Um Reino de Sonhos [Resenha Literária]


Um Reino de Sonhos, primeiro volume da Dinastia Westmoreland de Judith McNaught, publicado este ano pelo selo Bertrand Brasil do Grupo Editorial Record, é sem dúvida alguma um dos romances de época mais diferentes que li até o momento. Jennifer Merrick, única filha biológica de Lorde Merrick, líder de um importante clã escocês, é enviada a uma abadia com apenas 15 anos devido a sua personalidade, digamos, tempestuosa, mas também com a colaboração nada bem-vinda de um de seus meio-irmãos, Alexander, que envenenou seu povo contra ela. 

Um dia a protagonista é informada de que precisa se casar com um importante líder de clã em troca de ajuda para retaliar uma derrota sofrida, onde Alexander morreu. Apesar de parecer um pedido, a protagonista sabe que seria uma vergonha recusar o pedido e acaba aceitando. 

Querendo um espaço para pensar e buscando seu refúgio favorito nas terras da abadia, ela acaba subindo até o topo de sua colina favorita com Brenna, sua meia-irmã que também estava no convento, e acaba sendo raptada e levada ao acampamento do Conde de Claymore (posteriormente ele recebe o título de duque), Royce Westmoreland, ou como é mais conhecido, o Lobo Negro, o maior inimigo de seu pai. Apesar de o sequestro não ter sido planejado, e sim uma questão de oportunidade, as duas acabam como reféns dos ingleses com o objetivo de serem trocadas em troca da rendição de Lorde Merrick e desta forma evitar mais derramamento de sangue. 


A história tinha tudo para ser clichê desde o primeiro o momento, sendo os dois de países inimigos em meio a guerra pelo trono inglês e a moça sendo sequestrada pelo mocinho, mas Judith McNaught apesar de ter usado alguns clichês, como moça jovem, impetuosa e corajosa, maus entendidos que iriam separar o casal, entre outros, me surpreendeu por não usar do clichê do amor instantâneo. Inicialmente o que acontece entre os dois é uma atração sexual muito forte e os sentimentos irão surgir após muita água rolar debaixo dessa ponte.

Apesar de não ser o ser mais terrível da face da terra, Royce Westmoreland é sim um dos guerreiros mais competentes e de maior confiança do Rei Henrique VI e não é a toa, pois não tem piedade dos seus inimigos, e isso fica bem claro no tratamento que ele dá as irmãs Merrick. 

O encontro inicial dos dois deixa muito claro que apesar de ser um cavaleiro de honra, a lealdade de Westmoreland é unicamente com o trono inglês, e ele vai agir sempre em interesse da Inglaterra. Sua brutalidade é expressa na primeira cena dos dois juntos, mas vale lembrar que a história se passa no século XV, e portanto, as mulheres não tinham muito ou quase nenhum direito. Mesmo Jenny tendo herdado o título de condessa e muito dinheiro da mãe, ela ainda é uma mulher e sua atitude quando conhece Royce é imperdoável as vistas do povo da época. 


Tendo dito isso, quero deixar bem claro que apesar de não aprovar as atitudes que ele toma com relação a ela e a irmã, especialmente as que envolvem violência tanto física quanto psicológica, no meu entendimento a autora quis explorar de forma um pouco mais realista a sociedade da época, onde uma mulher, por mais que tivesse o status da protagonista, não poderia fazer e dizer o que quisesse e sair impune. Algumas atitudes de Jenny deveriam receber retaliação de Royce se este quisesse manter o respeito de seus homens, seu rei e da sociedade, e foi isso que ele fez.

Acabei me surpreendendo com os rumos que McNaught deu para o casal. No caso dela ter sido raptada, por exemplo, temos uma famosa série de livros e série onde a família tida como boazinha na guerra, mantém um refém desde criança, e por mais que o tratassem bem, a sua posição como refém nunca era esquecida, e eles não deixaram de ser considerados bons por isso. Assim como acontece em Um Reino de Sonhos, devemos lembrar que a história se passa na era medieval, e os parâmetros para considerar alguém bom ou mau, são bem diferentes. 

Se a história fosse contemporânea, eu iria dizer que é um típico caso de síndrome de Estocolmo, mas tenho que levar em consideração que em 1497, o jogo de poder entre as partes envolvia o casamento, e nenhum dos dois, ele na posição de nobre inglês e ela de nobre escocesa, poderiam dizer não aos seus respectivos soberanos. Apesar de ser bem diferente do que era esperado de Jenny, clichê comum em romances de época onde as mocinhas geralmente são a frente do seu tempo, ela tem um senso de honra muito grande para com seu povo e isso acabou colocando ela em uma posição vulnerável diversas vezes.


No meu ver, o pai dela abusou muito mais do poder que exercia sobre Jenny, do que Royce. E ao contrário da revolta que ela tinha contra o Lobo, ela acreditava que o pai fazia tudo por amor a ela e ao seu povo, e agia de forma a ser mais compassiva com ele, provando que ela mantinha certa ingenuidade. Claro que essa atitude do pai, acabou agindo em benefício de Royce.

Um reino de sonhos é um ótimo exemplo de romance de época que sai da zona de conforto e explora de forma mais realista o papel de cada um na sociedade, mesmo causando um estranhamento no leitor do início ao fim. As cenas sensuais foram muito bem construídas, ainda que com inúmeras controvérsias envolvidas (que agonia não poder falar por causa dos spoilers), que são muitas, e apesar de improvável no começo da leitura, o casal me passou credibilidade. 

Sobre a autora. Foi minha primeira experiência com a Judith McNaught e posso dizer que foi bastante positiva, a leitura é fluida e o leitor percebe que ela se deu ao trabalho de pesquisar o pouco de contexto histórico que ela inseriu na história, o que me leva a dois pontos negativos...


O livro tem quase 400 páginas, levando em consideração a diagramação apertada, é muita história, e poucas informações sobre a Inglaterra e a Escócia da época, então acho que o livro poderia ter sido enxuto em diversos momentos. O outro ponto negativo é que a narrativa é escrita em terceira pessoa, e eu achei muito estranho não ter transição entre o foco do narrador. De um parágrafo para o outro o narrador já estava focando em outro personagem. Não me atrapalhou no entendimento da trama, mas acho que as transições poderiam ter sido feitas de forma mais cuidadosa.

É um livro que gostei bastante, e raramente gosto de heroínas tão jovens e mocinhos tão violentos, mas achei impossível não ser cativada pelo romance criado por Judith McNaught.

FICHA TÉCNICA

Título: Um reino de sonhos - Dinastia Westmoreland # 1
Autora: Judith McNaught
Nota: 4/5
Onde Comprar: Amazon

 

Luciane Leite
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Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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11 comentários:

  1. Que história interessante, fiquei apaixonada pela capa. Ainda não conhecia! Mas, já anotei a dica!


    www.kailagarcia.com

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  2. Não costumo ler histórias de época, mas eu gostei bastante desse enredo achei ele bastante interessante e eu fiquei curiosa pra saber como ela termina sim. Amei sua resenha.
    Mil Beijos!
    http://pensamentosdeumageminiana.blogspot.com.br/2018/05/overdose-pantufas.html

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  3. Oie
    Eu adoro romances de época e tenho curiosidade em ler algo da autora. De inicio sua resenha estava me deixando curiosa, mas suas ressalvas meio que me fizeram perder o interesse pela obra. Não curto muito este enredo com agressão e tal, gosto mais das histórias que focam no romance em si e na época. E claro o pano de fundo Escócia eu adoro.

    Beijinhos
    https://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br/

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  4. Oiii Mi

    Só por fugir do insta love esse livro já ganhou pontos comigo... Tem coisas bem clichês na história que já acho muito típico como o lance da mocinha sequestrada, países inimigos. Além disso a narrativa em terceira pessoa quase nunca me empolga, então dessa vez acho que essa dica não será pra mim. A capa eu gostei muito, achei as cores tão suaves...

    Beijos

    www.derepentenoultimolivro.com

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  5. Oi Mi!
    Eu não li nada do gênero, então acho que começar por esse talvez não seja interessante, embora pareça interessante sem duvidas. Fiquei mega curioso para conhecer essa relação do pai dela e com esse poder que ele abusa. A veracidade da obra pelo que você falou me parece muito promissora. No futuro, é uma possibilidade.

    Abraços
    David
    http://territoriogeeknerd.blogspot.com.br/

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  6. Oi, Mi!
    Menina, pela tua resenha, já vi que esse romance de época é diferente do que estou acostumada. Só esse bando de narração aí que me deixou com um pé atrás.
    Beijos
    Balaio de Babados

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  7. Oi, Mi! Tudo bem? Infelizmente não gosto e acho o gênero romance histórico/de época bem saturado. Mas tem muita gente que curte, né? Gostei da capa.

    Abraço

    http://tonylucasblog.blogspot.com.br/

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  8. Oi, Mi lindona

    Não tem espacinho para mudar o foco? Que isso produção? Meu exemplar chegou e nem consegui ler ainda, que judiação! Hahahah
    Eu nunca li um livro com essa pegada mais medieval, mas acho que vou absorver bem as diferenças. Um pouco de frescor cai bem e estou especialmente curiosa a respeito do protgainista masculino e suas atitudes... espero gostar!

    Beijos
    - Tami
    https://www.meuepilogo.com

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  9. Oi, Mi! Tudo bom?
    Eu tive que abandonar esse livro porque as atitudes do cara estavam demais pra minha paciência. Acho que tem como romance histórico/de época ambientar os costumes e comportamentos de acordo com o período que a história se passa sem tornar seus personagens masculinos uns completos babacas do tipo que dá vontade de enfiar umas porradas na fuça deles (TIPO EU COM ESSE LIVRO GRRRAJKSFBASOBGOA)
    Um exemplo disso é Outlander; o Jamie até age de maneira errônea em alguns momentos, coisa de eu ter tido vontade de quebrar a cara dele na porrada, mas, dentro do contexto e por a autora ter conduzido de maneira mais sutil e menos problemática, não foi absurdo de entender. Até porque a Claire bate de frente com ele da melhor maneira possível, coisa que a mocinha aqui não fez.
    Que bom que tu conseguiu aproveitar melhor a leitura. Queria que a autora tivesse escolhido uns pontos menos absurdos pra trabalhar com o casal, mas pra mim não rolou mesmo :/

    Beijos,
    Denise Flaibam.
    www.queriaestarlendo.com.br

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  10. Oi Mi,

    Eu adoro romances de época, mas confesso que sou apaixonada por aqueles bem românticos com muito açúcar.
    Nunca li um que fosse mais "real" em relação a essas questões de disputa por poder. Achei bem interessante essa premissa de trazer mais realidade.
    Talvez eu ficaria incomodada com os mesmos pontos que salientou, especialmente sobre o livro poder ser mais enxuto (quando isso acontece me parece que o autor ficou prolongando a história para preencher páginas), mas estou disposta a conhecer novos autores, então vou deixar a dica anotada.

    Beijos
    http://espiraldelivros.blogspot.com/

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