Cuba Jazz [Documentário]

Conferimos a Cabine de Imprensa de Cuba Jazz.

Cuba Jazz é uma prazerosa experiência em todos os sentidos: conteúdo e forma. É um documentário, a princípio, sobre um estilo musical surpreendentemente pouco conhecido: o jazz cubano. Pouco conhecido, pois se mistura na miríade de ritmos e sons pelos quais o país é tantas vezes referido, sendo confundido com outros gêneros e se perdendo na percepção do público sobre sua especificidade enquanto estilo independente das outras formas de musicalidade cubana.

Também é prazeroso pela qualidade da montagem. Num tempo que de forma nenhuma é incômodo, com seus 85 minutos (agrada literalmente a todos os públicos, e se há algo em contrário é que para os amantes de jazz e curiosos da cultura cubana vai remanescer um eufórico gosto de “quero mais” ao final do longa [1]), o documentário intercala com sucesso imagens e sons de maneira fluida, numa feliz escolha de músicas polvilhando uma feliz escolha de cenas cotidianas e banais das ruas de Havana em toda a sua variedade: desde os cartões postais, do centro, aos bairros periféricos pobres (como diz uma personagem: “a verdadeira Cuba”).

As imagens, mesmo na parte turística da cidade, inspiram essa imagem de pobreza, mas nada romantizada. É uma pobreza simples, crua, sem retratos alegóricos de um lugar feliz e emancipado por ser pobre, e muito menos de um cenário angustiante e pós-apocalíptico de miséria, fome e tristeza. A verdade é que outra qualidade do documentário é desafiar nosso imaginário sobre Cuba, seja o imaginário da esquerda, seja o imaginário da direita. 


A câmera, orgânica, passeia por entre o povo e as ruas cubanas extraindo cenas da vida, quase diagnosticando antropologicamente o comportamento e a cultura de um povo no mais banal que há em seu dia-a-dia. Ela revela um dado surpreendente a todos nós que temos uma “opinião formada” sobre Cuba: pasmem, Cuba é um país normal! Não é uma ilha paradisíaca da felicidade e da libertação, tampouco as cenas e os depoimentos dos entrevistados revelam um lugar fechado, proibido, e aparentam tudo menos uma “ditadura” sanguinária e cruel[2].

Um dado que chama a atenção de toda gente que vai a Cuba é reafirmado aqui: o povo cubano é o grande atrativo de seu país. Os depoimentos (outra feliz escolha dos diretores Max Alvim e Mauro di Deus) demonstram diversos aspectos desse povo, que vão da ratificação do caráter de leveza, generosidade e alegria, cujo comumente é dito intrínseco aos cubanos, à desmistificação desse fato, por outro lado, pois revelam que o cubano também tem seus conflitos e falhas – e.g. a distorção de autoimagem que um entrevistado cita, oriunda da própria ideia ensinada a eles desde cedo pela ideologia dominante, e também um senso comum fora de lá: de “necessariamente” serem os melhores do mundo em algumas áreas.

As piores dificuldades os cubanos enfrentaram ao longo de sua história e enfrentam ainda hoje com criatividade e, principalmente, musicalidade. E se até aqui falamos só de Cuba e dos cubanos é porque esse tema é inerente ao tema da música lá – e o que o documentário deixa bastante claro. Também incrivelmente em tão pouco tempo, é feito um competente diagnóstico completo, ensinando ao público o básico e mais um pouco, sobre o jazz e a música cubanos.

Embora não literalmente dividido em capítulos, podemos perceber que a estrutura do documentário está de certa forma assim dividida. Organiza-se em, basicamente, blocos de entrevistas, narrações sobrepostas a imagens, músicas sobrepostas a imagens e citações de textos e autores célebres (sobre Cuba e seu povo) sobrepostas a imagens; cada momento em que ocorre na tela uma sobreposição de imagens cotidianas a músicas (algum exemplo de jazz cubano, inclusive, dentre o trabalho dos músicos entrevistados) parece marcar uma transição entre cada bloco de entrevistas, cada qual a girar em torno de um tema específico.


Dentre os temas, podemos listar respectivamente: o significado do termo “jazz cubano”; a herança musical dos tempos de escravidão (e se há um período sombrio relembrado aqui é esse); a evolução histórica (o afrocubajazz dos anos 20/30 e o cubop de 40/50); as fronteiras, barreiras e relação complicada com os EUA (bem como as influências do e sobre o jazz norte-americano); a relação também complicada com a própria Revolução de 59 (resistência e criatividade dos músicos para preservar um estilo considerado “música do inimigo”); os diversos significados de “jazz” para seus músicos; a estrutura formal da música cubana (a riqueza de gêneros musicais, o “padrão rítmico cubano”, a “pressão constante com o ritmo” e a importância central da clave); a música como profissão (tocar jazz é em primeiro lugar “festa”, antes de dinheiro ou trabalho); a formação musical e o caráter “eurocentrista” das escolas cubanas (rigorismo acadêmico que prega o ensino de música clássica em desfavor da popular); a essência renovadora e “revolucionária” do jazz (desafiando os ‘conservadorismos’ da forma musical, da ideologia do partido e da ideologia norte-americana); as metáforas e relação com a cozinha e o paladar cubanos; a situação dos músicos e do jazz na Cuba atual; a relação da musicalidade com o tempo (favorece uma espécie de ócio criativo, em detrimento da temporalidade disciplinada e racionalizada do mundo capitalista).

Vale destacar a acuidade quase científica (digna de pesquisa acadêmica) com a qual os diretores se propõem a demonstrar as premissas contidas nas frases faladas por seus ‘talking heads’. Dessa forma, as entrevistas e frases selecionadas na montagem não são de modo algum soltas ou aleatórias, são sempre exemplificativas ou lançam bases do que será comprovado no próprio filme, sendo ele todo perfeitamente fechado e coerente assim, sem confusão ou pontas soltas.

Por exemplo, “outra forma de tocar o jazz” é uma frase dita logo no início para explicar a diferença terminológica entre jazz cubano e latin jazz, o que será demonstrado pelo documentário e ficará suficientemente claro: o espectador sai convencido de que jazz cubano é algo específico e único, e aprende o porquê. Frases como “em Cuba há mais arte do que negócio” ou, no país “músico é uma profissão como qualquer outra”, vêm respaldar a afirmação de um dos entrevistados sobre o projeto de massificação da cultura e acesso universal à cultura que o governo cubano empreendeu ser um dos “grandes acertos da Revolução”. Mas como outro personagem não deixa de citar, “toda revolução tem seus excessos”, e exemplos disso também são demonstrados e contados pelas personagens.

O longa sem dúvida é também uma declaração de amor ao jazz (sendo os diretores expressamente amantes desse estilo musical), com a seleção de falas dos entrevistados que ora ou outra pipocam na tela, tais quais: jazz é filosofia, jazz é improvisação, jazz é liberdade, jazz é coletivo e não individualista, jazz é a música dos oprimidos (como o blues) etc. 


Ao fim e ao cabo, o nome Cuba Jazz faz mais sentido do que faria, por exemplo, Cuban Jazz (apesar de o assunto tratado ser jazz cubano), porque estamos diante de um documentário que utiliza o jazz como fio condutor para passar a limpo a história recente e antiga da própria Cuba – é um documentário não apenas sobre o gênero musical, mas também sobre o país –; e o que é feito de maneira sóbria, madura e convidando para uma reflexão sobre Cuba, suas nuances, suas complexidades, o maravilhoso espírito de seu povo, e principalmente, para descobrir e ouvir o delicioso jazz cubano.

Vale lembrar que o filme tem estreia na sexta-feira, dia 28 em sessão gratuita à noite no festival latino americano de cinema em São Paulo, mas o festival começa já dia 27. Para mais informações CLIQUE AQUI.

[1] 85 minutos torna-se “dolorosamente” pouco diante das mais de 100 horas de material que os diretores tiveram de cortar, conforme contaram na conversa com o público ao final da sessão. 
[2] Inclusive, na conversa com o público, ao serem indagados sobre possíveis problemas em filmar na ilha (entre 2014 e 2016 rodou-se este longa), os diretores contam sobre dois momentos em que foram abordados pela polícia cubana cujos fariam nossa ‘democrática’ e ‘livre’ experiência com a polícia brasileira morrer de vergonha.

FICHA TÉCNICA

Título: Cuba Jazz
Diretor: Max Alvim, Mauro di Deus
Data do lançamento no Brasil: 28 de julho

Gui Augusto

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Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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2 comentários:

  1. Não costumo assistir muitos documentários, então não sei se iria curtir muito, mas devido aos seus elogios, é capaz que eu dê uma chance. Ótima resenha!!

    xx Carol
    http://caverna-literaria.blogspot.com.br

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  2. Gostei da dica Gui. Me pareceu ser um documentário bem interessante e abrangente. Abraço!

    www.newsnessa.com

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