, seu ponto é procurado, e ela tem amigos e contatos – uma rede comunitária. No entanto, está também sujeita a emboscadas. E a tragédia do filme, seu turning point que moverá as jornadas e vidas das personagens, é quando a polícia prende Rosa e Nestor. É aí então que o filme aborda um tema social espinhoso e profundo, necessário e urgente, e com a mesma credibilidade que retrata a realidade da pobreza, denuncia a corrupção das instituições e gera a reflexão sobre o debate da legalização das drogas.

Alguns policiais à paisana (não fardados, nem identificados) invadem a casa, levam algumas “evidências” e prendem o casal. A segunda parte do filme toda se passará na delegacia onde eles ficarão por mais de um dia detidos. Há muitas referências neste núcleo de personagens. Se a princípio os agentes da lei parecem estar apenas fazendo o seu trabalho, aos poucos (e com competência e habilidade narrativa) nos vai sendo revelada uma face podre das instituições e da lei. Uma corrupção profunda e arraigada, um sólido sistema de exceção em funcionamento ao espio da regra (e justamente posto em prática pelos detentores do poder de ação dessa regra). Com a desculpa do tráfico de drogas e da pesada punição para este crime (prisão perpétua, e a partir de certa quantidade, inafiançável) os policiais estão livres para agir entre as quatro paredes de um departamento de polícia; ali cometem todo tipo de crime contra os investigados (receptação, extorsão, ameaça, furto, corrupção ativa e passiva) e usam ilegalmente o aparelho estatal, arbitrariamente seus distintivos, e a força desmedida contra o cidadão. Apesar de Rosa de fato vender drogas, até plantar evidência os policiais fazem (mostrando que este é um procedimento padrão seu, pouco importando a existência ou não do crime). Nesse contexto todo é de uma ironia fina a câmera enquadrar o detalhe do cartaz na porta da delegacia: “Make a difference, join the PNP” (“Faça a diferença, seja da Polícia”).

A polícia humilha os pobres e fica claro mais uma vez também que aos pobres tudo é negado, até o direito à dignidade. Uma das perguntas em interrogatório é se Rosa e Nestor são traficantes; embora eles de fato vendam drogas no seu armazém (e apesar de a polícia plantar um exemplar da droga na caixinha de dinheiro deles, eles de fato terem alguns saquinhos do produto escondidos), essa pergunta e a resposta que eles darão não é despropositada no roteiro. Eles responderão “não”. E de fato não são traficantes. Não é seu ofício. Eles são, como dirão mais a frente, “gente decente, trabalhadores”. Quantos traficantes de fato existem, e quantas “gente decentes” são dragadas para esse mesmo universo é difícil distinguir – o certo é que a repressão, na inglória luta contra as drogas, definitivamente não tem funcionado (e pelo contrário, tem só gerado distorções do próprio sistema e barbárie).

A maneira orgânica com que Mendoza filma tudo empresta fidelidade à história, por isso o filme é sólido, real. A incrível fotografia que Mendoza retira de uma filmagem documental, crua, é notável e de uma linguagem magistral de cinema (tudo filmado com equipamento de baixo orçamento e câmeras digitais); há enquadramentos esteticamente belos e há enquadramentos com mensagens em subtexto (como o da Igreja ou o dos ricos prédios espelhados sobre a favela, ou a camiseta “Banal Congressman” - “Legislador Banal” - de Nestor). É quase totalmente ausente a trilha sonora e somos embalados por uma peculiar sonorização, muito funcional na história. Os movimentos de câmera e bem colocados takes com câmera na mão são também outros pontos positivos que somam à narrativa.

Na terceira parte do filme, os filhos de Rosa são o foco da história, pois serão eles também corrompidos e empurrados para a situação, em busca de salvar os pais da prisão e pagar o “pedágio” dos policiais. O roteiro vai se fechando na parte final do filme, vamos tendo também a revelação de um enredo bem enlaçado. Jaclyn Jose mereceu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes, pois entrega um competente papel como Rosa aqui (embora uma personagem simples). Aliás, o filme é a aposta das Filipinas para o Oscar 2017 de melhor filme estrangeiro.

Em dada cena, sem diálogos, apenas o silêncio, um olhar e um choro dizem tudo. Rosa observa uma família pela segunda vez (a primeira foi quando era levada para a delegacia): composta de um pai, uma mãe e duas crianças, pobre como a sua, têm trejeitos humildes e servis, são o dito cidadão honesto, um parâmetro de dignidade numa certa acepção moral e ética de sociedade burguesa (e com leis injustas e corrupção institucionalizada) que a personagem percebe que nunca irá alcançar. Seu choro é de culpa, impotência ou arrependimento.

Exibições na 40ª Mostra Internacional de Cinema

Dia 31/10 - 21:20 - Cinesala

Dia 01/11 - 13:30 - Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 2

Dia 02/11 - 15:00 - Cinesesc

Mais informações: http://40.mostra.org/br/home/

Gui Augusto
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Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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