40ª Mostra Internacional de Cinema: Sem Deus


Sem Deus é uma coprodução búlgara e dinamarquesa, obra de uma diretora iniciante (também na competição Novos Diretores), Ralitza Petrova – uma informação bacana dos créditos é que na Bulgária há uma iniciativa de fomento a produções cinematográficas de/com mulheres (tal qual em Nova York, no filme norte-americano “Entrelinhas”, desta Mostra e com resenha aqui no site também). Conta a história da enfermeira Gana (Irena Ivanova), vivendo numa inóspita e desolada cidadezinha búlgara, enquanto trabalha cuidando de idosos com demência num hospital e num conjunto habitacional. A cidade e seus habitantes são esquecidos até pelos olhos de Deus – mas não pela Sua culpa.

A mão da diretora é firme e suave ao mesmo tempo, entregando-nos um longa tenso, pesado e ainda assim perpassado por beleza e poesia dignas do cinema japonês. Sua principal temática é a humanidade – ou a perda dela. A falta de perspectiva de seres humanos ditos civilizados diante das tentações mundanas de um mundo onde dinheiro é tudo o que importa. Não por acaso, temos uma velhinha irrompendo a cena com um discurso nostálgico sobre o tempo de ocupação nazista: “quando os alemães chegaram, nós confiamos neles, eles eram tão civilizados”. Este monólogo faz parte de uma das várias cenas poéticas encontradas neste filme; a carga visual deste longa é potente, bem como os seus diálogos.

A maçante rotina de Gana resume-se à miséria de vida, indo de apartamento em apartamento todos os dias, visitando os mesmos idosos e fazendo as mesmas coisas num melancólico simulacro de mundo. Outros personagens passam pelo seu dia, como o mecânico com quem ela se relaciona (cuja maior intimidade é tomar morfina juntos), o inspetor de polícia (com quem protagonizará uma visceral cena de “amor” fetichista), os estelionatários e agiotas “clientes” seus. Sua infame tarefa paralela é furtar dos velhos seus documentos de identidades, para vendê-los clandestinamente, sendo parte de um nefasto esquema envolvendo seu namorado, outros funcionários (e até membros do Estado). Ironicamente muitos dos seus clientes são “pessoas de bem” – e nórdicos com o estereótipo mais insuspeito possível; certamente uma crítica impressa no subtexto. O único evento capaz de quebrar a bizarra rotina de Gana é um novo inquilino do conjunto.

A enfermeira se confunde com os habitantes do conjunto na medida em que aos poucos se iguala a eles, mesmo sendo tão jovem; ela é viciada em alguns remédios (como a morfina) que ministra aos idosos dementes, lhe falta perspectiva, vigor, sobrevive mecanicamente, sem brilho ou vontade. No panorama daquele conjunto habitacional, as visitas à sua mãe soam também como qualquer outra visita trivial a qualquer outro idoso. Quando Gana conhece Yoan (Ivan Nalbantov), um idoso solitário e de poucas palavras que mora no prédio, instantaneamente é como se um buraco na caverna onde ela vive fosse aberto e um feixe de luz entrasse em sua vida. Ela se interessa de pronto pelo hobby do velho: ministrar aulas de canto a um coral lírico numa quadra abandonada. Toda a ambientação do filme e os locais por quais percorrem Gana são gélidos, estáticos, monótonos, porém, a inversão nas cenas do coral é óbvia quando toda essa atmosfera é quebrada pela luz e pelas cores quentes e um som angelical do canto lírico.

Os humanos aqui são todos desolados e frios, lembrando os do belíssimo longa-metragem de animação Idiots & Angels (2008). O local onde vivem é composto de prédios feios, espaços empobrecidos e destruídos (ruínas de um século de sofrimento e guerras). Um crucial diálogo entre Gana e Yoan é travado num desses sítios do passado, onde há um memorial em homenagem às “vítimas do comunismo”, e enquanto Yoan desabafa – por estar sendo processado no momento, por alguém estar utilizando a sua identidade para cometer fraudes (aquelas mesmas identidades que Gana colabora para vender na clandestinidade) – ele se recorda, admirando o memorial: em 1963 sofreu uma situação em que havia corrupção de agentes do governo e perversidade humana, e hoje, para ele, “não mudou nada”, “está tudo a mesma merda”. Sabe-se que o que foi chamado “comunismo” nessas ex-colônias soviéticas (uma distorção das teorias comunistas) foi um real terrorismo de estado acompanhado de um violento autoritarismo, assemelhando-se a qualquer extremismo (como o nazismo); é chocante a confissão do personagem ao atestar que continua tudo igual, afinal hoje são democracias republicanas e capitalistas, não? Pois por isso a análise do filme vai mais além de política ou ideologias, fazendo um diagnóstico da própria alma humana, tão doente, viciada em drogas e demente quanto os pacientes de Gana – e ela própria.

O nível de desumanidade é tamanho que até para falar o próprio nome para alguém que se quer estreitar os laços de intimidade é difícil (como Gana para Yoan); é como se os personagens não estivessem habituados mais à proximidade e ao calor humanos. E de fato, Gana se autodiagnostica numa cena com a mãe e confessa que não consegue sentir amor, e indaga “existe pílula para isso?”. A catatonia da mãe ao não saber responder ou redimir a dor da filha só demonstra: ninguém naquele mundo sabe amar. E uma cena com uma garotinha solitária no conjunto habitacional, recentemente abandonada pelos pais (sem ainda fazer ideia disso), mostra uma criança fazendo um estranho monólogo com palavras de ordem, imperativos “sim” e “não”, algum palavrão; instantemente a criança torna-se inocente de novo quando abordada por uma agora semi-humanizada Gana, porém não sem antes o fazer por dinheiro. O ódio e a violência contidos na menininha e seu tão precipitado interesse no dinheiro (o reconhecendo como a única linguagem efetiva desse mundo) anunciam não haver esperança para o amor no futuro também.


Os olhares cínicos e vazios de Gana dizem tudo sobre a personagem, em especial, a mesma linguagem visual também a denuncia na cena de um funeral, a única onde pela primeira vez vemos seu olhar mudar, denotando arrependimento, incômodo. A expressividade de Irena é incrível, ela faz um ótimo papel como a protagonista (não por menos levou o prêmio de melhor atriz no Festival de Locarno). 

Há intrigantes posições de câmera no filme, sugerindo o olhar de um observador oculto, constantemente vigiando aquele mundo, ora distante, ora no ponto cego do personagem. Não seria demais pensar que é o próprio Deus acompanhando passivamente a história; Ele é a todo tempo lembrado em linhas de diálogos (“Deus nos proíba”, “você tem fé em Deus? – Não, em mim mesmo”, “Deus irá castigar-lhe”, “é o ‘domingo do perdão’! Você já pediu perdão hoje?”), está na boca das piores pessoas, num mundo aparentemente abandonado por ele, onde a religião cumpre apenas seu também cínico papel (evidente pelo posicionamento da cena do funeral na montagem), onde as pessoas perversas de uma sociedade corrompida escondem suas vergonhas de Seus olhos (seja em apartamentos abandonados, seja por trás de uniformes e vestimentas oficiais). Se Ele não existe mesmo, ao menos a sua Culpa e o pior da repressão que seu nome representa são reais; nem por isso Ele deixa de estar materializado na história: ao final, Gana e alguns personagens irão para um pico nas montanhas Pirin, e é onde o filme acabará; o monte Godless, ou Bezbog, ou monte “Sem Deus”.

Trailer:


Primeira exibição:

Dia 22/10 - 21:10 - Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 6

Outras datas:

Dia 24/10 - 14:00 - Cinesala

Dia 25/10 - 15:00 - Circuito Spcine Paulo Emilio - CCSP

Dia 29/10 - 15:00 - Circuito Spcine Olido

Dia 02/11 - 21:30 - Cinearte 2

Mais informações: http://40.mostra.org/br/home/

Gui Augusto
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Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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2 comentários:

  1. Olá, Gui.
    Achei a premissa bem interessante, e acredito que o jogo de câmeras, com um ângulo diferenciado, dê um toque a mais na obra.
    Sem dúvidas, fiquei interessado.

    Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de outubro. Serão dois vencedores, dividindo 5 livros.

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  2. Caro Gui Augusto, depois de degustar esta resenha, resta aguardar ansiosamente o momento de poder assistir a este filme... Como disse em outro comentário, certamente deveria, também a este filme, apender esta resenha. Suas linhas evoluem, envolvem e nos convidam ao encontro certo e prazeroso do filme aí narrado em seus detalhes, como se visto com lupas, de modo que nada restasse a ser minimamente observado. Belo filme. Bela obra.
    Wyll

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