A Garota Desconhecida [Resenha do Filme]


Os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne (vulgos ‘Irmãos Dardenne’) são veteranos do cinema francês independente moderno. Com a habitual recepção calorosa nos principais festivais de cinema pelo mundo (incluindo a 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2016), sua obra mais recente, A Garota Desconhecida, traz um típico drama social europeu; e chega em boas brumas, na esteira da repercussão positiva do inglês Eu, Daniel Blake, de Ken Loach – e mesmo propósito narrativo: traduzir complexas questões sociais numa história simples, cotidiana, de uma personagem com alta identificação com o público.

Na nova obra dos franceses, a jovem Adèle Haenel (fã confessa dos irmãos) é a pragmática médica Jenny Davin. A Dra. Jenny é uma figura solitária, mas minimamente bem-sucedida dentro dos parâmetros da vida em classe média (arquétipo bastante comum entre pessoas de 30 a 40 anos hoje). Formada, empregada, em vias de assumir seu próprio consultório, não tem muitas outras perspectivas na vida. Passa seus dias meio letárgica, repetindo suas funções mecanicamente, tratando seus pacientes com a frieza de um ofício e dando alguns “cascudos” morais no estagiário.

Apesar de Adèle não convencer muito no papel, (com todas as mudanças que ele comporta), a personagem é muito significativa. Num certo início de noite toca a campainha, alguém bate à porta do consultório, o estagiário se prepara para atender, mas com a firmeza de um oficial nazista a Dra. o impede e atesta: fora do horário comercial nunca atenda a porta! Dias depois, descobre-se: quem batia era uma garota, negra, mais nova que a Dra., e totalmente desconhecida. O problema: essa descoberta se dá na delegacia, pois a garota foi morta.

Já aí outro retrato social básico contemporâneo da França, e não só dela, mas da Europa: a questão da imigração (preconceito, violência e outras agruras) toma o plano de fundo do arco narrativo. Porém, não é a única a ser levantada. Na construção da personagem de Jenny mesmo há abertura pra uma série de temas universais a serem tratados. Sua solidão é uma solidão de toda uma geração de pessoas (da sua idade e classe social) – e a paleta de cores, repleta de cores frias e tons cinzas favorece um sentimento melancólico –, e é também, em geral, acompanhada de uma espécie de tédio generalizado, de individualismo e de indiferença pela alteridade. Há espaço, ainda, para discutir o machismo e a cultura do estupro e a dificuldade de ser mulher e independente numa sociedade com tais traços (seja imigrante, seja uma profissional bem sucedida de classe média).


A jovem indigente se torna um inesperado fardo, um sentimento de culpa por não ter aberto a porta naquela noite (fora do horário) cresce em Jenny e vira a sua cruz, a ser carregada pelo resto da história, mas também a mola propulsora das mudanças gradualmente provocadas em seu caráter. Um elemento de cena utilizado para não nos deixar esquecer que algo incomoda, que algo está inacabado, que algo “apita” no fundo da mente é um irritante som diegético, ora de toque de celular, ora da campainha do consultório, praticamente presente em toda sequência do filme, a ponto de nos causar a inquietação da personagem.

Aliás, o roteiro é muito cuidadoso com os detalhes. Numa manobra bastante inteligente opera com as sutilezas na própria estrutura narrativa. O mote é simples: uma pessoa morre, mas essa pessoa é uma imigrante africana na França atual. A morte é elemento puramente narrativo; mas mesmo invisível, está presente a todo tempo, e é o elemento transformador de toda a jornada da protagonista, ao redor do qual orbitará uma série de outras máculas sociais que o filme quer abordar.

Há apenas um leve problema de execução do roteiro. Ela não se faz tão envolvente quanto talvez pudesse ser, a exemplo do cativante Eu, Daniel Blake, entregando-nos uma história mais discursiva e engessada e, por vezes, alguns diálogos ruins e situações “forçadas” para passar a mensagem. Há no inglês, diferentemente deste francês, uma naturalização das questões sociais levantadas a ponto de as entendermos por nos serem traduzidas como emoção pura (apesar dos excessos melodramáticos daquele). Por outro lado, a história também nos remete ao clássico moderno norte-americano, Filadélfia, ao abordar assim questões sociais profundas enquanto é ambientada num drama de aspectos bem urbanos, e com personagens e cenário familiares a uma boa amplitude de público.

O filme dos irmãos Dardenne demonstra um domínio de câmera na mão e closes em rostos e olhares que captam na tela as emoções faltantes no roteiro. Não se pode deixar de observar também o cuidado da montagem em construir suspense, seguindo bem a cartilha de um suspense policial e nos deixando sempre curiosos pelo desfecho. Apesar de um drama, há constante uso de elementos para marcar tensão e expectativa, seja na sonoplastia, na trilha, seja na fotografia e nos movimentos de câmera. Isto, pois, Jenny acumula à sua função de médica as funções de investigadora, detetive e até de psicóloga na sua empreitada. Seu objetivo é algo tênue: descobrir o nome da garota (e garantir-lhe um enterro decente, longe da ala dos indigentes, caso nenhum familiar apareça para reivindicar). 


É sintomático da culpa sentida por Jenny fazer tudo o que ela faz (inclusive arriscar a vida) para atingir um objetivo tão simples (uma curiosidade pessoal), soa como obsessão, mas é demonstrativo das decisivas mudanças de personalidade pelas quais está passando: ela quer entender, aprender, explorar a vida e a história daquela desconhecida, pois assim é que irá se conhecer também. Não sabemos se a garota desconhecida do título é Jenny ou a morta.

O roteiro não nos deixa passar despercebido que algo está mudando, e comprovam a “virada” situações como a postura da Dra. diante do novo consultório (com o “discreto charme” de plaquinha na porta e tudo) prestes a assumir ou como a nova postura diante do ex-estagiário. O ápice desta mudança é a linda cena final, curta, mas lenta e silenciosa, contemplativa: uma atitude tão simples, porém tão significativa, que é o próprio retrato da ternura e da solidariedade operando milagres no ser humano, até, e inclusive, nos pequenos gestos, nos detalhes minoritários.

Pode-se dizer com certeza que Jenny beirava a psicopatia antes do fato transformador convidá-la a uma maior compaixão para com o mundo ao redor. Mas ela não é um caso isolado, o que é verificável nas opiniões de algumas personagens sobre Jenny dever ou não abrir a porta: a preocupação maior nem sequer é a garota morta, e sim a primazia da regra social de abrir a porta de um estabelecimento fora do horário comercial. Essa fuga para uma discussão puramente conceitual é reveladora do estágio de naturalização da barbárie em que estamos vivendo: basta-lhes discutir a conduta moral de Jenny; a morte de um desconhecido parece aceitável (especialmente a de um imigrante, por vezes indesejado na sociedade), descaracterizando-se alguém de sua própria condição humana. 


É irônico que justamente a figura de uma médica, quem universalmente tem como juramento colocar a vida das pessoas acima e a frente de tudo, caia numa jornada de redenção na qual terá de arduamente restituir sua sensibilidade e solidariedade. Mais do que medicar pacientes, a médica foi a eleita para diagnosticar os males da sociedade. Ao cabo, este filme é mais um a somar voz ao coro de uma filmografia muito recente, contemporânea, com um apelo comum evidente em produções pelo mundo todo: convida-nos, com uma mensagem sutil, a refletir sobre os rumos da humanidade e problematizar a cultura do individualismo e a rigidez fria de convenções sociais desprovidas de sentido humano, nas quais estamos cada vez mais imersos – e que, porém, só alguns olhares críticos mais atentos parecem estar notando (e, ainda bem, transformando em arte).

Trailer:

FICHA TÉCNICA

Título: A Garota Desconhecida
Título Original:  La Fille Inconnue
Diretor: Luc Dardenne, Jean-Pierre Dardenne
Data do lançamento no Brasil: 09 de fevereiro de 2017


Gui Augusto
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Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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4 comentários:

  1. Oi! Fiquei curiosa para assistir, os temas abordados são bem interessantes e a história parece envolvente. Bjos ♥️

    Click Literário 

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  2. me interessou muito os temas abordados no filme, parece que é um filme daquele que te faz refletir muito. adorei. vou anotar a dica pra depois assistir beijos

    Taynara Mello
    www.indicarlivros.com

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  3. Olá,
    Gostei muito das questões que o filme aborda.
    Engraçado que o título dá a entender que ele é só uma coisa, mas há várias abordagens.
    Já vai para lista.

    tenha uma ótima quinta.
    Nana - Obsession Valley

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  4. Olá!
    Não sabia sobre o filme, lendo sua resenha me despertou interesse, ainda mais pelos assuntos abordados. A história é ótima e parece ser muito envolvente e reflexiva.
    Com certeza irei assistir.

    Beijo, beijos
    relicariodehistoriasma.blogspot.com

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