Ultra Carmen [Resenha Literária]


Já tem um tempo que venho me aproximando do gênero terror, então quando Ultra Carnem foi lançado fiquei muito curiosa e fiz questão de conferir. O livro é dividido em quatro partes (O Abandono, Gênesis, O pagamento e O inferno) nele nós vamos encontrar uma história recheada de personagens politicamente muito incorretos com desejos egoístas, mesquinharias mil e capacidade de sacrificar tudo e qualquer coisa para encontrar algum tipo de satisfação pessoal. Se você tem estômago sensível definitivamente essa não é uma refeição para você.

Já no primeiro conto vamos conhecer Wladimir Lester, um garoto cigano com dons artístico para pintura e modelagem. Abandonado por sua família ele vai parar em um orfanato com pouco mais que a roupa do corpo e uma tinta vermelha misteriosa com ajuda da qual ele realiza prodígios artísticos.

A arte e a tinta de Wladimir Lester apresentadas no primeiro conto são um tipo de fio através do qual os outros contos vão girar. Em Gênesis, segunda parte do livro, um artista fracassado está atrás da tinta, com a qual acredita ser possível produzir uma arte digna de respeito. Em O pagamento um técnico em informática medíocre encontra uma das estatuas produzidas pelo Lester a quem faz um pedido e para seu tormento e pena é atendido. E, em O inferno encontramos com uma garçonete pragmática e obstinada que ganha o respeito do próprio Príncipe das Trevas e uma perigosa missão envolvendo o pintor cigano.


Em todas as histórias encontramos desfechos sangrentos, mistérios e torturas. Os personagens não são heróis bonzinhos, pelo contrario, eles despertam os piores sentimentos do leitor. Homens mesquinhos, egoístas, capazes de sacrificar as melhores coisas de sua vida por ambição.

Bem, isso é um livro de terror, logo era de se esperar encontrar violência e personagens com má índole, eu não estranhei isso, mas confesso que houve algumas coisas em Ultra Carnem que me incomodaram profundamente. De muitas formas acredito que abraçam o gênero terror colocar para fora em seus escritos muitos dos medos coletivo, porém foi com muita tristeza e certa irritação que vi uma criança órfã e cigana entre os pontos centrais desse livro.


O incômodo que os ciganos causam na sociedade ocidental não é recente. Eles são um povo nômade, possuem leis e religião próprias, são independentes e difíceis de serem intimidados. Não é de se admirar que reis cuja autoridade provinha da Igreja Católica perseguissem um povo para o qual a autoridade papal nada significava. Também não podemos nos admirar de que ditadores interessados em reprimir liberdades individuais não gostem de um povo sem residência fixa.

O medo e a aversão a ciganos são construções culturais astuciosas e fracassadas, afinal, em pleno século XXI esse povo ainda existe. A resiliência dos ciganos existe para ser reverenciada, estudada e compreendida, particularmente acho que é hora de desconstruir o medo aos ciganos e não o reafirmar.

Além da questão do elemento cigano, também me incomodou o fato de Wladimir ser órfão. É fato que a sociedade tem medo de crianças desgarradas de seus pais, muita gente não adota crianças maiores por puro medo e isso também é algo passível de desconstrução. É incomodo ver em livros, ou na tela do cinema, órfãos transformados em agentes do mal, pois essas crianças estão em estado grave de fragilidade social, precisam de atenção, família e recursos e não de propaganda negativa.


A luta pelos direitos das crianças e pela construção de uma cultura de aceitação das diferenças entre as diferenças etnias existentes nesse planeta tem dado a tônica da minha vida e o livro de Cesar Bravo foi um toque de realidade cruel batendo em minha cara sem do ou piedade.

A escrita clara do autor diz em alto e bom tom o quanto nossa sociedade caminhou pouco na consolidação dos direitos sociais das crianças e reluta em aceitar como algo normal qualquer religião que se distancie do cristianismo, até o Lúcifer de Bravo tem preconceitos contra os ciganos. Alias, falando do preconceito de Diabo, ouvir Lúcifer dizer: “Como se tratava de um cigano, não dei muito credito, sabe? Não da para confiar nessa gente.” me deixou fora de mim.

Lúcifer, o Príncipe das Trevas, o Inimigo de Nossas Almas, a Serpente que seduziu Eva, o Pai da Mentira, o Anjo Caído, o Dragão que perseguiu a Virgem com dores de parto, aquele que feriu o Calcanhar do Messias, que convive com humanidade desde a criação, não sabe que falta de confiabilidade não é coisa de ciganos e sim da humanidade inteira? 


Aliás, Jesus me perdoe pelo que vou dizer, afinal, sou cristã, mas se for para algum personagem da mitologia judaico-cristão protagonizar uma fala tão preconceituosa, esse personagem não pode ser o Diabo, pois ele considera “todos os reinos do mundo e sua gloria” como suas, inclusive ele os ofereceu a Jesus. Está escrito no capitulo 4 do Evangelho de Mateus para quem quiser conferir.

Enfim, Ultra Carnem tem uma história redonda com elementos que remetem ao terror clássico e explora a crueldade humana. A edição da DarkSide é muito bonita e nos faz mergulhar mais ainda na história. Apesar de algumas ressalvas, o livro possui uma história redonda com protagonistas bem humanos em suas falhas e baixezas.

FICHA TÉCNICA

Título: Ultra Carmem
Autor Cesar Bravo
Onde Comprar: Amazon

Jacilene Clemente

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Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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8 comentários:

  1. Esse não é tipo de livro, que eu costumo ler. Esse gênero não me agrada, mas tenho que confessar que a obra parece ser interessante sim.
    Mil beijos!
    http://pensamentosdeumageminiana.blogspot.com.br/

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  2. Gosto assim, personagens todos incorretos e bom, envolve arte <3 Acho a diagramação e arte desse livro muito lindas :3 É a primeira resenha que leio e fiquei super curiosa! quero

    bjs, Carol | Espilotríssimo
    www.carolespilotro.com

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  3. Olá, tudo bom? Confesso que eu não costumo ler livros de terror, não é que eu não goste, mas é que os poucos que li eu achei a história meio superficial não consegui me envolver. A Darkside sempre lança esses livros com capas e ilustrações incríveis que nos chamam atenção né? Enfim, eu adorei sua resenha, e fico feliz que apesar de alguns pontos você tenha curtido a história no geral, mas eu acho que não vou me arriscar a lê-lo haha

    Beijos
    http://resenhaatual.blogspot.com.br/

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  4. Oii!!

    O livro parece ser muito bom. Gosto de leituras de terror e suspense, e curti esse, principalmente, por ter contos. Gostei!!!

    beijos

    http://mecontanoblog.blogspot.com.br

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  5. Oii!
    Terro não é meu gênero favorito, principalmente porque leio à noite, rs. Mas devo dizer que essas edições da DarkSide são maravilhosas!
    Beijos
    Moleca de 20

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  6. Olá, Jacilene.
    Eu vi esse livro para vender, mas não sabia nada sobre ele ainda. Só imaginei o gênero por ser da DarkSide. Não sei se leria. Me interessei por ser de terror e tals, mas dai tem os pontos negativos que você levantou. Quando eu era criança eu morria de medo de ciganos, fugia deles porque me ensinaram assim. Infelizmente as coisas erradas vão passando de pai para filho e logo quando crianças. Fico na dúvida sobre ler ou não.

    Prefácio

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  7. Uau,que resenha maravilhosa, parabéns.
    Concordo com você, está na hora das pessoas pararem de se referir aos outros como sendo "errados", apenas por serem diferentes. Todos merecem respeito e disseminar isso em um livro não ajuda a propagar o amor ao próximo, apenas aumentar a ignorância já tão concretizada em nossa sociedade.

    Um super beijo

    http://www.livrosemcontexto.blogspot.com

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  8. Que resenha completa... a melhor que li sobre o livro até agora! Adorei ver as coisas que te incomodaram, já que provavelmente também irão me incomodar. Mas, apesar de tudo, o enredo me chamou bastante a atenção. Com certeza uma leitura para ser feita ainda em 2017!

    Abraços,
    http://lupiliteratus.blogspot.com.br/

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