40ª Mostra Internacional de Cinema: Entrelinhas

Conferimos a Cabine de Imprensa pela 40ª Mostra Internacional de Cinema

O longa entra nesta mostra através da competição Novos Diretores. Apesar de um filme norte-americano e uma história passada em Nova York, a diretora é uma mineira de Belo Horizonte, Emilia Ferreira. Aliás, interessante notar nos créditos que um dos patrocinadores deste projeto é o NYWIFT (New York Women in Film & Television – uma organização sem fins lucrativos, financiada por contribuições de seus membros e com redução fiscal para doadores investidores), que contribui material e moralmente para mulheres cineastas serem empoderadas neste meio e tem como “musa honorária” a atriz Meryl Streep.

O enredo traz um diretor de teatro e dramaturgo, Skene (Edoardo Ballerini) que ao escrever sua nova peça é acompanhado de uma novata dramaturga, Jacqueline (Irina Björklund). A relação dos dois passa por uma tensão, não sexual (ou talvez), mas sim intelectual em que inadvertidamente os dois escritores enquanto escrevem e imaginam a peça, também estão reimaginando o próprio encontro profissional e escrevendo as histórias de um e do outro. Mais do que isso, as personagens se confundem até o ponto de um ser personagem na história e estória do outro[1], e as personagens estarem também escrevendo estórias – num verdadeiro “inception” literário, no qual perdemos a própria noção de espaço e tempo da realidade. Assim, ao longo do filme os pedaços vão se reconstruindo e vamos descobrindo ao pouco a linha principal e as ilusórias, mas esse limite não fica claro até o final do filme – e isso é proposital.


A montagem é interessante e instigante, porém o roteiro é bastante enfadonho e os diálogos pobres. Quanto ao efeito que a montagem tem sobre nós, o filme soa mais teatral, ou melhor, mais literário, do que cinematográfico. Em certos momentos temos a impressão de estar a assistir o que poderia ser um desses romances literários meio genéricos – encontrados aos quilos em livrarias. As estórias escritas por Jacqueline são sempre triângulos amorosos, que contam sobre amor, relacionamentos falidos, casais despedaçados, paixões idealizadas, mas que ao mesmo tempo são retalhos dela mesma ou do que ela pensa ser, por isso a sua personagem também se confunde nelas. 

Há movimentos criativos para deixar a montagem instigante como mencionei, como o uso dos mesmos atores para fazer diferentes personagens (exceto Skeene e Jacqueline – porém, no caso de Jacqueline, apesar de ela ser sempre ela, ao mesmo tempo ela é diferentes Jacquelines) ou o uso de uma desencontrada dublagem para marcar a diferença entre “realidade” e estória. Em dado momento as dublagens saem desse lugar marcado, e de repente vemos Skeene, antes um paradigma de realidade para a história, também ser dublado.



Só reforçam o tom teatral a fotografia (apesar de simples, bem feita), a iluminação e o figurino, e estes também contribuem para o tom livresco – por vezes há enquadramentos passíveis de ser chamados de poéticos, no sentido mais literário do que estético do termo. Mais ainda para este tom contribui também a narração de Skeene, ao longo de todo o filme nos explicando (ou ao menos tentando) a história que nunca é contada, mas só nos é mostrada por relances das outras estórias (inclusive das estórias dentro das estórias); e ao fim, a própria admissão de Skeene, sobre Jacqueline: “lá vai ela, deixando a própria estória que eu nunca vou poder contar”, afinal, não é a vida que estava acontecendo para ela, e sim “Jacqueline que estava acontecendo para a vida”. Ironicamente, a “história que nunca é contada”, como diz um quase lamurioso Skeene (que a desejava contar no teatro), nos é sim efetivamente contada através deste filme.


Dia 21/10 - 21:50 - Espaço Itaú de Cinema - Augusta 1

Outras datas:

Dia 22/10 - 19:20 - Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 2

Dia 27/10 - 16:50 - Circuito Spcine Paulo Emilio - CCSP

Dia 02/11 - 17:40 - Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 6


[1] Vale a pena fazer a distinção, porque apesar de nas regras gramaticais do Brasil ela ser hoje irrelevante, na língua inglesa, original do filme, ela ainda existe (“story” e “history”). No filme há várias histórias se passando, mas uma principal é história para o universo narrativo dele, e as outras são estórias, escritas pelos personagens e que se confundem com a história.

Gui Augusto

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Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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3 comentários:

  1. Oii
    Imagino que não seja um filme muito movimentado não é, pelo que pude perceber é uma trama pacata. As vezes é bem o tipo de filme que estou com vontade de assistir, as vezes não, depende do meu humor, hehe.

    Bj, Van - Retrô Books
    http://balaiodelivros.blogspot.com.br/

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    1. Oi, Vanessa. Obrigado pelo comentário ;)

      De fato, o filme é assim mesmo, como vc descreveu. Como a Mostra é uma maratona rica em diversidade e quantidade de filmes, eu recomendaria outros ao invés desse. Mas de todo modo, vale a pena aproveitar que a cidade está tomada por esse evento lindo ainda durante essa semana e ir conferir algum filminho! Bjs.

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  2. Olá, Gui.
    Gosto de filmes mais lentos, mas esse parece ter abusado de elementos genéricos, o que definitivamente não me agrada. Ademais, a premissa não me ganhou por completo.
    Dessa vez, deixo passar a dica.

    Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de outubro. Serão dois vencedores, dividindo 5 livros.

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