A assombração da Casa da Colina [Resenha Literária]

O medo, [...], é a renúncia da lógica, a renúncia voluntária de padrões sensatos. Ou cedemos a ele ou lutamos contra, mas não nos é possível encontrar um meio-termo. pg. 152
Um dos lançamentos mais aguardados do ano da Editora Suma, A assombração da Casa da Colina (The haunting of Hill House, 1959), da autora estadunidense Shirley Jackson, chega em edição lindíssima, capa dura, seguindo o mesmo trabalho editorial executado na obra anterior dela, Sempre Vivemos no Castelo, que já tem resenha aqui no blog. Mas diferente da obra anterior, esta lida não apenas com o psicológico das pessoas, mas também com a relação delas com o sobrenatural. 

Há muito tempo que o Dr. John Montague, especialista em filosofia e antropologia, se dedica a análise de manifestações sobrenaturais. Sua atual pesquisa gira em torno de procurar e conhecer os efeitos de uma casa assombrada sobre transtornos psíquicos. Para chegar a seu objetivo, ele acredita ter encontrado finalmente a casa perfeita, a Casa da Colina. Para realizar tal tarefa, ele busca assistentes e finalmente consegue o retorno de duas moças. 

Eleanor Vance, que passara praticamente toda sua vida adulta, onze anos mais precisamente, cuidando da mãe inválida. Por fim, a mãe faleceu e Eleanor se vê sem emprego e morando de favor na casa de sua única irmã mais velha, a quem odeia, quando recebe o convite do Dr. Montague para passar uma temporada na Casa da Colina. O convite foi feito devido a uma experiência em sua adolescência, quando após um mês da morte de seu pai, quando ela tinha doze anos de idade, por três dias consecutivos pedras caíram sobre sua casa sem motivo e sem origem comprovada, e só cessaram de cair quando as meninas foram retiradas do lugar. 

A outra resposta veio de Theodora, jovem bem mais impetuosa, completamente o oposto de Eleanor. O convite a ela foi feito devido a uma capacidade de identificar cartas com os olhos e ouvidos vendados. A jovem vai se mostrar rapidamente como sendo bastante egocêntrica, querendo a atenção não apenas do Dr. Montague, Eleanor, mas especialmente a de Luke. 

Luke Sanderson, sobrinho da atual dona da Casa da Colina e herdeiro da propriedade, é um rapaz, para dizer o mínimo, problemático. Sem muito propósito na vida, a presença de Luke é imposta ao Dr. Montague como condição para que o imóvel fosse alugado, por esse motivo, digamos que apenas está ali. 

Para mim, no entanto, a pessoa mais estranha é a Sra. Dudley, responsável por manter a casa organizada e pelas refeições, junto com seu marido, o Sr. Dudley. A cozinheira tem umas falas muito mecânicas e a qualquer momento eu fiquei esperando que fosse revelado que ela na verdade não estava viva. Honestamente, ela é uma das personagens que estou mais curiosa para ver na série da Netflix. 

A história toda da casa é bem misteriosa. Construída por Hugh Crain há mais de 80 anos, o lugar tem todos os ângulos errados e é totalmente fora dos padrões, até mesmo os degraus das escadas são desnivelados. Mas não é apenas a estrutura da casa que fez sua fama, sua história é repleta de escândalos. Após o falecimento da primeira esposa, que morreu na carruagem a caminho da casa, para quem Crain fez a construção, ele se casou mais duas vezes, a segunda esposa faleceu numa queda na casa e a terceira, ficou doente durante uma viagem do casal a Europa. 


Somente após o falecimento da terceira esposa é que ele finalmente decidiu fechar a casa, permanecer na Europa, e enviar as filhas para serem criadas por uma prima da mãe. Após o falecimento de Crain, ficou decidido que a Casa da Colina deveria passar a ser um bem de sua filha mais velha, uma vez que a mais nova já estava casada e estabelecida. E mais uma vez uma tragédia se abate sobre o lugar. 

A irmã mais velha faleceu de pneumonia alguns anos depois e tendo apenas a acompanhante como companhia, optou por deixar o imóvel para esta, e não para a irmã mais nova, gerando anos de brigas e processos judiciais, quando finalmente foi definido que o lugar ficaria mesmo com a funcionária, que acabou atormentada pelas acusações da irmã e da população do povoado, e finalmente acabou tirando sua própria vida dentro da casa. 

Os Sanderson, antepassados de Luke, eram primos dessa herdeira, e são quem administram o imóvel até o momento em que o Dr. Montague decide alugá-la. A família, no entanto, nunca foi capaz de residir no local, e foi justamente essa incapacidade de as pessoas permanecerem lá por muito tempo que acabou chamando a atenção do estudioso, que ouviu falar da Casa da Colina de um antigo locatário que deu qualquer justificativa para ter ido embora muito antes do prazo final do aluguel. 

Apesar de céticos no começo, o quarteto de hóspedes aos poucos começa a notar que a estranheza da casa vai muito além de suas formas desorganizadas, mas quem mais sofre é Eleanor. Ela é a mais assombrada, apesar de não notar muito no início, mas com certeza, é quem tem maior sensibilidade ao local. Em alguns momentos ela tem pensamentos psicopatas que me fazem pensar sobre seu passado. 


Todavia, mesmo com personagens com grande potencial para viverem situações tenebrosas na casa, pois era isso que eu estava esperando de um livro que tem assombração no título e de toda a parte introdutória nos direcionar a este caminho, não foi isso que a obra entregou para mim. Eu fiquei esperando levar pelo menos um susto até o final, e isso não aconteceu, e tendo em vista minhas expectativas, isso foi bastante decepcionante.

Existem trechos belíssimos no começo do livro, escritos de forma lindíssima, como que tiradas de um sonho, especialmente os que envolvem Eleonor. Mas então, mais para metade da leitura, os fluxos de consciência passaram a não fazer mais sentido para mim, e eu só fiquei confusa. Por já ter lido Sempre vivemos no castelo, eu já esperava uma escrita fora dos padrões, mas em algum momento, A assombração da Casa da Colina, passou do limite que eu conseguisse compreender. 

É um livro relativamente curto com aproximadamente 235 páginas, mas devemos levar em consideração a diagramação apertada que teria um número diferente em outra edição. No entanto, mesmo assim, eu tentei ler com paciência, sem me afobar, para poder aproveitar e para quando chegasse a parte sobrenatural pesada, eu estivesse preparada. Mas o sobrenatural não foi explorado como eu esperava e por esse motivo, acabei não gostando da leitura. 

Isso me desanima de ler outros títulos da autora? Óbvio que não, eu amei Sempre vivemos no castelo, e quero ler outras obras dela, com certeza, mas A assombração da casa da colina não entrou para a lista dos favoritos do gênero de terror. 


De qualquer forma, foi bom ter lido o livro antes da estreia da adaptação para série pela Netflix, com previsão para ainda este ano. O livro também conta com duas adaptações para filmes, A Casa Maldita (1963) e A Casa Amaldiçoada (1999).

FICHA TÉCNICA

Título: A assombração da Casa da Colina
Autora: Shirley Jackson
Nota: 2,5/5
Onde Comprar: Amazon

 

Luciane Leite
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Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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6 comentários:

  1. Oi Luciane! Sempre Vivemos e deixou frustrada com o desfecho e eu fiquei com receio de ler esse depois disso. Lendo sua resenha decidi ver apenas a adaptação, pois eu esperava que o livro fosse de assombração. Bjos!! Cida
    Moonlight Books

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  2. Oi, Luciane!
    Menina, mais um livro que a Netflix vai adaptar. Mas gentis!!!
    Nunca li nada da autora, mas vejo que ela é bastante elogiada. E que bom que, apesar da parte sobrenatural não ter sido muito explorada, a leitura foi boa pra você assim mesmo.
    Beijos
    Balaio de Babados

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  3. Oi, Luciane

    Que pena que o sobrenatural não foi tão bem explorado na sua opinião e que você não levou nenhum susto. Eu geralmente não espero me assustar ao ler livros do gênero, se eu sentir um incômodo já está valendo. Mesmo com suas pequenas ressalvas ainda quero ler, mas primeiro o preço precisa baixar.

    Beijos
    - Tami
    https://www.meuepilogo.com

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  4. Oi Luciane!
    Ainda não li esses dois livros da Shirley mas eles estão entre os meus maiores interesses atualmente. Vou começar por Sempre Vivemos no Castelo, mas independente do que eu achar, já decidi que vou ler A Assombração da Casa da Colina também.
    Não sabia que ia ter série! Isso me deixa ainda mais animada a ler o livro!
    Beijos!

    Mais Uma Página

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  5. Oi, Luciane!
    Eu não consigo ler livros de terror, pois morro de medo. Então, saber que esse livro não te entregou sustos e nem o sobrenatural que você estava esperando, me faz ter vontade de ler hahaha Dessa forma, sei que pode ser uma leitura que não vai me deixar acordada durante uma semana!
    Beijinhos,

    Galáxia dos Desejos

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