Nas Estradas do Nepal [Resenha do Filme]


O mundo vive hoje uma escalada de polarização política. Mais até do que na época da guerra fria, o advento da internet atualmente fomentou a ampliação do debate, da opinião e das ideologias, das diferenças e também: da treta. Nas Estradas do Nepal pode ser um filme-bomba nas rodinhas de discussão em mesas de bar, onde amigos politizados discutem noite adentro e por noites a fio, gritam, brigam (e tomam muita cerveja). Fica a dica. O longa de 2015, de direção do estreante diretor nepalês Min Bahadur Bham é o que disputa pelo país o Oscar de melhor filme estrangeiro na competição em 2017.

Na verdade, acima de qualquer polarização política, sua trama prefere focar na sutileza de um enredo que fala de amor e paz através da sincera inocência pueril. Nos seus diálogos e em perfis psicológicos de personagens retrata o contraste entre dois mundos: a crueza do mundo adulto (povoado por guerra, exploração, poder, disputa) e a leveza do mundo infantil (sempre representado pela fascinação do desconhecido, da simplicidade nas aspirações e o lúdico nas relações humanas).

A política fica mais para o subtexto do enredo, mas constantemente há um inteligente jogo de detalhes e sinais para significar esse subtexto: os símbolos comunistas pintados na casa (e depois apagados – e observe em que contexto serão apagados), a influência cultural da língua inglesa (no rádio, nas roupas, na escola) até mesmo numa vila remota do Nepal rural dos anos 90, a amizade entre duas crianças de castas diferentes numa sociedade profundamente marcada por um sistema social rígido de castas (similar ao da Índia, onde há os “dalits”), o comportamento e a mentalidade do pai dalit, as posições de câmera (por exemplo, baixa, para ilustrar certas figuras, alta para outras). E há muitos outros, para os olhares atentos. Tudo cuidadoso e específico para emitir as mensagens.

O título brasileiro é um pouco genérico. Talvez o título em inglês dê mais a entender o mote principal da história, The Black Hen (em tradução livre, ‘A Galinha Preta’). Duas crianças, improváveis (social e economicamente) amigos de longa data, traçam uma jornada minimalista: recuperar a galinha branca Karishma (“ué, mas por que no título é ‘preta’?” Descubra...), um personagem à parte e um poço de simbologias. Um, Kiran, garoto da hierarquia social mais alta naquele cenário rural (mesmo assim, ainda extremamente pobre), o outro, Prakash, um dalit (filho de um dalit que trabalha na casa do avô de Kiran – literalmente, o “Chefe” daquele vilarejo). 


O dalit pai trabalha para o Chefe (em regime de quase escravidão – característico dos dalits) e vive de vender as galinhas (que adquire às vezes por meios não tão ortodoxos). Ele só tem duas aspirações na vida: trabalhar até morrer, e o que inclui desde cedo colocar seus filhos na mesma linha com pulso firme, mas também sonha em vê-los concluírem os estudos (na paupérrima escolinha rural do vilarejo, onde só há dois professores e lições na base da “decoreba”, aulas de inglês, e extrema influência das tradições – e.g. reconhecer a figura do chefe).

Seus filhos, Prakash e Bijuli, a irmã mais velha, acabam por tomar rumos distintos. A filha, já mais dona de si, vai para caminhos questionáveis para aquela comunidade, porém é a única saída que encontra e na qual acredita para escapar daquela realidade – ninguém sabe seu segredo, só o irmão menor. O garoto, ainda muito novo, vive a trabalhar com o pai e brincar pelos pastos e cenários rurais com o neto do Chefe, até que um dia o pai vende a amada Karishma para um ancião de outro vilarejo. A galinha, um presente de Bijuli, representa a única memória que o menino guarda da irmã mais velha desde que ela partiu, daí o afeto pelo bicho; também é o que o inspira a um empreendedorismo visionário (para os padrões daquele microcosmo social): ao invés de matá-la para comer ou vender para o Chefe, guardá-la e criá-la para dar ovos e pintinhos, e assim ter mais “produtos” para venda, e com isso ajudar o pai a, quem sabe, até sair daquela realidade.

Há um constante conflito entre dois Nepais, e esta é só mais uma alegoria deste conflito: um Nepal velho, arcaico, conservador, simplório, massivamente rural (mais de 90% do país), encarnado na figura tanto do ancião, que o máximo em que consegue pensar é comer a galinha ou presenteá-la para a filha grávida, como mandam as tradições, quanto na figura do pai, matuto, conformado e obediente, e limitado na ideia de que a única possibilidade na vida é vender as galinhas. O modo inovador como Prakash vê a galinha é também a visão de um novo Nepal, sonhador, aspirante, desejoso de libertar-se de um rígido e atrasado sistema social, político e econômico. Um Nepal imaturo como uma criança, que ao longo dos anos 90 quis deixar para trás o feudalismo (até então vigente), mas para isso se debateu violentamente numa convulsão militar e social que levou à Guerra Civil Nepalesa, de mais de 10 anos (de 1996 a 2006 – e, ainda, em 2012 era um espectro a rondar).

O importante questionamento político que o filme apresenta é justamente quando aquele país encarou uma mudança radical demais para os seus parâmetros, costumes e tradições. Quando o Nepal profundo, rural, camponês, acostumado ao trabalho pesado e à opressão, vislumbrou pela primeira vez a possibilidade de saída desta vida. Não por menos a história retratada é a de uma simples família camponesa captada na flexão histórica da ascensão do partido comunista maoísta nepalês – o que culminou na guerra civil, e fez centenas de milhares de vítimas.


É representado na tela um olhar terno e sem maniqueísmos sobre a complexidade política e a difícil dialética social (liberdade e violência, fuga de um sistema sufocante e arcaico, apego afetivo às tradições e costumes); e uma súplica: a que preço veio a liberdade? Apesar de o Nepal ainda hoje não ter se livrado totalmente dos signos do passado, a guerra civil teve o efeito positivo de catalisar a ascensão histórica do país, e tirá-lo de vez do torpor de uma sociedade oprimida que nunca reagiu. Porém, a que preço? Um disclaimer, pouco antes dos créditos finais, dá uma noção deste triste preço.

Sem dúvida a melhor e mais significativa cena do filme é a do primeiro sonho do garoto: um caminhar lento numa direção lateral da tela, ao som de um mantra hipnótico, aos poucos ao fundo vão surgindo da mesma direção uma progressão de personagens representativa de um mosaico histórico político, social, religioso e militar do país. Uma cena sublime, reveladora do talento e do afiado olhar poético do novato diretor. E este não é o único travelling do filme; apesar de um ritmo lento da trama, a câmera é inquieta, e a todo tempo passeia pelas paisagens e personagens. As fotografias de câmera parada, às vezes extraem toda a história e o passado ao focar profundamente numa cena simples de um camponês nas montanhas, por exemplo. O filme é rico em linguagem e sabe apresentar um discurso artisticamente, sem ser enfadonho ou sem apelar demais para a emoção. 

Os planos “revolucionários” de comércio que Prakash tem para a galinha Karishma é uma maneira de negar o passado (os costumes do pai) sem violência, mas com força de vontade e criatividade. A visão do diretor parece-se muito com a do garoto, ao retratar da maneira que retrata o partido maoísta e as contradições sociais do Nepal arcaico; como é jovem ainda, não se esquece e nem perdoa o passado recente sangrento que lhe deu o Nepal moderno em que nasceu, porém também não tem qualquer desejo de vivenciar aquele passado mais remoto. 

A delicadeza está em este “acerto de contas” com o passado dar-se numa história leve e lúdica sobre amizade, revelando sua posição de renegar os dois passados e todas as ideologias que formaram e sangraram sua terra natal, mas sem pretender uma vingança discursiva ou culpabilizar um ou outro ator político envolvido. Prefere mirar o futuro, para o qual espera apenas aquilo que a galinha “ensina” às duas crianças no final do filme: compreensão e solidariedade.

Trailer:

FICHA TÉCNICA

Título: Nas Estradas do Nepal
Título Original: Kalo Pothi
Diretor: Min Bahadur Bham
Data de Lançamento: 15 de dezembro de 2016

Gui Augusto
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Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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4 comentários:

  1. uma verdadeira lição. O tema desse filme é bem complexo, a questão da política deve levantar várias questões, vou assistir. adorei a resenha, muito bem trabalhada. beijos

    Taynara Mello
    www.indicarlivros.com

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  2. Eu preciso ver esse filme, não conheço nada do lugar... e o contexto parece passar lições bem legais de vida!

    Bjinhos,
    ❥ AmigaDelicada.com.br

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  3. Estou procurando esse filme há algum tempo. Preciso assisti-lo. Como conseguiu?

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  4. Eu preciso ver esse filme. Alguém pode me dar a dica de como assisti-lo?
    Desde já, agradeço essa delicadeza!
    Abraços

    pimenta@hotmail.com

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