O Perfume Da Folha De Chá [Resenha Literária]


A capa por si só já é um chamado para quem gosta de romances de época. A Editora Paralela conseguiu manter a imagem da capa original inglesa, com poucas alterações na diagramação. Ainda bem, pois antes de ler a sinopse do livro eu já me interessei em conhecer a história da mulher da capa que representa nossa protagonista, Gwendolyn Hooper. 

Mesmo lendo a sinopse e sabendo do que se tratava, não estava esperando a enxurrada de emoções que esse livro me traria. Logo nas primeiras páginas fui conquistada pela escrita de Dinah Jefferies, envolvente a tal ponto que logo no epílogo comecei a visualizar as cenas descritas de forma clara, como se as pessoas e a paisagem estivessem ao alcance da minha vista. O epílogo, aliás, já nos enche de curiosidade, contando a história de uma mulher misteriosa e seu bebê em 1913, no Ceilão. 

Antes de começar a contar a história de Gwen e Laurence, acho interessante trazer algumas informações para vocês. 

O território asiático hoje conhecido como Sri Lanka, era chamado de Ceilão durante o período em que integrou o Império Britânico, domínio que começou no século XVIII, vindo o Sri Lanka se tornar independente novamente em 1948 e rebatizado com o nome atual somente em 1972.  A história dos protagonistas se passa durante o período entre 1925 e 1934, e acontece em uma fazenda de cultivo de chá do tipo Cammellia sinensis, planta que dá origem aos chás verde, preto, branco e Oolong, um dos mais importantes setores da economia da região na época. 

A autora dá certo destaque para a insatisfação do povo local e dos trabalhadores “importados” da Índia, especialmente trabalhadores rurais, com relação ao tratamento recebido em comparação com a população branca, mas também com relação a diferença entre os trabalhadores rurais e os domésticos, e a hierarquia que se estabelece. 

As más condições em que os trabalhadores rurais viviam em comparação com os ricos donos de terra brancos, foi retratada em diversos trechos do livro, chegando em alguns momentos a nos causar um mau estar, pela forma como o capataz da fazenda fala e trata o povo local, mas também nos fazem amar a protagonista nos trechos em que ela demonstra sua generosidade e sua mente evoluída sobre condições de trabalho dignas e sobre a forma como pessoas de etnias diferentes devem ser tratadas.


Dinah Jefferies nos fornece diversas informações sobre a situação política e econômica do Ceilão e do mundo durante o período em que a história é contada. Outro ponto interessante porque foi feito de forma natural, afinal de contas, ninguém vive isolado e somos afetados por tudo que acontece a nossa volta e naquele período, pessoas ricas, como nossos protagonistas, também foram afetadas por mudanças sociais, econômicas e políticas ocorridas nos territórios do Império Britânico e no mundo. 

No início deste romance, em 1925, Gwen tem 19 anos e Laurence, viúvo há doze anos, tem 37. A protagonista imediatamente se apaixona pelo rico empresário do ramo de chás durante uma de suas visitas a Inglaterra e o sentimento se mostra recíproco e os dois se casam. Como os negócios do marido estão no Ceilão, Gwen se vê tendo que deixar seu lar de infância no interior de seu país, para ir morar numa fazenda na exótica colônia do Império Britânico. 

Tudo parece maravilhoso, até que ao chegar, a nova esposa começa a se sentir sozinha, por não ter mais a dedicação em tempo integral que tinha quando os dois se conheceram. Apesar disso, devo salientar que Gwen e Laurence são retratados como seres sexuais, mas de forma que o sexo não se torna o foco do livro, deixando-o sensual na medida, que eu considero certa, para este tipo de livro. 

Com a mudança para a fazenda, a protagonista se depara com novas responsabilidades e descobertas como contas da casa que não batem, mistérios de família e muitas intrigas. Gwen assume o papel de dona de casa de forma adequada para a época, moças brancas ricas, eram criadas para comandar a casa após se casarem e ela não decepciona, investigando livros caixas das compras e gerenciando o andamento da casa. Não vi machismo, pois a protagonista escolheu essa vida e o próprio marido.

Boa parte das intrigas tem o dedo de Verity. Gente! O que é essa irmã? Vontade de entrar no livro e esganá-la. Laurence ficou responsável pela irmã após a morte dos pais, e por isso, ela é bastante apegada a ele, de uma forma um tanto quanto doentia, eu acho, ao ponto de tramar diversas vezes contra a cunhada de forma nada inocente. Que mulherzinha sem noção.

A falta de comunicação entre o casal é responsável por boa parte dos problemas deles, sendo Laurence muito fechado sobre seu passado e sobre sua primeira esposa, Caroline. Apenas após chegar a fazenda e descobrir um túmulo graças a um dos cachorros da casa, é que Gwen questiona o marido aspectos sobre o primeiro casamento do marido, mas sem maiores esclarecimentos, o que só faz aumentar a angústia da protagonista.


A pulga atrás da orelha com o comportamento diferente de Laurence leva Gwen a cometer erros que irão assombrá-la por muito tempo, e assim como ela, nós leitores seremos levados a acreditar em diversos enganos. Eu me achei bastante esperta na metade do livro, achando que tinha desvendado o plot da história, mas eu não poderia estar mais enganada, portanto, não se enganem durante a leitura, tudo pode acontecer. 

Laurence já é um homem maduro no começo de seu relacionamento com Gwen, e apesar de muitas de suas feridas terem sido curadas por ela, não vemos um grande desenvolvimento desta personagem. Com Gwen a história é bem diferente, pois nos nove anos em que a história é contada, vemos ela se transformar de uma adolescente de 19 anos, cheia de sonhos e esperanças, em uma mulher madura cheia de fantasmas. Eu terminei a leitura torcendo para que ela encontre a paz, pois os enganos cometidos não foram por maldade, mas sim pela inocência e desinformação, e devemos levar em consideração a época em que a história é contada, e o papel da mulher nessa sociedade.  A partir deste momento não posso contar mais nada sobre o enredo sem entrar no território do spoiler.

A construção dos personagens secundários é maravilhosa, e isso para mim é um aspecto muito importante para que eu goste de um livro. Não gosto de personagens que são criados apenas para dar volume às histórias ou apenas para causar. Já falei de Verity, então vamos aos próximos. 

Temos Fran, prima da protagonista que ficou órfã após os pais morrerem no naufrágio do Titanic, e é como uma irmã para Gwen. Essa personagem tem uma mentalidade considerada moderna para a época, tanto com relação aos homens, quanto aos negócios. Porém, não chega a ser pedante, como infelizmente, muitas vezes esse tipo de personagem é retratado. Savi, um artista local que nos é apresentado logo no primeiro capítulo, quando Gwen o conhece no navio que a levou ao Ceilão. Este personagem tem um peso imenso na história, mas fui totalmente surpreendida por seu verdadeiro papel. As aparências enganam.


Naveena se mostra muito mais que uma simples empregada e ajuda a patroa nas situações mais problemáticas pelas quais ela passa, sem exigir nada em troca, e ajudando nossa protagonista a não desmoronar, mesmo quando isso parecia o mais provável. Temos também Christina, viúva banqueira, que ativa todo o ciúme que há em Gwen e não por menos, ela é bastante clara sobre seu interesse por Laurence.

Se você é fã de filmes como O Despertar de Uma Paixão (Imagem Filmes/2007) e do um pouco mais cult, O Amante (1992), adaptado do livro homônimo escrito por Marguerite Duras, aliás, outro livro que indico, tem grandes chances de se apaixonar pela escrita da autora e pela história de Gwen e Laurence. 

Se você, assim como eu, é fã de novelas mexicanas, as chances de gostar são de quase 100%. Como tem intrigas e segredos do passado para atrapalhar a felicidade plena deste casal!

Enfim, não é sempre que um livro se torna nosso favorito, e este foi o caso, portanto... RECOMENDADÍSSIMO!

FICHA TÉCNICA

Título: O Perfume Da Folha De Chá
Autora: Dinah Jefferies 
Onde Comprar: Amazon


Luciane Leite
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Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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15 comentários:

  1. Li uma resenha agora há pouco desse livro em outro blog, e suas opiniões foram bem parecidas. A Gwen devido à inocência e à sua posição, sendo uma mulher, vai acabar sofrendo bastante, e pelo jeito, todos os leitores querem esganar a Verity hahaha. Eu adoro romances de época, mas esse parece ser carregado de um peso bem maior, além de retratar assuntos importantes além da relação do casal, como os costumes e a política. Parabéns pela resenha, ficou bem completa!

    xx Carol
    http://caverna-literaria.blogspot.com.br

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  2. Oie,
    não conheço este livro, mas parece ser interessante.
    Gostei bastante da resenha.

    bjos
    Blog Vanessa Sueroz
    Canal no youtube

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  3. Oi, Lu!
    Olha, não vou mentir que, por esse título, não leria não... E com certeza teria vontade de esganar a Verity!
    Beijos
    Balaio de Babados
    Promoção Quatro Anos de Minhas Escrituras

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  4. Olaa! Tudo bem?
    Não conhecia o livro, mas a capa realmente é muito bonita, ainda bem que manteriam! Seria um livro que chamaria a minha atenção mesmo! Eu ainda não li nada desse género, mas fiquei muito interessada nesse por retratar de tanta coisa em apenas um romance! E quero saber dessa verity aí!! Hahah
    Beeijo

    http://lecaferouge.blogspot.com.br/

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  5. Super amei, e a capa é muito linda *U*

    Beijos,
    www.thalitamaia.com

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  6. Oi, Luciane! Tudo bem? Adorei a capa do livro, mas infelizmente não tenho interesse de lê-lo. Contudo, fico feliz de saber que as pessoas estão gostando dele.

    Abraço

    http://tonylucasblog.blogspot.com.br/

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  7. Oi Luciane!
    Esse foi o penúltimo livro que eu li, e AMEI!
    Também tinha muita vontade de estapear aquela Verity, que raiva daquela mulher.

    Beijos,
    Sora | Meu Jardim de Livros

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  8. Oi Luciane!

    Perdi as contas de quanto tempo faz que não leio um livro de romance de época sabe? Faz muito tempo mesmo! Para mim e sempre mais do mesmo, mas não esse livro! O enrendo parece inovador eu adorei, eu gosto de quebra a cabeça tentando descobrir o segredos e mistérios de família hahahaha, sinceramente você me convenceu ainda mais depois que falou sobre as novelas mexicanas eu adoro! Eu tive a impressão que livro pode ter um clima meio pesado com tantos acontecimentos, isso procede? Já percebi que eu também vou querer mata a irmã.

    Beijinhos

    Resenha Atual

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    1. Oie! Tirou as palavras de mim! kkkk todas elas! bjs Regina.

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  9. Oie, tudo bom??

    Não sei você, mas enquanto eu lia a resenha achei o livro com cara de editora Intrínseca, sei lá kkkkkkkk Esses tipos são daqueles que despertam atenção em mim. Gosto daqueles tipos que mostram o cotidiano e discutem sobre questões mais humanas, reais e brutas que acontecem na vida. Me lembrei de Lionel Shriver. Acredito que você gostará da autora! Beijos,

    www.estranhoscomoeu.com

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  10. Oi, Luciane.
    Eu não conhecia o livro, mas achei a capa linda. Fiquei um pouco na dúvida se leria ou não, mas me pareceu uma história rica, cheia de referências históricas.
    Eu não conheço a personalidade da Verity, mas já não gosto dela rsrsrs

    Abraço!
    Tudo Online
    Participe do sorteio do livro "Febríssima"

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  11. Oi Luciene,
    Segunda resenha que leio desse livro hoje e já estou surtada, afinal, é quase o destino para eu conhecer essa história, rs.
    Estou muito interessada!
    Beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com.br/

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  12. Eu tenho visto muita propaganda do livro, por isso quando vi a resenha me interessei. Um pouco da trama me lembrou de uma novela muito antiga, chamada A Sucessora, com Suzana Vieira. Eu acredito que além do romance vamos encontrar um aspecto histórico interessante. Vou com certeza comprar este livro.
    abraços
    Gisela
    www.lerparadivertir.com

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  13. Eu sou fã de "O amante" da Marguerite, ainda não vi o filme porque a autora não gostava dele, mas depois da 4ª leitura do livro confesso que tenho pensando em ver. Também amo novelas mexicanas, dramas e reviravoltas e depois dessa resenha tão detalhada eu só posso dizer que preciso desse livro. Cedo ou tarde, sei que vou me ver agarrada a ele.

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  14. Oi, Lu!

    Esse livro parece ser realmente incrível! Vi que a editora estava fazendo uma grande divulgação dele nas redes sociais, e agora fiquei ainda mais curiosa para conhecê-lo!

    Beijão,
    NATÁLIA | Obcecada Pelos Livros

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