O Lamento [Resenha do Filme]


O longa abre impactante e misterioso com uma passagem bíblica na tela: Lucas 24:37-39. Este simples escrito dá o “tom” da “canção” que será “tocada” nas próximas duas horas e meia de duração: tal qual o da parábola, o tema do longa será o limite do medo entre o natural e sobrenatural; além disso, ao lado da mitologia coreana e de religiões de matriz espiritualista, a religião cristã terá destaque central na narrativa. 

Uma câmera frenética, constantemente em movimento, porém bastante equilibrada, sabendo parar e ser contemplativa nos momentos certos empurrará o espectador para dentro de uma história de terror diferente do convencional. Travellings tensos que te envolvem no mistério contribuem para a ambientação; um cenário bem construído, por vezes lembrando a imersão num jogo de investigação ao estilo Resident Evil (dos primeiros); e o excelente trabalho de maquiagem e de efeitos especiais também são fatores que contribuem. 

O estilo não convencional do longa consiste na aposta em elementos incomuns ao terror no cinema blockbuster – padrão de terror norteamericano. Então aqui há um corajoso flerte com a fantasia (sem medo de comprometer a estrutura narrativa de suspense policial, que se mescla bem com essa opção), uma interessante inserção de humor (diálogos ou situações surreais, trazendo tom leve e cômico ao filme, quebrando a atmosfera que poderia ser constantemente tensa), e uma fotografia muito bem tratada (estampando paisagens e imprimindo beleza estética em alguns momentos de transição). 


Nada disso, entretanto, provoca o abandono da opção narrativa principal, e com maestria o filme sempre sabe voltar ao terror. A atmosfera de tensão, cuidadosamente confeccionada aqui, já te deixa compenetrado no mistério antes mesmo da abertura: quando o letreiro com o nome do filme irrompe na tela, você nem se lembra que ainda é apenas a introdução, e já está avidamente esperando pelo desenrolar das questões, que são, inicialmente, em menos de quinze minutos de duração, muito bem estabelecidas – base para todo o desenrolar da trama. 

Apesar dos bons aspectos, há algumas mancadas. O roteiro é um pouco fraco, no geral, peca na repetição desnecessária de elementos dramáticos e nos diálogos às vezes frívolos. Parece haver algumas falhas de montagem no filme também – aliás, algo numa cena essencial no meio do longa soará como uma estranha e inexplicável motivação para os personagens, do porquê não tomarem ali uma atitude esperada (e de fato, não há posteriormente uma justificativa para sua inércia, o que deixa um furo narrativo que soa mais como abandono da lógica em favor de um mote a qualquer custo para continuar a história). Outro ponto negativo seria um exagero de atuação (de alguns atores, ao menos), muito caricata. 

Mas “apesar dos pesares”, na própria história o filme contorna esses problemas todos; a montagem é o seu grande trunfo, na verdade: a edição é a principal responsável pela construção do suspense (isso fica evidente nos vinte minutos finais, quando criará um perfeito jogo de cenas na tela que deixa o espectador preso à vácuo na cadeira, esperando a resolução). Tudo é permeado de muita simplicidade, e este é outro trunfo do filme: preferir a simplicidade narrativa. Por fim, o problema dos atores é contornado pela própria qualidade do casting: o herói, Jong-Goo (Do-won Kwak) não é nenhum galã (me senti até identificado na tela: um herói com barriguinha) – evidenciando o interesse de um cinema que se importa mais com a narrativa do que uma oportunidade de se usar como vitrine comercial e representação de ideais estéticos dominantes –, a atriz-mirim, Hwan-hee Kim (na pele da garotinha Hyo-jin) tem a competência e o potencial de muito ator veterano, e por falar nisso, o veterano, Jun Kunimura está aterrorizante como o misterioso personagem, “Japonês”. 


O Lamento por vezes lembra outro ótimo representante do cinema de horror contemporâneo, o inglês A Bruxa. Embora não se pareçam tanto narrativamente (especialmente por aquela inserção de humor ou pelos flertes com o melodrama –verificáveis neste sul-coreano), são similares na bem-sucedida produção de tensão e expectativa. É assinalável também como os dois fogem com sucesso daquele manjado terror apelativo de sustos fáceis. O Lamento’consegue ser aterrorizante como um todo, isto é, o terror está diluído por todo o filme, aparecendo não em cenas marcadas ou momentos isolados de susto, e sim surgindo fluido e entremeado através de cada ato, de cada cena, de cada figurino, fotografia etc. 

O aspecto mais importante desses filmes é o paralelismo estético feito com o conto de terror clássico. Aquele inglês traduz para uma linguagem cinematográfica o clássico conto de terror de bruxas (o terror de literatura gótica inglesa, como dito antes, não apelativo, e sim de atmosfera aterrorizante, de flerte com o fantástico). Este sul-coreano faz o mesmo, porém com uma personagem e elementos de conto de terror clássico de sua cultura: o espírito maligno. 

O Lamento vai até mais além, e faz uma variedade de citações e homenagens aos deliciosos clichês do horror: mistura à história principal referências a possessões demoníacas, o padre impotente (e a impotência da fé cristã), zumbis, canibalismo, necromancia, animais com comportamentos estranhos. No entanto, o centro do suspense de sua trama gira em torno de uma clássica história oriental de fantasma, com tudo o que tem direito de afetações da cultural local: religião espiritualista, xamanismo, demonologia. Assim como a bruxa está no imaginário folclórico inglês, o espírito maligno está no imaginário folclórico asiático (com variantes em cada país). 


A partir da metade (especialmente após aquele problema de montagem que mencionei) o filme parece que vai matar a fantasia para revelar uma história realista de fundo. Porém, ele não se rende facilmente a este batido plot twist, e aquilo que afirmei poder ser considerado certa falta de lógica narrativa, ao final percebe-se que tem uma função mais condizente com a proposta do filme: ele a todo tempo está no limite entre realismo e fantasia, e até o ultimo minuto do longa parece não fazer uma opção certa por um deles. E nem deveria. Toda a experiência de assisti-lo reside exatamente nesta bem elaborada zona de estranhamento, nesse mistério, nessa falta de explicação, o que, a uma, salva o roteiro de um enfadonho didatismo e, a duas, cria magníficos jogos de suspense e tensão entre elementos e cenas. 

Se você for um caxias cinematográfico, resistente a experiências fílmicas estrangeiras, até o final do longa você pode estar sendo só arrastado por curiosidade, pode até se questionar sobre a sua qualidade em alguns momentos, mas uma coisa você não pode negar: você está absolutamente inserido na história, curioso pelo seu desbravamento. É isso o que talvez fundamente também a desnecessidade de um roteiro forte. Os aspectos mais sensíveis da obra são o que interessa; a finalidade é intrigar e aterrorizar (numa acepção não de “susto”, mas sim, psicológica), e isto é bem alcançado pelo trabalho de pós-produção e de fotografia. Sem dúvida é daqueles suspenses que te deixam pensando e matutando por algumas horas a fio. E se na mesma noite você não conseguir dormir, não será por medo, mas sim por curiosidade; porque estará até a hora de deitar a cabeça no travesseiro tentando juntar as peças daquele mistério e se convencer dos fatos ocorridos, como um verdadeiro “xeroque rolmes” sobrenatural.

Trailer:

FICHA TÉCNICA

Título: O Lamento
Título Original: Goksung
Diretor: Na Hong-jin
Data do Lançamento: 22 de dezembro de 2016

Gui Augusto
Compartilhe no Google Plus

Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

comentário(s) pelo facebook:

2 comentários:

  1. Gostei da dica Gui. Realmente os espíritos povoam o imaginário do povo asiático e já assisti vários filmes de terror orientais que usam e abusam dessa temática. Achei o plot do filme bem interessante e assistiria com certeza. Abraço!

    www.newsnessa.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Vanessa. Obrigado pelo comentário! Assista sim! Bom filme! Abraço!

      Excluir