Antes da tempestade [Resenha Literária]


Do cenário paradisíaco do Ceilão (Sri Lanka) em O Perfume da Folha de Chá para o exótico Estado principesco de Juraipore, Rajputana, na Índia em Antes da Tempestade, a autora Dinah Jefferies novamente nos faz experimentar através de sua obra como é a experiência de uma mulher fora de sua zona de conforto, longe de casa, de seu povo e de seus costumes. Desta vez vamos acompanhar a jornada da jovem inglesa Eliza, recentemente viúva, que aos 29 anos decide se dedicar totalmente a profissão de fotógrafa, uma vez que não tinha essa liberdade durante o casamento.

Essa decisão acaba dando a ela a oportunidade de voltar a Índia dezoito anos após ter partido com sua mãe para a Inglaterra, após a trágica morte do pai, um importante assessor distrital. O convite para trabalhar parte de Clifford Salter, um funcionário de alto escalão e afilhado de seu falecido pai, em nome do governo britânico, com a missão de fotografar para o acerto da Coroa a vida cotidiana em Juraipore, especialmente da família real local.

Com o passar dos dias a moça se dá conta de que fazer retratos posados não lhe trará nenhuma gratificação pessoal, ao contrário, ela deseja usar sua arte para trazer a tona a realidade da população local, com a intenção de expor as injustiças sociais que caracterizam essa sociedade. Para tal missão, ela vai contar com a ajuda do príncipe Jayant, irmão mais novo do marajá local, e que a princípio não se agrada em nada da tarefa atribuída por sua mãe, Laxmi, antiga rainha local. 


Essa proximidade ajuda a ambos a verem a realidade de onde vivem por uma perspectiva diferente. Enquanto Eliza coloca uma lente de aumento sobre a pobreza que circunda o palácio, o príncipe a guia de forma que ela entenda o quanto isso em parte é reflexo da política do imperialismo do império britânico na Índia. Essa relação passa então a evoluir, e ao se descobrirem tão em sintonia, os dois passam a desenvolver uma paixão que irá desafiar todos os costumes, sendo impensável a relação entre uma viúva inglesa e um nobre indiano. 

Somente por ser uma viúva, Eliza já tem que enfrentar muito preconceito, pois como sabemos na cultura indiana tradicional, é considerada uma falha da mulher se ela sobreviver ao marido, pois se acreditava que era de sua responsabilidade cuidar para que a morte dele não acontecesse. No passado, antes do domínio inglês, essas mulheres eram queimadas vivas no velório dos esposos, e ainda hoje a maioria vive à margem da sociedade, sendo consideradas como mau agouro, tendo que se abrigar em locais conhecidos como Casas de Viúvas para não morrer de fome nas ruas. 

Em 1930, ano em que Eliza retorna a Índia, a cultura local ainda era muito forte neste sentido, com algumas diferenças do que vemos atualmente. Era, por exemplo, muito mais comum que se queimassem as viúvas, apesar da proibição. No entanto, isso não impede, que pessoas no palácio, que já não a viam com bons olhos por ser inglesa, após descobrirem sua viuvez, façam de tudo para se ver livre dela, mas com o respaldo da cultura patriarcal local. 


Talvez por ter sido educado na Inglaterra, o príncipe Jayant não a vê como uma ameaça devido a este aspecto de sua vida, mas ainda assim respeita muito sua cultura hindu. Em certo momento é ressaltado que apesar de a visão ocidental acreditar que o hinduísmo seja apenas uma religião politeísta pagã, na verdade, se trata de um estilo de vida, e apesar de não desejar, o nobre se sujeita a ele em diversos momentos. 

Apesar de retratar bem este aspecto de sua personalidade, a autora não explorou em profundidade nenhum dos protagonistas. Eu não consegui sentir a paixão de Eliza pela fotografia, e de Jayant por nada, uma vez que ele apenas existe, situação que entendo devido a seu papel na nobreza, mas alguma coisa nele deveria ter sido apresentada para que a gente torcesse por ele como mocinho da história. 

Essa falta de profundidade não acontece apenas com os protagonistas, mas com todos os personagens secundários. Sejam eles inseridos para causar um tumulto político, intrigas no palácio, ou formar um triângulo amoroso, nenhum deles conseguiu trazer substância a história, mesmo tendo potencial para tal. 

O livro explora bastante a cultura e a paisagem locais, e em diversos momentos eu achei que a autora focou demais em explorar os costumes indianos e ingleses, e a magia do romance entre os dois foi esquecida. Apesar de ser uma história com tudo para ser arrebatadora, como foi para mim O Perfume da Folha de Chá, em Antes da Tempestade faltou a magia que vi no primeiro romance publicado da autora no Brasil. 


Isso não quer dizer que o livro seja ruim, Dinah Jefferies, conseguiu explorar bem a história como romance de costumes, mas faltou o equilíbrio entre romantismo e precisão histórica que encontrei no primeiro, e que era minha expectativa. Eu esperava um romance muito mais intenso, mas quando ele ocorreu, tudo se tornou previsível, e eu cheguei até a torcer contra. 

A alta expectativa acabou levando a decepção ou o livro não foi bom para mim mesmo? Ainda não cheguei a uma conclusão, pode ser que as duas coisas ou nenhuma delas, mas a verdade é que ainda estou ansiosa para que a Editora Paralela publique um terceiro livro da escritora para que eu tire essa dúvida. 

FICHA TÉCNICA

Título: Antes da Tempestade
Autora: Dinah Jefferies
Para ler O perfume da folha de chá CLIQUE AQUI
Onde Comprar: Amazon

 

Luciane Leite
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Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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10 comentários:

  1. Olá Luciane, tudo bem??

    Que resenha maravilhosa!!! Eu adorei a premissa da história, quando se tem um romance, mas que fala sobre a cultura da ambientação, meus olhos se enchem de curiosidade. Eu já gostei da capa... depois de saber um pouco mais da história, já quero rs. Xero!

    https://minhasescriturasdih.blogspot.com.br/

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  2. Adorei a resenha e achei essa capa linda!! Ainda não conhecia, mas fiquei com vontade de ler. Bjs

    www.mayaravieira.com.br

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  3. Oi Luciane,
    Estou para comprar esse livro para minha mãe. Só estou esperando ele ficar em promoção, rs.
    Ela adora a autora!
    Beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com.br

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  4. Oi, Luciane!
    Menina, eu já vi que esses romances da Dinah são bem diferentes do que estou acostumada. Adicionei na listinha para ler algum dia, quem sabe..
    Pena que não foi tããão bom quanto o outro livro da autora, mas pelo menos foi uma boa leitura.
    Beijos
    Balaio de Babados

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  5. Oii tudo bem?

    Eu amei a capa do livro que é uma coisa que chama muita atenção para mim. Adorei a resenha do livro porém eu não fiquei tão encantada assim acho que a historia não me prendeu, não que não seja interesante mas sim porque não gosto muito do gênero do livro.

    www.descrevendonuvens.com

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  6. Olá Luciane, se eu visse esse livro numa livraria sem ler a sinopse nem nada, a capa me faria comprar, mas sua resenha me deixou com um pé atrás, mas darei uma chance a ela, quem sabe eu mude de ideia!
    https://estanteclassica.blogspot.com/

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  7. Oi, Luciane!
    Uma pena que a autora tenha explorado muito o ambiente e as culturas e pouco os personagens em si. É chato quando não sentimos aquela conexão com os personagens, as vezes nem conseguimos nos envolver direito com a história por conta disso, mas fico feliz em saber que apesar desses detalhes, a obra é boa!

    xx Carol
    http://caverna-literaria.blogspot.com.br/

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  8. Oi! Amo as capas que a editora cria para essa autora. Uma pena não ter aprofundado o romance mas acredito que o foco da autora tenha sido a cultura. Bjos ❤
    Click Literário

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  9. Oi Luciane, tudo bem!
    Não conhecia o livro, mas fiquei curiosa para conhecer melhor a trama e também a maneira como a autora retratou tanto á cultura inglesa, quanto á indiana. Uma pena o livro não ter sido tudo que você esperava, espero que o próximo seja melhor.
    Feliz 2018!!


    *bye*
    Marla
    https://loucaporromances.blogspot.com.br/

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  10. Oi Luciane! Eu sou a diferentona rs. Fiquei ainda mais empolgada em conhecer a história sabendo que o foco é maior na cultura e não no romance.
    Não conhecia a autora, tão pouco suas obras. Me pareceu ser algo inteligente.
    Beijos
    http://pausaparapitacos.blogspot.com.br/

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