Certo Agora, Errado Antes [Resenha do Filme]


Eu há muito tempo atrás estabeleci que não gosto de comédias românticas. Criei para mim uma imagem estereotipada com declarado preconceito por filmes deste gênero. Depois de um tempo eu percebi que isso era culpa de Hollywood; a Indústria do entretenimento foi quem provocou em mim esse asco pelo gênero e a certeza de que qualquer filme de comédia romântica seria clichê, repetiria personagens e estórias, carregaria um idealismo aborrecedor e traria daquelas situações romantizadas inatingíveis pra satisfazer os desejos de carência de pessoas solitárias – eu me sinto particularmente ofendido por tal tratamento ideológico, pois, enquanto solitário, me sinto idiotizado e infantilizado.

Percebi que a culpa não era do gênero e sim da indústria, quando resolvi explorar este mesmo gênero em outros Cinemas. Dentre os representantes deste gênero mundo afora, um diretor que traz comédias românticas interessantes é o sul-coreano Sang-soo Hong, deste “Errado Antes, Certo Agora”. O filme retrata um encontro casual entre um homem e uma mulher, os dois solitários, tocando suas vidas cada um a seu modo. Ham Cheon-soo, um diretor de cinema, está na cidade para a apresentação de seu novo filme em uma mostra local e tem um dia livre; a moça, Yoon Hee-jeong, pinta quadros por hobby. Ham encontra Yoon sozinha num ponto turístico da cidade e inicia uma interação, um pouco tímida, mas que dá certo – principalmente pela sua fama de diretor, pois é quando ocorre uma identificação. A partir daí eles tomam um café, vão ao ateliê de Yoon, jantam num sushi bar, e encontram amigos de Yoon, até tarde da noite, quando ela deve ir para casa sob o olhar vigilante da mãe. No outro dia, Ham tem a apresentação de seu filme.


Um estereótipo de relacionamentos e de encontros muito romantizado é provocado aqui, porque somos instigados a realizar uma fantasia: todo mundo aqui já vivenciou uma situação que “não deu certo”, uma frustração amorosa, e já idealizou – durante o inevitável maldito ciclo de Kübler-Ross que sucede toda situação dessas – em como “seria se...” você tivesse feito isso ou aquilo; ou como teria “dado certo” assim ou assado, não é? Já se arrependeu de “naquele tempo” não ter esta sua “experiência” de hoje – ahh, que as coisas “certamente seriam diferentes”... Pois bem, o longa brinca exatamente com isso ao nos colocar diante da realização deste “sonho” – através dos personagens – de reviver um encontro que tinha “dado errado”, mas agora com um novo know-how

Na sua primeira hora, a história de amor sai “errada”. No meio, um corte seco e uma tela quase como anunciando “FIM” dão um choque no espectador que pensa “ora, o filme tinha apenas uma hora?”; e não, é tudo questão de segundos até a tela abrir novamente num fade in e a história recomeçar, mas agora da maneira “certa”. O “dar certo” ou “der errado” aqui não são absolutos, e até isto é uma opção narrativa interessante para desconstruir as noções romantizadas que temos sobre estas duas expressões. Na segunda hora, portanto, através de alterações sutis na narrativa (os detalhes importam) e no roteiro e algumas alterações mais bruscas – resultado dos novos caminhos tomados pelos personagens – o encontro é conduzido de maneira totalmente diferente.

O foco é na dinâmica entre os dois atores, o filme poderia perfeitamente ser montado como uma peça de teatro (ele pode transitar entre diferentes abordagens artísticas graças ao competente trabalho da atuação). É incrível a habilidade dos atores na mudança de comportamento dos personagens, transitando entre o sutil e o extremo. Destaque para a personagem de Ham, o ator dá um show de interpretação na mudança de personalidade entre as duas situações retratadas. Através de uma magistral harmonia entre atriz e ator principais, somos levados a acreditar e a desacreditar, e temos paradoxais sentimentos em nós despertados em duas horas de filme que separam dois momentos distintos. 


Na primeira hora, somos muitas vezes tomados por uma angústia ao ver a insegurança do rapaz, os silêncios constrangedores, um certo egocentrismo, uma inexperiência, e no fim, o encontro termina estranho, mal resolvido, ficamos com um gosto amargo na boca – porém não fica retratado o fracasso absoluto. Na segunda hora somos tomados por uma ansiedade, ao ver que o excesso de confiança do rapaz, com uma pitada de arrogância, talvez leve o encontro a um fim trágico, mas ele perdura, e outras situações nos provocam a ansiedade e a surpresa ainda, não acreditamos, e no fim, o encontro parece ter dado certo, mas não da maneira que imaginávamos (e esta é nossa romantização sendo provocada) – não fica retratado o sucesso absoluto. 

É tudo muito cuidadoso, do ponto de vista narrativo, inclusive as opções de movimento de câmera e enquadramentos acompanham as mudanças de comportamento das personagens – eu só deixaria de lado aqueles toscos zooms digitais que o diretor adora. Estes elementos só magnificam e favorecem a ótima atuação. No geral, na experiência final do longa, ficamos satisfeitos e nos sentimos com afeto por aquela história, sentimos que há um pouco de cada um de nós ali. Não fica de lição uma moral infantilizada de “final feliz” (há uma desconstrução do estereótipo do relacionamento “certo” ou “errado”) e nem um dogmatismo ideológico para relacionamentos, constantemente presente nas comédias românticas blockbusters – que pretende vender um modo de vida, de ser-agir.


Desafiando os arquétipos comumente trabalhados neste gênero de filme, somos ensinados que não há certo ou errado, não há receita, e é inútil até mesmo se arrepender de não ter tido aquela “segunda chance”. O filme retrata que o final de cada situação de encontro, a cada hora, não atende às nossas impressões do que é errado e do que é certo, as coisas são como têm que ser, como têm que acontecer. Ali temos duas horas para verificar isso; na vida, temos todas as horas, e cada uma vai terminar como tinha de terminar, e você irá agir como deveria agir, segundo a sua natureza. Os resultados disto não são manipuláveis, e a experiência que você tem hoje, não daria pra ter na hora anterior. Se você achou que “errou”, você “erraria” tudo de novo se tivesse a chance; mas a questão que vale a pena encarar é conceitual, subjetiva e sem resposta geral: o que é o certo e o que é o errado?

FICHA TÉCNICA

Título: Certo Agora, Errado Antes
Título: Jigeumeun Matgo Geuttaeneun Teullida
Ano: 2009
Diretor: Sang-soo Hong
Distribuição: Zeta Filmes


Gui Augusto
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Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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1 comentários:

  1. Eu te entendo perfeitamente bem! E peguei birra com o gênero pelo mesmo motivo.
    Não conhecia esse filme, mas irei dar uma chance sim *_*

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