A Lei da Noite [Resenha do Filme]

Conferimos a Cabine de Imprensa de A Lei da Noite

Estreia o novo filme do Ben Affleck. Sim, um legítimo “filme do Ben Affleck”, onde ele dirige, produz, roteiriza, filma, edita, atua em todos os papéis, interage entre si enquanto atua em todos os papéis, filma enquanto atua e... Ok, brincadeira, ele “só” dirige, produz, roteiriza e atua no papel principal – a produção conta com a assinatura de Leonardo Di Caprio também. 

A Lei da Noite traz boas ideias e podia, certamente, ser um filme muito melhor do que é. Esquece-se, porém, de desenvolver a história e as personagens com maior profundidade, e peca pelo excesso, o velho pecado de querer colocar “coisa” demais para a duração do filme.

Há pouco tempo li uma notícia sugerindo que Affleck teria comparado seu novo longa com “Era uma vez na América”, o clássico absoluto de Sergio Leone. Não é bem assim (como em toda matéria que se pega pela manchete), e na reportagem explicava, nas palavras do próprio diretor, que ele teria se inspirado em clássicos antigos, anteriores ao cinema contemporâneo hollywoodiano, mas, de fato, teria mencionado Era uma vez na América como um paradigma: tal qual o seu filme, seria apenas mais um filme de gângster. 

É isso; ainda bem que, com a humildade que lhe caberia, Ben Affleck reconheceu que a única semelhança de A Lei da Noite com Era uma vez na América é o gênero. Temos aqui mais um bom e velho filme de máfia. Sejamos sinceros: Hollywood não precisa de mais um filme de máfia, nós não precisamos, mas ei, quem disse que Hollywood está ligando? E quem disse que nós estamos ligando, se o filme for bom? Mas infelizmente não foi dessa vez para o titio Affleck.


 Como acontece em todos os gêneros explorados à exaustão por Hollywood, uma porção de filmes dispensáveis aparecem para cada pérola que emerge a cada década ou boa fase da nossa querida Disneylândia do cinema. Se há algo que se pode falar do novo longa de Affleck a seu favor e ao mesmo tempo contra é que ele parece mais um daqueles filmes genéricos que desde sempre encheram o cinemão de massa, buscando repetir cacoetes e clichês de títulos consagrados do gênero ao mesmo tempo em que alguns até tentavam explorar novos caminhos e diretrizes. 

É positivo, se imaginarmos que A Lei da Noite serve mais como uma estranha homenagem a esse pastiche cinematográfico, aos filmes esquecidos, ao sem número de produções menores (em qualidade mesmo) que surgem a cada vez que uma obra-prima remexe as estruturas daquele determinado gênero. É negativo, se realizarmos que não, A Lei da Noite não é uma homenagem, ele tentou se levar a sério e, no fim, foi só mais um filme ruim.

Joe Coughlin (Ben Affleck) é um filho de capitão de polícia que já serviu como soldado na França na primeira guerra mundial. Traumatizado pelos horrores da guerra e acordado para a realidade do sistema, teve uma epifania moral e decidiu que nunca mais “seguiria ordens”. A partir daí, irlandês que é, decidiu aproveitar os tempos propícios (a chamada Lei Seca, vigente durante os anos 20 e 30 nos Estados Unidos) e se juntar à máfia irlandesa em Boston. Seu destino inquestionavelmente cruzará com outro poder à altura naquele cenário, a máfia italiana; mas também com amores proibidos e perigosos, com o próprio pai, com um destino incerto, e até com figuras como os cubanos da Flórida, a Ku Klux Klan e um vislumbre do seminal poder e influência da fé neopentecostal – que hoje varre os quatro cantos daquele país (e do Brasil também).

Nesse meio tempo, o filme aproveita para abordar pelo menos uma questão polêmica em cada um desses núcleos de personagem. Bem, já fica evidente que pelo número de núcleos não será possível colocar tudo isso na mesma história e ser satisfatório ou convincente ao mesmo tempo. E é isso mesmo. 


Além do andamento do filme, bastante acelerado (com cortes e uma montagem quase de série de TV), uma impressão de rapidez também toma a percepção do espectador: as situações colocadas, as questões trazidas (por mais que seja com boas intenções – por exemplo, claras cutucadas ao racismo e ao preconceito na América de Trump) todas acontecem tão rapidamente que fica tudo mal desenvolvido. As personagens mudam às vezes de motivação e personalidade tão rápido que parecem até esquizofrênicas.

Ok, é certo que existe a suspensão de descrença que temos que ter para acreditar nas mudanças que marcam a evolução do enredo; mas não funcionam aqui, pois todas acontecem (e são muitas) “atropelando” umas às outras, não convencendo como passagem de tempo – às vezes, tem-se a impressão que o filme é um Ben Affleck visitando cada núcleo e fazendo entrevistas com as personagens. Sim, pois isso também é um incômodo: os diálogos são quase sempre expositivos, irritantemente explicando tudo ao espectador (como naquelas lutas do Power Ranges, sabe? Em que o vilão explicava toda a sua motivação e contava praticamente seus planos e sua história de vida antes do quebra-pau).

Também é um pouco cansativo ver as caras e bocas de Ben Affleck em toda sequência, parecendo mais um modelo na frente das câmeras do que um ator. Há muitas situações em que se tem a impressão que Ben Affleck está interpretando Ben Affleck simplesmente. Por exemplo, pra ser justo, confesso que eu não era grande entusiasta do Batman Affleck, mas depois de Batman Vs. Superman (um fiasco, diga-se de passagem), eu pessoalmente quis dar uma chance ao nosso Ben, porque uma das únicas coisas boas daquele filme é justamente Affleck deixar de lado este seu tique e na maior parte do tempo passar credibilidade na pele de Bruce Wayne.

No entanto, algo de que depende grande parte da emoção de todo filme de gângster são as cenas de luta (tiro, porrada e bomba), e para fazer ao menos um elogio – e o leitor não pensar que eu tenho um estranho prazer em ver os filmes do rapaz só pra cair matando depois –, as cenas de ação são boas. Bem filmadas e contidas, entregando a tensão na medida certa. Aliás, a fotografia e filmagem não apresentam problemas técnicos notáveis. Porém, também não inovam ou nem chamam a atenção por alguma coisa.

O grande furo está mesmo no roteiro (aliás, baseado num pequeno romance homônimo, de Dennis Lehane) e na crença na capacidade “acima da média” de Ben Affleck. A verdade é que desde Argo, seu primeiro longa como diretor, criou-se na mídia (e no departamento de marketing da Warner) uma convenção de que: “Ben Affleck, o grande ator, agora ataca também como diretor, mas, oh, que homão de Deus!” Não. Apenas não, amiguinhos. Chegou a hora de pararmos com essa história de consagrar quem não merece apenas por nomes, títulos – e muita propaganda. 


É uma pena, particularmente eu diria, pois é certo que paixão e gana por fazer o que faz, o homem tem (não fica triste, Ben). Mas as apressadas e eufóricas vozes em apoio tentaram alçá-lo a um patamar muito maior do que ele consegue sustentar ou tem talento para chegar: verdade seja dita, Affleck é apenas um ator mediano e um diretor comum. Não há nada de extraordinário em seu trabalho, como têm tentado vender por todos esses anos desde “Argo” (que, aliás, apesar de melhor do que A Lei da Noite, não deixa de ser só um filme genérico sobre espionagem, recheado de clichês como muletas narrativas – assim como “A Lei” e o gênero de filme de gângster). Seu novo longa vem para comprovar isso, para quem tiver dúvidas – e depois do prejuízo milionário (na casa dos R$ 75 mi) lá fora, talvez a Warner, que há anos deu carta branca pro menino brincar, tenha lá suas dúvidas.

Trailer:


FICHA TÉCNICA

Título: A Lei da Noite
Título Original: 
Live By Night
Diretor: Ben Affleck
Data de Lançamento: 26 de fevereiro de 2017


Guilherme Augusto
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Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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2 comentários:

  1. Olá,
    Parece ser uma produção interessante, mas não é algo que eu tenha pressa para assistir.
    Não simpatizo com Ben Affleck de jeito nenhum, mas talvez veja pelos outros atores do elenco.

    tenha uma ótima quarta =D
    Nana - Obsession Valley

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  2. Olá, Guilherme.
    Pelo visto, a sua resenha é melhor do que o filme, pois conseguiu me prender até o fim, enquanto o filme dificilmente faria.
    A premissa é meio batidona e o filme parece ser mais do mesmo.
    Acho que não conferiria.

    Gostei bastante do sexto provérbio. Muitas vezes ficar calado é a melhor solução.

    Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de fevereiro. Serão dois vencedores, dividindo um vale compras e dois livros.

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