Malone Morre [Resenha Literária]


Antes de mais nada gostaria de avisar: escrever sobre Malone Morre não foi um exercício fácil. Samuel Backett abriu mão de todos os artifícios tradicionalmente facilitadores da leitura, o texto não é divido em capítulos, os parágrafos são longos, nem sempre ele respeita as regras da gramática em um texto difícil de adjetivar.

Nele conhecemos Malone, um homem já idoso, doente, preso em uma cama de um lugar indefinido, pode ser um hospital, asilo, manicômio, casa de repouso... Ele não sabe onde se encontra, nós também não sabemos. Estando em dias de morrer, Malone se mune de lápis e caderno e para preencher seu tempo ocioso escreve o inventário de seus poucos bens e histórias aleatórias sobre personagens igualmente aleatórios, os quais podem ter ligação com seu passado ou não.


Nada é claro ou óbvio em Malone Morre. Se as histórias contemporâneas pecam pelo excesso de explicações, os autores e autoras constantemente fazendo questão de explicar milimetricamente ao leitor todas as suas intenções ao expor seus personagens a essa e aquela situação, Beckett não libera nada. Há ao nosso dispor apenas o personagem principal e sua viagem psicológica através das histórias absurdas criadas por ele, as descrições milimétricas do quarto onde vive, a paisagem vista de sua janela, os seus pertences. Se tudo aquilo tem significado implícito, se há alguma critica a realidade, se cabe problematização ou não, se há sentido para tudo isso... Bem... Cabe ao leitor a responsabilidade de ligar os pontos, procurar sentidos, descobrir se há genialidade na história realmente ou os elogios ao autor são vazios e o "Imperador está nu"¹.

Para mim, evidente mesmo no texto de Samuel Beckett são sujeitos marginais: pobres, mendigos, doentes, subempregados, habitantes daquele mundo existente abaixo da linha da pobreza. Ele aborda o cotidiano dessas pessoas de uma forma muito crua, assertiva, sem dramas, sem aquela romantização da vida tão corriqueiramente feita para arrancar lágrimas de nosso coração sensível. A vida, ou a sub-vida, dos miseráveis emerge da narrativa de Beckett como o que é: ABSURDA.


Todas as histórias contadas por Malone, quer façam parte do seu passado ou não, são absurdas. O próprio Malone e seu inventário de objetos pessoais equilibrados entre souvenir e lixo, esse homem idoso isolado em um quarto de um local desconhecido a ele mesmo, imobilizado em um cama sem contato com qualquer ser humano, é um absurdo. Malone Morre é chocante, cru, ABSURDAMENTE REAL, palpável, encontrável em qualquer esquina... Como pode??!?!?

Dito isso, preciso admitir, as 128 páginas de Malone Morre me soaram tão pesadas quanto por exemplo as mais de mil páginas de Os miseráveis. A temática dos dois livros são semelhantes, divergindo apenas quando Victor Hugo te mata de tanto chorar e Samuel Beckett só te deixar "absurdada" no canto, pensando em o quanto a vida é absurda.
____________________________

Notas:
¹ Referencia ao clássico conta de Hans Christian Andersen "A nova roupa do Imperador".
Compartilhe no Google Plus

Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

comentário(s) pelo facebook:

13 comentários:

  1. Olá!!

    Primeiro gostei muito do seu texto, expressou bem sua impressão do livro e me deu um contexto sobre o que se trata mais ou menos.
    Não sei se eu leria, mas gostei de qualquer forma.


    www.ooutroladodaraposa.com.br

    ResponderExcluir
  2. Oie.
    Uau... Que resenha. Tenho que admitir que fiquei curiosa para saber mais sobre a obra porém, não me bateu aquela vontade de ler, sabe?
    Vi no instagram várias pessoas falando sobre esse livro e essa coleção da Folha de S. Paulo, quem sabia um dia leio... Achei interessante, espero que um dia desperte em mim desejo para ler esse livro.
    Gostei da resenha!
    Beijos,
    Keth.
    www.parbataibooks.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
  3. Infelizmente, acho que essa não seria uma leitura agradável pra mim. Essas páginas pesadas, a falta de divisão de capítulos e parágrafos extensos, acho que seriam cansativos. Mas a premissa é mesmo interessante, a forma como o personagem descreve o que vê e como impacta o leitor.

    xx Carol
    http://caverna-literaria.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  4. Nossa Jaci! Parece ser pesado, mas ao mesmo tempo deixou-me curioso. Fico pensando se eu gostaria de ler ele... Gosto de poucos personagens em histórias, mas não gosto de descrições excessivas... Buguei kkk abraços!!

    ResponderExcluir
  5. Oii,
    Realmente parece ser um livro pesado, Esse não faz tanto o meu gênero :| então eu vou deixar passar.
    Bjs e uma ótima noite!
    Diário dos Livros
    Siga o Twitter

    ResponderExcluir
  6. Nossa, você falando sobre a escrita do autor, me lembrou bastante os livros de José Saramago que são muuuito difíceis de se ler pela forma atípica que ele escreve, mas no final das contas se tornam ótimas leituras....


    Bj, Van - Retrô Books
    http://balaiodelivros.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  7. Gostei da resenha. Amo livros intensos e fortes e essa comparação com Os Miseráveis, de Victor Hugo, só me deixou ainda mais ávida pela leitura da obra. Abraço!

    www.newsnessa.com

    ResponderExcluir
  8. Oie,
    não conhecia o livro, mas parece interessante.
    Acho que não iria curtir tanto a leitora, mas a premissa é boa.

    bjos
    Blog Vanessa Sueroz

    ResponderExcluir
  9. Olá, tudo bom?
    Eu não sei se leria esse livro, não gosto de história triste e ao me ver esse é bem assim. Talvez se um dia o encontrasse no meu armário de livros.
    Eu gostei bastante da sua forma de expressar sobre o livro. Apesar de tudo, fiquei bem curiosa para saber como é toda a história e essas coisas.

    Sessão Proibida

    ResponderExcluir
  10. Oi, tudo bem? Ainda não conhecia o livro, mas adorei conhecê-lo! Achei a capa linda e a premissa bem bacana. Seus comentários também me fizeram querer ler o livro. Adorei a resenha! <3

    Abraço

    http://tonylucasblog.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  11. Eu gostei muito da sua resenha, mas infelizmente o enredo não despertou o meu interesse. Mas tenho que confessar, que achei a capa muito bonita!
    Mil Beijos!
    http://pensamentosdeumageminiana.blogspot.com.br/2016/10/cinema-outubro-2016.html

    ResponderExcluir
  12. Nao conhecia o livro, mas fiquei bem curiosa. Gostei da premissa, do absurdo, da falta de explicações, de não sabermos exatamente onde o personagem está ou o que são as histórias que ele conta...gostei principalmente dessa sensação de desconserto que o livro parece deixar no leitor. Foi para a lista!
    Beijos,
    alemdacontracapa.blogspot.com

    ResponderExcluir
  13. Olá, Pandora.
    Confesso que esse livro não é para mim. A cada nova palavra que lia da sua resenha, mas certeza de que não vou gostar eu tinha. E também não li Os Miseráveis ainda hehe.

    Blog Prefácio

    ResponderExcluir