Misery [Resenha Literária]


 “ [...] Depressivos se matam. Psicóticos, acalentados no berço venenoso de seus egos, querem fazer um favor aos outros, levando-os juntos.”

(Misery, pg. 169) 

Misery Chastain é a personagem principal de uma série de sucesso escrita por Paul Sheldon, mas ele está cansado de escrever sobre esta mulher e seus melodramas, e apesar de lhe render muito dinheiro, a trajetória de Misery chega ao fim em O filho de Misery, em uma cena para lá de clichê, bem ao estilo do gosto das fãs do escritor fictício. 

Até aí tudo bem, personagens morrem o tempo todo, não é mesmo? Porém, Paul não contava com o azar de sofrer um acidente gravíssimo logo após finalizar a escrita do que ele considera sua melhor obra, Carros Velozes. Ao invés de ser socorrido e levado para um hospital, ele é resgatado por Annie Wilkes, sua fã número 1. Atordoado e cheio de dor, Paul fica numa névoa de dor e sofrimento por dez dias antes de recobrar totalmente a consciência, e quando acorda percebe que sua fã tem um estoque imenso de Novril (remédio fictício a base de codeína) e que ela não é apenas louca, mas perigosamente louca. 

Que tipo de mulher levaria um homem gravemente ferido para casa e não para um hospital para receber tratamento médico adequado? Veja bem, Annie era enfermeira antes de se tornar uma mulher de 44 anos reclusa em seu rancho em Sidewinder, Colorado. Todos na cidade sabem que ela foi acusada de crimes graves e inocentada, apesar de ser claramente culpada, por isso, mantém distância dela e de sua propriedade. Paul e nós, leitores, vamos descobrir quais foram as acusações e qual a veracidade dos fatos durante a leitura, e acredite, nada do que se imagina chega perto da extensão do que realmente aconteceu. 


O acidente sofrido pelo protagonista ocorreu poucos dias antes do lançamento de O Filho de Misery em brochura (eu imagino que seja aquela versão paperback que nada se parece com a versão brasileira do que chamamos de brochura, mas sim com as edições de livro de banca). Esse fato é importante porque logo no início, Paul nos conta que Misery morreu, porém Annie ainda não sabe disso e diz estar ansiosa pelo lançamento em brochura, mas já o está mantendo em cativeiro e apesar de lhe dar remédios para dor com certa frequência, a crueldade está presente quando Annie é minimamente contrariada. Nesta etapa também percebemos o quanto o ego de Paul é inflado, pois ele “deixa” que Annie leia o manuscrito de Carros Velozes antes que o último livro de Misery esteja disponível, mas ao dizer que a obra não é tão boa, os pensamentos do autor são de total menosprezo por Annie e sua inteligência, ou pela falta dela, de uma forma bastante grosseira. Sem levar em consideração que o livro pode sim, não ser bom. O egocentrismo dele fica evidente em diversos outros trechos da obra. 

Até o momento tudo bem, ou pelo menos não tão ruim quanto pode ser. E acreditem, fica bem ruim depois que Annie descobre o que aconteceu com Misery. Quando isso acontece, Annie surta de vez e a tortura passa a ser bem mais intensa, pobre coitado do Paul. A mulher então tem a ideia de que Paul dê um jeito de ressuscitar Misery e escrever um próximo livro da série para ela, e não pode ser qualquer coisa. O primeiro rascunho é descartado porque a explicação para o Retorno de Misery não está a contento dela e Paul se vê forçado, apesar de mal nutrido, com dores terríveis, e cada vez mais sem esperança, a dar um jeito de sobreviver e fazer o que sua algoz está pedindo, e é isso que ele faz. 

O nível de crueldade da tortura que Annie pratica alcança níveis cada vez mais altos e Paul se vê cada vez mais com vontade não apenas de escapar de sua prisão, mas de se vingar dela, o que o alimenta de certa forma e o faz ir adiante. Essa expectativa de saber se ele iria ou não conseguir retaliar, (além da escrita de King, é claro) foi justamente o que mais me instigou durante a leitura, o último terço do livro eu li em uma noite, porque não conseguiria dormir pensando nisso. Melhor decisão!


Acredito que o sentimento de vingança de Paul não se deva apenas pela tortura física, mas principalmente pela psicológica e por ela forçá-lo a voltar ao universo de Misery, algo que ele claramente menospreza, o que se analisarmos reflete o menosprezo por si próprio. O personagem parece ser afetado principalmente por ser conhecido como um autor popular, como se isso fosse sinônimo de baixa qualidade, e isso atinge seu ego profundamente, o que me leva a crer que ele gosta sim de Misery, afinal de contas a criou, mas tem um gosto amargo na boca por não ter seu talento reconhecido pela crítica, “apenas” pelos fãs, em sua maioria mulheres. No entanto, em certo momento escrever o livro sob demanda, funciona como uma forma de refúgio e libertação da opressão e da violência de Annie. 

Desculpem se não consegui falar muito de Annie nessa resenha, acredito que parte da graça deste livro está em desvendarmos os mistérios da vida dela e o que a leva a ser desta forma. No entanto, para dar um gostinho da personalidade da personagem e do que a leitura nos reserva como leitores, segue uma frase dita por ela durante os interrogatórios dos crimes dos quais foi absolvida. 

“Eu não tenho nada de que ter vergonha. Eu nunca sinto vergonha. As coisas que eu faço são para sempre, eu nuca fico remoendo esse tipo de coisa.”
(Misery, pg. 194)

Eu li este livro em grupo, com mais cinco pessoas, e em diversas ocasiões e atrocidades cometidas alguém ia no grupo de discussão e falava “Essa mulher é louca!”, e não foram poucas vezes. Ela é o tipo de personagem, acredito eu, que vai ser percebida por cada um de forma totalmente diferente. Eu quis que Paul conseguisse sua vingança, porque apenas ser presa não seria punição suficiente para Annie, mas ao final, ponderei sobre o que leva a personagem a ser da forma como é, e percebendo que se trata de uma pessoa doente, é impossível não ter certa pena dela por estar presa dentro de sua própria mente. 


O livro tem momentos cômicos, alguns deles nos trechos em que Paul está escrevendo O Retorno de Misery, em outros na própria história, como por exemplo, certa infantilidade de Annie ao usar palavrões. Eu ficava pensando que mesmo nos anos 1980, um adulto não usaria palavras como “meleca” e “caquina”, mas caiam bem para a personagem. Ela briga com Paul em diversos trechos quando ele usa palavrões de “gente grande”. 

Perceberam que eu falei sobre ter lido em grupo? Ano passado eu decidi que em 2017 eu leria mais livros de King, até então, tinha lido apenas Carrie, A Estranha. Comentei com meu grupo de amigas leitoras, e algumas toparam embarcar nessa comigo, uma delas é a Ariane, também resenhista aqui do blog, sendo que algumas até tinham livros do autor encalhados em casa, e combinamos de ler pelo menos um livro do autor por bimestre. O grupo escolhe qual será o título e todas lemos o mesmo livro, portanto, podem esperar porque vai ter mais resenhas de livros de Stephen King aqui no blog. Eu amo as experiências de leitura em grupo, até quando o livro é ruim, já aconteceu de todas detestarem o livro escolhido para leitura. 

Alguém aqui gosta deste tipo de experiência? Ler em grupo? Fazer projetos de leitura? Se sim, vamos conversar e trocar ideias para projetos futuros.

FICHA TÉCNICA

Título: Misery
Autor: Stephen King 
Editora Suma de Letras
Onde Comprar: Amazon 

Luciane Leite
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Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

comentário(s) pelo facebook:

16 comentários:

  1. Oi, Lu!
    Li esse livro ano passado, mas havia assistido o filme antes. Ele se tornou um dos meus favoritos do King.
    Beijos
    Balaio de Babados
    Sorteio Literário de Carnaval
    Resenha premiada Paixão e Crime
    Sorteio Três Anos de Historiar

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  2. Oi. Eu nunca li nada do Stephen mas toda vez que eu vejo uma resenha de algum livro dele, eu fico chocada e louca para saber mais sobre a história. Misery está na minha lista e eu quero muito entender também a Annie, como a mente dela age entre outras coisas. Parece ser o tipo de livro que acaba mexendo com o nosso psicológico.
    Um beijo! Leitora Encantada
    Participe do sorteio do blog e concorra a três livros

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  3. Luciane,
    esse livro é perturbador, fiquei muito aflita quando li.
    Nunca tive essa experiência de ler em grupo, quem sabe um dia?
    bjs

    Amor Por Livros
    http://amo-os-livros.blogspot.com.br

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  4. Oii.
    Realmente esse livro parece ser bem interessante, porém não faz o meu tipo... Gosto mais de romance. Rs
    Para não dizer que nunca li nada do autor, li 'Sob a Redoma' e 'Joyland' e amei! Me encantei por Joyland.
    Esse ano quero me arriscar e tentar ler IT: A Coisa, pretendo participar de um projeto para ler esse livro.
    Amei a sua resenha... Irei anotar esse livro e espero muito ler ele algum dia, estou querendo sair um pouco da minha zona de conforto.
    Beijos,
    Keth.
    Blog: www.parbataibooks.blogspot.com.br

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  5. Oi Luciane! Li Misery no ano passado, e também fiquei abismada com a loucura da personagem.
    Adorei sua resenha, senti até vontade em reler.
    Gosto de ler em grupo, inclusive neste ano estou participando de um grupo de leituras com a Fabi (PPP) e a Lu (balaio de babados). A experiência está sendo ótima, porém o tempo não está me deixando interagir tanto como deveria e queria.
    Beijos
    http://lua-literaria.blogspot.com.br/

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  6. Oi Luciane, tudo bem?
    Essa é a primeira resenha que leio desse livro, se tratando de uma obra do mestre King, acredito que valerá a pena ler. Deve ter sido assustador perceber que estava preso por uma fã mentalmente instável e ainda se ver obrigado a escrever algo que a agradasse. Acredito que essa instabilidade de Annie é que torna o livro tão interessante.
    Beijos
    [SORTEIO]Baile Literário
    Quanto Mais Livros Melhor

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  7. Oi Lu!

    Eu sempre quis participar de grupos de leitura! A Alice sempre me conta suas experiências mais filha complicado afinal ela mora na argentina e eu no Brasil então fica difícil participar, mas imagino que deve ser legal discutir sobre o mesmo livro principalmente quando maioria não gosta hahahaha enfim eu adorei a resenha e fiquei como deve ser agonizante ler esse livro, por que a gente se sente na pele do personagem, então acaba sendo uma tortura psicológica para os dois, eu nunca li nada desse autor, mas eu adoro os livros do filho dele, acho que esta na hora de mudar isso, ele e tão conhecido e todo mundo fala bem, mas eu gosto que nos livros de terror tenha algo extremamente surreal meio fantasioso, quando e real demais eu saio fora.

    Adorei a resenha.

    Beijinhos

    Resenha Atual

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  8. Olá!!

    Eu tenho problemas com a escrita do SK, um livro que adorei foi Sob a redoma. E tenho mais tres livros na lista, " O Iluminado, Misery e It". Mas Misery me chama muita atenção devido a historia hahaha.


    Abraços!!
    http://estantedolima.blogspot.com

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  9. Nunca lemos nenhum livro do Stephen King, não faz muito o nosso gênero de leitura!! Mas gostamos da sua resenha!!

    beijos

    onlyinspirations.blogspot.com.br/

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  10. Oi Luciane, tudo bem!!
    Nunca li nada do autor, por não ser meu gênero favorito, mas confesso que fiquei curiosa para saber o que acontece, com Paul e Annie. Nunca participei de grupos de leitura.

    *bye*
    Marla
    http://loucaporromances.blogspot.com.br/

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  11. Amei sua resenha! Eu sou apaixonada pelas obras do King e amei saber que terá mais muitas leituras dele e mais resenhas por aqui!
    A Annie é uma figura né?! Acho que é a "Vilã" que mais odeio do universo do King, quiçá a vilã que mais odeio na vida!! KKKK
    Grande Beijo linda!

    www.lendo1bomlivro.com.br
    @lendo1bomlivro

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  12. Olá, Luciane.
    Eu tenho esse livro, mas ainda não o li. A premissa é muito boa, mas essa protagonista parece ser mesmo bem louca. Aliás, louca do jeito que eu gosto. haha
    Pretendo ler esse livro ainda nesse ano.

    Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de março. Serão três livros como prêmio, sendo dois autografados.

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  13. Uooouuu!!!Estou aqui boquiaberta com esta resenha e com a vontade de ler esse livro.
    Stephen é um rei na arte de criar tramas psicológicas. O único livro que li dele foi Jogo Perigoso e a trama está mais ligada ao estresse psicológico do que com algum terror evidente.
    Infelizmente não tenho um grupo de leitura, meus amigos não gostam muito de ler, então acaba que sou uma leitora solitária. =(

    Um super beijo

    Livros em Contexto

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  14. Oi!! Nunca li em grupo, deve ser muito bom a troca de informações e opiniões. Nunca li nada do autor, tenho um certo receio. Bjos ♥️

    Click Literário 

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  15. Olá, Luciane.
    Apesar de ter uma relação de amor e ódio com o autor, esse é um livro que me interessa. A premissa é muito interessante. E quem nunca teve vontade de fazer igual a personagem com alguns autores hehe. Não nesse nível, mas tem uns que eu queria matar, principalmente um dito cujo que não termina a série nunca mais hehe.

    Prefácio

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  16. Oi Luciane!
    Misery é ótimo, né? A Anne é uma personagem maravilhosa (completamente louca, mas maravilhosamente construída)! E você tem toda a razão: a tortura psicológica pela qual o Paul passa é muito pior que a tortura física.
    Beijos,
    alemdacontracapa.blogspot.com

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