Mentiras como o amor [Resenha Literária]


(...) a felicidade é ser amada por quem você é sem nenhuma reserva ou hesitação, sem retroceder ou se importar com o que qualquer pessoa venha a pensar. Era confiança; era fé; era saber que o amor que você dá fica seguro no coração de outra pessoa.” Mentiras como o amor, página 197.
Este livro tem uma reviravolta muito importante, nem tudo é o que parece, que trata do tema central da história, mas que não podemos resenhar sem soltar spoilers. Por este motivo, esta resenha foi dividida em duas partes, a primeira sem spoilers e a segunda, para você que não liga em saber o que acontece ou que já leu a história e quer conversar sobre o assunto. Vou avisar quando a parte com spoilers começar. 

Parte 1: sem spoilers.

Após um incêndio trágico que destruiu a casa da família, Audrey, uma adolescente de 16 anos, seu irmão mais novo Pete, e sua mãe Lorraine, se mudam para uma Granja desativada no interior da Inglaterra. A mãe, que é enfermeira, trabalha muito e por esse motivo, a garota acaba assumindo boa parte da criação do irmãozinho, incluindo dar banho, alimentar, levar e buscar na escola, entre outras atividades. Audrey sofre de uma depressão severa que a leva a se automutilar e ter medo de situações corriqueiras, como socializar com outras pessoas de sua idade, por exemplo, com traços que apontam para um diagnóstico de esquizofrenia, quando diz que os machucados são feitos por um ser que ela chama de A Coisa. 

Tudo muda quando chega ao seu novo lar e conhece Leo, um adolescente um pouco mais velho que ela e que está no último ano do Ensino Médio. O garoto mora com sua tia Sue, em uma fazenda vizinha a propriedade em que Audrey se instalou com a família e estuda na mesma escola que ela. Leo também tem problemas, decorrentes de um colapso nervoso devido a cobrança pela excelência acadêmica e na música, decide largar a escola em regime de internato e seu dom, para levar uma vida mais tranquila no interior, junto a sua tia, que é viúva e não tem filhos. Os pais, não são do tipo caseiros, e preferem se dedicar a suas carreiras. A relação tia/sobrinho é explorada de forma muito tocante, uma vez que Sue assume a criação do garoto, sem se impor como mãe, mas é muito dedicada, e Leo a respeita muito também. Mão vemos aqueles típicos personagens perturbados que se rebelam contra a cobrança dos pais. 


Assim como em Corações Feridos, primeira obra publicada de Louisa Reid, também pela Novo Conceito, as relações familiares são exploradas em diversas dimensões, pais e filhos, irmãos e tias e sobrinhos, e isso é fundamental para nos trazer personagens que não são unidimensionais, e mais importante, a noção de que podemos ser diferentes não apenas por nós mesmos e nossa personalidade, mas especialmente pelo meio em somos inseridos. Audrey é um grande exemplo, sendo vista pelos que a cercam e por ela mesma, de forma totalmente diferente. 

Quando ela assume o papel de cuidadora do irmão e muitas vezes da mãe, ela abre mão da adolescente que só quer conhecer o mundo e parece até temerosa em fazê-lo, mas ao ter oportunidades de viver novas experiências com Leo, tanto pode ser aquela garota que teme a reação da mãe, como a menina que só quer ser apenas uma adolescente com menos obrigações. Todas elas são Audrey, mas no decorrer da trama vamos descobrir o papel que Lorraine, sua mãe exerce.

A autora também vai explorar novamente o tema bullying escolar, com a protagonista sofrendo perseguição de uma colega de escola, que é interessada em Leo quase que uma stalker do rapaz. Lizzy, a colega de escola maldosa, é o tipo que não tem limites quando o assunto é “defender seus interesses” e com ela, tudo é o que parece. Seu contraponto é Jen, garota simpática que logo de cara faz amizade com Audrey, sem ligar para o que outros podem dizer. 

O que estragou um pouco da experiência de leitura para mim, foi a sinopse. Pode até ser que tenha sido proposital, como se fosse Audrey nos apresentando sua história da forma como ela inicialmente vê, mas para mim, ao iniciar a leitura, ficou óbvio que o enredo era bem diferente do que eu imaginava. Tudo é salvo pela escrita fluída de Louisa Reid, uma autora que apesar de ter gostado mais de seu romance de estreia, seguirei acompanhando seu trabalho, e isso quer dizer muito, uma vez que leio pouco drama, especialmente familiar. O que também ajuda a contar a história é a divisão dos pontos de vista, narrado em primeira pessoa por Audrey, e em terceira por Leo, sendo ele quase que uma representação de nós, leitores.

Parte dois: com spoiler. 


Ao iniciar a leitura eu não entendi o real papel de Lorraine na situação de Audrey, mas infelizmente comecei a suspeitar e passei a ter certeza, muito antes de ser revelado no final, o que para mim, estragou um pouco saber que estava certa quando conclui a leitura, pois nestes casos, gosto de ser surpreendida. Pontos como “A Coisa” ser a mãe causando a doença e os machucados da filha e até mesmo que ela se fazia passar por enfermeira quando era faxineira foi apenas um detalhe, o fato é que eu comecei a notar que a verdadeira pirada da história, era a mãe, e que a filha era uma vítima dela, e não de uma doença. 

O diagnóstico de Lorraine é de Transtorno Factício (Síndrome de Münchausen), uma síndrome que apresenta como principal característica a simulação de sintomas físicos ou psicológicos produzidos por meio de medicação ou ferimentos, com o objetivo de que a pessoa assuma o papel de doente, e consequentemente ganhe simpatia ou atenção pelas pessoas de sua família e até mesmo de estranhos*. No final do livro, durante um ataque de Lorraine, vemos que ela já sofria dessa síndrome muito antes de ter filhos, e que impunha a si mesma, mas passou a fazer com Audrey após seu nascimento, evoluindo para um quadro de Transtorno Factício por procuração.


Eu tive empatia por Audrey não conseguir se libertar da mãe no começo, mas a autora não foi hábil ao manter essa empatia, colocando a protagonista em situações contraditórias demais, se prolongando demais ao retratar o relacionamento amoroso com Leo, e nos capítulos do próprio, em que ele não sabia de nada, só ficou se lamentando. Louisa Reid tentou criar um clímax para o final, mas que não funcionou por eu já ter desvendado o mistério antes dele ser desvendado para mim.

Apesar disso, novamente, a escrita da autora nos leva a persistir na leitura, e admirar sua capacidade de abordar temas poucos explorados na literatura, especialmente na literatura jovem adulto. Seu talento é inegável e junto com o tema abordado, Mentiras como o Amor é uma leitura recomendada, para o público YA, mas também para os leitores que gostam de explorar relações familiares perturbadoras. 

*Informações da web.

FICHA TÉCNICA

Título: Mentiras como o amor
Autora: Louisa Reid
Onde Comprar: Amazon

Luciane Leite
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Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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8 comentários:

  1. Oie
    Essa premissa não chama muito minha atenção.
    Ah, eu evito ler sinopses por isso, prefiro ser surpreendida.

    Beijos
    http://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br/

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  2. Oi, Luciane!
    Eu não tinha muita vontade de ler esse livro, mas recentemente eu vi algumas resenhas como a sua, maravilhosas, e super me convenceram a dar uma chance.
    Beijos
    Balaio de Babados
    Sorteio Três Anos de A Colecionadora de Histórias

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  3. Já está anotadinho aqui, esse com certeza é um livro muito desejado por mim, esses temas despertam muito minha curiosidade.
    Beijos ❤
    Jardim de Palavras

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  4. Olá, não conhecia o livro fiquei bem fisgada com sua resenha mas não sei se leria o livro. Geralmente quando lemos a sinopse as vezes não chama muita atenção mais quando você está lendo se surpreende com a leitura.

    www.mundofantasticodoslivros.blogspot.com

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  5. Menina! Começar essa resenha com frase de amor próprio forever balançou minhas estruturas aqui rsrsrs...Perfeita! Um livro com temas fortes e bem atuais merece todo o nosso respeito. Acredito que muitas pessoas vão se identificar com Audrey e “A Coisa”. Com certeza é um livro que gostaria de ler futuramente. (Li a parte com spoiler, porque sou curiosa rsrs... mas mesmo assim fiquei na vontade de ler esse livro)

    Beijos
    Vivian San Juan
    Saleta de Leitura

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  6. Oi, Luciane

    Eu solicitei esse livro quando era parceira da editora ano passado, mas na época só tinha em ebook e eu não consegui baixar de jeito nenhum.
    Li somente a parte sem spoilers e confirmei que quero sim fazer esta leitura, já que adoro livros que exploram as relações familiares.

    Beijos
    - Tami
    http://www.meuepilogo.com

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  7. Olá, Luciane.
    Eu amei esse livro. Mexeu tanto comigo que implorei para minha amiga ler apara poder conversar sobre ele já que achei poucas resenhas dele hehe, Diferente de você eu não descobri o final. Sabia que a culpa era da mãe, mas a forma como a autora conduziu a história soltando as informações aos poucos foi só aumentando meu ódio por ela. Foi um dos livros que mais me surpreendeu esse ano.

    Prefácio

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  8. Essa é uma das minhas próximas leituras. Justamente porque li Corações feridos e amei que estou louca para ler esse livro também. Gostei de saber que segue a mesma linha na questão de a leitura ser flúida e tudo mais. #ansiosaresume
    Beijos,
    Monólogo de Julieta

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