O Rebanho [Resenha do Filme]


O Rebanho, que disputa essa 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo na competição “Novos Diretores” é uma interessante visão psicologizada e fenomenológica do bullying; porém, a ideia enquanto é muito boa, poderia ser melhor aproveitada pelo diretor, o argentino Sebastián Caulier.

Aqui estamos diante da história de Esteban (Patricio Penna), um típico nerd de colégio. Ele é estudioso, solitário, excluído e escreve poesia como forma de escapismo social e de se apegar a alguma identidade. Tendo já como comum em sua rotina fugir de bicicleta de garotos bullies que por esporte brincam de tiro ao alvo lhe atacando pedras, um certo dia sua rotina é quebrada e sua vida remexida do avesso pela presença de um novo aluno no colégio, o provocativo e rebelde Gastón (Felipe Ramusio), seu vizinho de cadeira e o centro das atenções e sonhos românticos das garotas em puberdade.

Aos poucos os dois vão se conhecendo e tendo uma relação de amizade estranha, hierárquica. Gastón se sobrepõe a Esteban desde o primeiro momento; sua vontade é mais forte, ele é mais carismático, e é tão sedutor como ser humano que consegue exercer um fascínio quase sexual. 

Na verdade, esse sugestão sexual que fica o tempo todo pelejando entre os dois é uma representação do desejo. O desejo intenso que Esteban tem de ser Gastón; seu fascínio mais racionalmente explicitado é colocado pela narração em off que a todo momento acompanha o filme explicando a trama em momentos chave (e aparenta ser o relato da história a partir da perspectiva de um Esteban do futuro, mais maduro e esclarecido sobre os fatos).

O que mais chama a atenção na personagem de Gastón (a atenção de Esteban e de todos no colégio) é a sua liberdade extrema e quase agressiva. Na verdade, descobrimos que ela não só é agressiva, como é violenta. Ele funciona como o exato alter ego do outro garoto. Até no figurino: Esteban sempre de branco, o uniforme da escola, parece ser só mais uma ovelha dócil em meio ao rebanho de alunos; já Gastón não, ele desde a primeira cena em que aparece no filme só utiliza roupas negras.

Quando os dois começam a andar juntos e o nerd é aos poucos transformado pelo novo amigo (e mentor), suas roupas começam a mudar também: para de usar o branco constantemente, usa roupas de muitas colorações, xadrez, refletindo na confusão de linhas e cores a complexidade que vigora dentro de sua própria mente e da sua identidade.

Na verdade ele quer se tornar o outro, e cada vez mais vai ficando próximo disso, até que um fato extremo os distancia radicalmente e é quando Esteban percebe que não quer tomar o mesmo rumo do sinistro amigo; mas já é tarde demais, e para o desfecho da relação dos dois só sobra um trágico fim.

Esteban, além do típico garoto excluído de colégio tem também as típicas relações de um com a família: a irmãzinha mala que o provoca o tempo todo por ser tão esquisito e passivo; a mãe dominadora e compreensiva de um jeito que sobrepuja qualquer individualidade do garoto; e o pai negligente e desinteressado no próprio filho.


A família, enquanto conversa entre si, ignorando completamente o filho na mesa de jantar e almoço, e exprimindo sem escrúpulos admiração pela filha mais nova (com a voz ativa que Esteban não tem na mesa), nem imagina as transformações pelas quais o garoto passa, e que os fatos estranhos e obscuros que se sucedem na cidade com proporções de um mistério policial veiculado com sensacionalismo pela mídia local, podem estar mais ligados do que se imagina aos comportamentos catatônicos do filho.

A dinâmica entre os dois atores principais não decepciona, o problema é que as personagens de cada um foram construídas sob todos os clichês possíveis dos dois estereótipos de outsiders nessas histórias. Essas figuras são já à exaustão vistas em diversos filmes do gênero; e nada no roteiro consegue inovar neste sentido.

A própria narrativa, os vários elementos que constroem o roteiro: há tantas muletas e clichês também desse gênero que se não fosse a violência e até algumas cenas sanguinolentas, ele poderia perfeitamente ser um daqueles clássicos da “Sessão da Tarde” sobre a jornada do nerd no colégio.

O uso da violência tem uma função interessante: discutir o bullying nas suas consequências mais nefastas. Que atire a primeira pedra quem nunca sofreu bullying e não rodou depois em sua mente a ficção de uma vingança cinematográfica, com pirotecnias e banho de sangue? O bullying traz inerente a si uma pulsão de violência contida muito forte; não é à toa que há tantos casos de tiroteio em escolas quando se tem acesso a uma arma de fogo (facilitadora).

Ser excluído e querer se vingar da sociedade são dois lados da mesma moeda. Embora os dois garotos sejam mostradas como pessoas distintas a todo tempo pelo filme, na verdade eles são mais parte um do outro do que parece. Tudo começa quando Gastón convence Esteban de que eles precisam abrir as portas do curral, “semear o caos” na escola, e deixar as “ovelhas” em polvorosa; Gastón, até pela sua vestimenta, claramente é a ovelha negra, mas é ele que induz e incita a violência no outro e nunca executa nada.

Aliás, é estranho e pode ter um sentido narrativo mais profundo esse fato de, o pacífico e inexperiente nas artes da vingança Esteban ser sempre o único a executar os planos atrozes que o outro bola. É por este sentido oculto que eu chamo este filme de uma narrativa fenomenológica sobre o bullying; poderíamos estar apenas dentro consciência vingativa de Esteban.

As reviravoltas e conflitos também são sempre muito previsíveis e convenientes devido ao uso extremado de clichês. Os clichês porém talvez tenham um uso se essa narrativa mais oculta do filme for confirmada: afinal, todo sonho de vingança é clichê, e toda criação imaginária de um alter ego capaz de executar esta vingança passa pelos mesmos clichês.


Há aqui um retrato da sociedade argentina de certa forma, e as justificativas para a sociedade-rebanho (que “só comem, cagam e se reproduzem”) que nossa ovelha negra quer chocar e provocar são dadas nos tipos locais e costumes locais (como o professor de educação física ou os pais de uma classe média idiotizada), mas que também são tipos universais de reacionários, conservadores, passivos e covardes.

A sua vingança pessoal contra aqueles que praticam bullying rapidamente se torna vingança explosiva contra toda a sociedade, se torna violência injustificada, crueldade pura, inclusive ao selecionar bodes expiatórios inocentes para tudo o que ele critica e vê de errado na sociedade.

A estética e o ritmo do filme são dinâmicos. Ele é visualmente estiloso também – o que acaba gerando mais expectativas do que aquilo que de fato o filme consegue entregar. Ele nos oferece um olhar provocativo e interessante sobre o bullying e isso é seu fator mais original. Mas os meios pelos quais executa isso são repetitivos demais, o filme não empolga, não entrega nada de novo, perde o mistério. O final conciliador está ali sem ter porquê; talvez confirmando essa teoria de que o filme é um narrativa psicológica subjetiva – mas mesmo que a confirme, ainda não funciona.


O REBANHO (THE FLOCK), de Sebastián Caulier (90'). ARGENTINA. Falado em espanhol. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 anos.
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 21/10/17 - 19:30 - Sessão: 232 (Sábado)
CINESALA 22/10/17 - 17:30 - Sessão: 293 (Domingo)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 28/10/17 - 14:00 - Sessão: 925 (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4 01/11/17 - 19:50 - Sessão: 1370 (Quarta)

Gui Augusto
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Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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