Sempre vivemos no castelo [Resenha Literária]


Publicado originalmente em 1962, Sempre vivemos no castelo conta a história de uma família marcada pela tragédia. Antigamente sete Blackwoods moravam na propriedade da família, até que um dia eles foram envenenados por arsênico posto no açucareiro, e então só restaram três, Mary Katherine, cujo apelido é Merricat, sua irmã mais velha Constance, e o tio Julian. Constance, a mais velha, era quem cuidava do preparo das refeições da família e por esse motivo foi acusada do crime, mas posteriormente inocentada passou a viver com medo de sair em público, sentimento que iria determinar como os três iriam viver os seus dias dali em diante. 

Na época do crime, Merricat tinha apenas 12 anos e no fatídico dia tinha ficado sem o jantar como castigo por seu mau comportamento. Totalmente devotada a sua irmã Constance, é ela quem se encarrega de ir até a vila uma vez por semana para comprar os mantimentos necessários para a sobrevivência da família, mesmo sofrendo ataques constantes de seus moradores. Em uma das primeiras cenas do livro, algumas crianças cantam uma cantiga para provocá-la e podemos perceber como a comunidade é hostil a família Blackwood
Merricat, disse Connie, você não quer uma xícara de chá?
Ah, não, disse Merricat, você vai me envenenar. (...)
Parte da canção, página 26.

A história do livro tem início quando ela já tem 18 anos, ou seja, já é quase uma adulta, mas acredito eu, devido a esse isolamento da sociedade, podemos ver um comportamento bastante infantil na personagem, que frequentemente conversa com seu gato, Jonas, enterra objetos pelo quintal, faz algumas birrinhas, entre outras atitudes que não condizem com sua idade, até que a chegada de um familiar faz tudo piorar. 

Charles é primo das Blackwood, filho de um irmão que se distanciou totalmente da família após a tragédia. De início, este personagem dá a entender que só reatou os laços agora porque o pai, que acabou de falecer, o proibia de contatar as primas e tio Julian, mas aos poucos vamos descobrir suas intenções e elas não são nada boas. Merricat vê no primo uma ameaça ao equilíbrio da vida em família desde o primeiro momento, no entanto, apesar de inicialmente ter achado sua atitude muito estranha, percebi que há muito mais camadas na história da família Blackwood.


Apesar de estar na sinopse que a história tem um humor macabro, não esperava que fosse tanto. Em diversos momentos fiquei tentando diagnosticar Merricat, apesar de não ter o conhecimento para tal, pois a personagem claramente sofre de algum tipo de distúrbio anterior a tragédia que caiu sobre sua família, dando um ar meio de sonho psicodélico a leitura em alguns momentos. Pode ser que isso ocorra porque a própria autora era viciada em álcool e anfetaminas, dando vazão a sua criatividade de forma que muitas vezes não parece fazer muito sentido. 

Assim que terminei a leitura fui pesquisar sobre a autora, e pude ver que mais alguns aspectos de sua vida pessoal podem ser observados no enredo, e principalmente na caracterização de Constance. Além dos vícios, Shirley Jackson também sofria de obesidade mórbida, ansiedade, depressão, e o que fica mais evidente na personagem, agorafobia. Durante a leitura vamos ver que o medo de Constance não é tão irracional assim, mas durante seis anos elas viveram sem nenhum incidente aterrorizante, e ela mesmo assim se negava a sair de casa. 


Quando a tragédia chega mais uma vez para as Blackwood, era de se esperar que elas acordassem ou afundassem ainda mais, o que acaba acontecendo e é aí que a história fica ainda mais surreal. Para nós que vivemos em sociedade de forma relativamente normal, a situação parece totalmente absurda, até mesmo a falta de reação delas, mas é fácil julgar sem estar na pele de pessoas que vivem com algum tipo de distúrbio, por isso, ler Sempre vivemos no castelo também é um exercício de empatia. 

Apesar de curto, o livro tem aproximadamente 190 páginas apenas, nada deixou de ser dito pela autora. É uma história rica em mistério, a gente só vai saber se Constance envenenou a família ou não bem depois da metade livro, mas também em lições sofre amor e relação familiar, pré-julgamento, amadurecimento, como uma comunidade pode enlouquecer de forma coletiva e não se dar conta do que o que faz é errado e só perceber muito tempo depois, e ainda sobre o medo racional e irracional, e muito mais. 


Sobre a edição, o que dizer minha gente? É um livro lindo, não apenas por ser capa dura, mas pelo conjunto de fatores como as cores, imagens, a textura, e até as folhas de guarda, que apesar de serem inteiramente azuis, deram um charme a mais para o produto. A fonte é a mesma da maioria dos livros da Suma, que poderia escolher uma fonte maior, mas também não é das mais desagradáveis de se ler e o papel é o meu amado pólen soft, que não irrita minha rinite ou minha vista míope.


FICHA TÉCNICA

Título: Sempre vivemos no castelo
Autora: Shirley Jackson
Onde Comprar: Amazon

 

 Luciane Leite
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Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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9 comentários:

  1. Oie
    Gostei do enredo, gosto de livros com mistérios que nos prendem até o fim. A diagramação é linda mesmo e fiquei com vontade de ler.

    Beijinhos
    https://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br/

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  2. Não conhecia esse livro e também não é o tipo de livro que eu leria, me deu um pouco de medo. Hahahaha Mas a edição tá linda e o enredo é realmente muito interessante, vale a pena conhecer sim.
    Mil Beijos!
    http://pensamentosdeumageminiana.blogspot.com.br/2017/09/desejo-do-dia-bela-e-fera-perdida-em-um.html

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  3. Oi Tudo?
    Não conhecia essa história me pareceu bem maluca para falar a verdade conforme ia lendo sua resenha, e fiquei imaginando quando você disse que a própria autora tinha alguns problemas como ela estava ao escrever esse livro. Mesmo assim achei intrigante e o livro parece ser lindo com essa edição capa dura. Gostei da dica.
    Beijos
    Raquel Machado
    Leitura Kriativa
    http://leiturakriativa.blogspot.com.br/2017/09/cinekriativa-it-coisa.html#comment-form

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  4. Oi, Lu!
    Uma amiga minha leu esse livro e saiu indicando pra todo mundo.
    Pela capa e a sinopse, eu nunca ia imaginar que a história seria assim.
    Beijos
    Balaio de Babados
    Participe do sorteio de aniversário do Balaio de Babados e O que tem na nossa estante

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  5. Fiquei bastante curioso sobre o livro, sendo também agorafóbico, é um tema que gosto de ler e a história parece bastante interessante :)

    MRS. MARGOT

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  6. Oi Luciane, tudo bem!
    Num primeiro momento achei a trama um pouco confusa, mas o mistério existente na trama despertou minha curiosidade. Dica anotada!!

    *bye*
    Marla Almeida
    http://loucaporromances.blogspot.com.br/



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  7. Oi Luciane!
    Eu comprei esse livro mas ainda não li. Pela sua resenha acho que vou gostar!
    Gostei também do paralelo que você fez do livro com a história da autora, interessante.

    Beijos,
    Sora | Meu Jardim de Livros

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  8. Oie, tudo bem?
    Tenho muita curiosidade a respeito dessa história, adoro um bom mistério e esse livro chama muito a minha atenção. Gostei muito da sua resenha, não sabia que o livro era tão pequeno.

    Obrigada pelo carinho. Volte sempre!
    Um super beijo :*
    Claris - Plasticodelic

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