A Lança do Deserto [Resenha Literária]


Em Ciclo das Trevas, volume 1, O Protegido, que tem resenha aqui no blog, acompanhamos a jornada de crescimento e amadurecimento de Arlen Fardos, Leesha Papiro e Rojer Estalajadeiro. No segundo volume da série, A Lança do Deserto, vamos nos aprofundar também na infância e adolescência de dois personagens que já conhecemos adultos no primeiro volume, Jardir, cujo nome completo é Ahmann asu Hoshkamin am’Jardir am’Kaji, e Abban am’Haman am’Kaji, líder e comerciante do território de Krasia, respectivamente. Como esta é a resenha do volume dois da série, vai ser impossível não dar alguns spoilers sobre o volume um. 

Como a introdução dos três primeiros personagens foi feita em O Protegido, vou falar um pouco sobre Jardir, Abban, e também um pouco sobre a mulher de Jardir, Inevera. O costume de Krasia determina que os meninos sejam retirados de sua família e enviados para treinamento, chamado de Kaji’sharaj, ainda muito cedo, ambos foram recrutados no mesmo dia. Importante salientar que esse termo “Kaji”, presente no nome no nome dos personagens e no treinamento se refere à tribo a que os dois personagens pertencem.

O treinamento serve para determinar se um homem vai se tornar guerreiro, aqui chamado de dal’Sharum, a posição de maior prestígio nessa sociedade, dama que é equivalente ao sacerdócio, ou ainda, kaffit, a qual pertencem comerciantes, trabalhadores braçais e diversos outros profissionais, é a posição de menor prestígio, mas ainda assim, um homem kaffit, ainda é considerado melhor que as mulheres. 

Os aspirantes a dama são separados logo no início, geralmente seguindo a posição de seus pais, enquanto que na dal’Sharum, os que falham se tornam kaffit, e os que sobrevivem se tornam guerreiros. Jardir e Abban seguirão os passos dos pais e isso é contado de forma detalhada em A Lança do Deserto


Apesar de Abban ter um tratamento diferenciado dos outros kaffit, somente neste volume é que vamos descobrir sobre a outrora relação de amizade e companheirismo que existiu entre ele e Jardir. Para se entender um pouco melhor, acredito que em termos comparativos, o povo krasiano pode ser comparado aos muçulmanos radicais, que também enviam meninos ainda muito jovens para lutar sua Guerra Santa, no tratamento das mulheres e na relação com outros povos. O que há de comum com os demais muçulmanos também é a questão dos múltiplos casamentos.

O que mais pode ser considerado diferente é a existência das dama’ting, mulheres que pertencem ao sacerdócio e que não podem ser agredidas e também porque a Guerra Santa aqui é a luta contra demônios, os já conhecidos terraítas, chamados em Krasia de Alagai, que assolam toda a humanidade. 

O povo de Krasia é abominável em diversos sentidos, os kaffit são tratados como lixo, mulheres podem ser estupradas pelos guerreiros sem quaisquer consequências, os meninos em treinamento também são abusados sexualmente e não podem reclamar, enfim, uma infinidade de atrocidades que transformou Jardir em um ser ambicioso e sem quaisquer escrúpulos, como vimos no primeiro livro. Devo salientar que apesar de ser um povo extremamente religioso, no livro é ressaltado que a relação entre homens não é vista como pecado, desde que este também se deite com mulheres e tenha filhos. 

No segundo volume vamos ser apresentados a Inevera, esposa principal de Jardir e que tem um papel muito importante na história, tanto do desenvolvimento do personagem, quanto no episodio do rompimento da amizade dele com Arlen, passagem que inclusive é recontada neste livro, mas desta vez pelo ponto de vista de Jardir. A dama’ting é um retrato das bruxas más, faz previsões, trama a morte dos inimigos do marido, pelo menos dos que ela acha que são, usa outras pessoas para conseguir o que ela quer, não importa os custos. Suas tramas em diversos aspectos moldaram quem é Jardir, inclusive é ela quem o convence de que ele é o Shar’Dama Ka, o Salvador, não apenas por ser descendente da mesma tribo do primeiro salvador, mas por outros fatores. 


Ao norte do território de Thesa, vamos continuar a acompanhar a trajetória do nosso trio do primeiro livro. Arlen está cada vez mais envolvido com a ideia de lutar contra os terraítas, sendo chamado ele próprio de Salvador pelo povo, mas sem querer esse título de forma alguma, diferente de Jardir que abraça a profecia do Salvador e usa isso para unificar seu povo. O romance com Leesha não foi para frente, como era de se esperar pelo tanto que Arlen se menospreza, e ele de distancia cada vez mais do convívio com humanos, exceto na hora de lutar. Absorver a energia dos terraítas quando os mata com as próprias mãos está transformando o Protegido em algo que até mesmo ele teme. 

Leesha, agora chamada de mestra na Clareira do Lenhador, rebatizada de Clareira do Salvador, está cada vez mais aprimorando seus conhecimentos como ervanária, e avançando também como protetora. Desenvolvendo novas formas de proteger a si e aos seres humanos com proteções que proporcionam invisibilidade, por exemplo, mas simultaneamente vemos sua luta para não deixar seu lado mulher, no sentido de ser uma pessoa com anseios sexuais e de maternidade de lado, apesar de estar apaixonada por alguém que claramente não quer nada com ela. 

Leesha e a Clareira representam bem a diferença de pensamentos de alguns povos com relação ao papel da mulher na sociedade, enquanto que em outros territórios de Thesa as mulheres são renegadas ao papel de parideiras, ou lideram nas sombras, a ervanária faz isso de forma aberta e é cada vez mais respeitada por seu povo. 

Rojer, cada vez mais apaixonado por Leesha, é um dos que mais luta com seu dom. Sendo o mais novo dos três, frequentemente é tratado diferente pelos companheiros mais velhos, fazendo com que às vezes ele desconfie do seu potencial, mas tenho certeza que tem algo guardado para Rojer, que o autor não revelou, pois ainda é um mistério o motivo de apenas ele ser capaz de encantar os terraítas. 


Outros três personagens secundários começam a ter mais importância neste volume, Gared, antigo prometido de Leesha, Wonda, garota da Clareira que se torna uma espécie de guarda-costas de Leesha, e Renna, prometida de Arlen de quando ele morava no Riacho de Tibbet, com destaque maior para esta última, por isso, vou focar nela. Para quem não se lembra, a irmã mais velha de Renna, fugiu de casa para escapar dos abusos sexuais do pai e acabou se casando com Jeph Fardos, pai de Arlen. Mas o velho tinha outras duas filhas, então começou a abusar da filha do meio, que posteriormente também se casou, encerrando os abusos.

Renna conseguiu evitar os abusos do pai por alguns anos, mas quando sua irmã finalmente se muda da casa, o pai encontrou território livre e passou a abusar da filha mais nova. Durante a leitura eu fiquei pensando “Mas que merda. Para que mais uma cena de abuso de uma personagem que está tão distante do conflito central? Será que o autor está tentando causar um impacto com isso? É bom ter algo muito maravilhoso reservado para ela.”, e confesso que não estava curtindo, mas a história de Renna vai tomando cada vez mais força, e vou parar por aqui para não dar spoilers. Só vou dizer que ela se transforma em uma das personagens femininas mais incríveis do livro!

Juntando tudo isso que está acontecendo na vida dos personagens e com a humanidade em geral, com o povo krasiano saindo do deserto para conquistar mais guerreiros para a Guerra Santa, parece que já é demais, não é? Mas não, Peter V. Brett ainda adicionou o surgimento de dois novos tipos de terraítas, muito mais mortais, príncipes demônios da mente e seus subordinados mímicos, que conseguem tomar a forma do que e quem quiserem, como outros tipo de terraítas e até de seres humanos. Sinceramente eu fiquei pensando que “AGORA FERROU DE VEZ!”. Uma das lutas mais sensacionais do livro envolve estes dois terraítas, Jardir, Inevera e Leesha, e foi sensacional.

Ciclo das Trevas é uma daquelas histórias com tantas nuances que é impossível discutir tudo isso com apenas uma resenha escrita, pois o autor preenche cada página com uma quantidade absurda de informações, que nos entretém ao mesmo tempo em que nos faz refletir sobre os caminhos da humanidade, lembrando que apesar dos meios relativamente primitivos de guerra e de vida, a história se passa no futuro, ou seja, é impossível não se perguntar sobre o que estamos fazendo com o mundo e quais serão as consequências. 


Para mim, os terraítas eram representações da natureza se voltando contra o homem, como punição pelo que ele fez no passado com seu próprio habitat, mas daí com a inserção dos demônios da mente e dos mímicos fiquei ainda mais impactada com a capacidade do autor de trazer para a história mais aspectos religiosos, mas sem forçar algum tipo de ideologia. 

Ciclo das Trevas segue sendo uma série que vale muito a pena ler, apesar dos calhamaços que são cada volume, nós somos tragados pela escrita envolvente do autor, pela história e principalmente pelas personagens. A Dakside Books lançou o volume três, A Guerra da Luz, no final de agosto e eu estou bastante ansiosa por essa leitura, pois o volume dois acabou de forma maravilhosa, com um ótimo gancho para a sequência. 

Com relação a edição, é Darkside né, gente! Capa dura e maravilhosa, desta vez com a representação de Jardir, seguindo as capas originais, diagramação perfeita, confortável para ler, mesmo com o peso de 714 páginas. O único aspecto negativo que percebi foram alguns, poucos, erros de revisão nas últimas cem páginas, como se o revisor já tivesse perdido a habilidade de ver esses erros por estar cansado. No mais, livro mais que perfeito para se ter na estante, mas principalmente para ler. 

FICHA TÉCNICA

Título: A lança do deserto - Ciclo das Trevas # 2
Autor: Peter V. Brett
Onde Comprar: Amazon

 

Luciane Leite
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Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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7 comentários:

  1. Dark sempre faz edições excelentes. Sou louca para ler essa trilogia.

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    Abraços,

    Naty

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  2. Gostei da resenha Luciane. Me pareceu ser uma fantasia bacana e interessante. Beijo!

    www.newsnessa.com

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  3. Oi, Luciane. Eu não entendi muito bem os conceitos porque nunca ouvi falar nem no primeiro e nem no segundo volume, então fiquei meio confusa, mas devo ressaltar que eu amei essa edição da editora, que claro, sempre arrasa. Talvez eu leia a história, mas como não é um dos meus fortes gêneros, vai ser mais complicado.
    Beijos
    http://www.leitoraencantada.com

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  4. Oiiiiii Lu
    Irei ler a trilogia, gostei muito do mundo criado pelo autor e ameiii sua empolgação com ele.
    Beijos
    Ari

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    Respostas
    1. Ari, não é trilogia. Ainda vai ter mais livros, se não me engano no total de cinco.

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  5. Olá,
    Ainda não tinha lido nada sobre essa série.
    A proposta é interessante, mas infelizmente eu deixaria passar, implico muito com livros do estilo. Mas, adorei sua resenha.

    tenha um ótimo final de semana =D
    Nana - Canto Cultzíneo

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  6. Hi! Great post and i love your photos!
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    Have a nice day!

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