A Incendiária [Resenha Literária]


Como já disse anteriormente, não sou uma grande conhecedora da obra de Stephen King, mas a cada livro que leio, pelos menos mais três vão para a lista de próximas leituras. Com A Incendiária não foi diferente, e inclusive se destacou para mim por ser o terceiro favoritado do ano. A história se passa nos EUA dos anos 1970 e conta a história da família McGee, apesar de em certo ponto, Charlie, a filha, assumir o papel de protagonista solo da história. 

A criança é fruto do relacionamento entre Andy e Vicky, dois jovens que em algum ponto da vida universitária precisavam de dinheiro e aceitaram participar de um experimento científico de uma agência governamental, e acabaram desenvolvendo poderes psíquicos. Mal eles sabiam que o desenvolvimento dessas habilidades iria custar a eles muito mais que os $ 200,00 recebidos por se voluntariarem nos testes de um composto químico chamado de Lote Seis. 

A agência governamental por trás de tudo é chamada de “a Oficina”, e tem como principal foco experimentos científicos com o objetivo principal de desenvolver armas que auxiliem na segurança nacional. Devemos lembrar que no período em que a história se passa, o mundo é assombrado pela Guerra Fria, e um medo muito comum e propagado pelo governo dos EUA, era de que o país fosse atacado a qualquer momento pela União Soviética e seus aliados. 

Inicialmente o Lote Seis, liderado pelo Dr. Wanless foi considerado um fracasso, uma vez que muitos dos voluntários foram levados a loucura, um inclusive durante a aplicação da substância, outros se suicidaram, e no final, sobraram apenas Vicky, com uma habilidade pequena relacionada a telecinese, Andy, com uma habilidade desconhecida de influenciar as pessoas mentalmente, e um outro terceiro voluntário, que aparentemente não desenvolveu nenhuma habilidade. 


No entanto, todos são monitorados pela Oficina, e quando Charlie nasce, logo se percebe que a criança não é normal. Quando ela chora por estar com fome ou pela fralda estar molhada, a temperatura do ambiente sobe e coisas pegam fogo. Charlie tem como habilidade mais evidente a pirocinese, ou seja, é capaz de criar fogo com a mente. Aos poucos, os pais conseguem treinar a menina para associar o fogo com a Coisa Ruim, algo a ser evitado a qualquer custo. 

Tudo parece tranquilo na vida do casal por alguns anos, até que a organização capta uma conversa entre Andy e seu amigo de faculdade, Quincey, que foi quem o indicou para o teste. Como a menina está na casa de amigos, os agentes desconfiam que eles estão tentando sumir com ela e decidem agir, com o objetivo de finalmente utiliza-la como arma militar. A mãe acaba confessando onde a filha está e sendo morta. Somente então que o poder de impulsionar as mentes de Andy é revelado em sua totalidade para a Oficina, quando ele precisa resgatar a filha das mãos dos agentes. 

A fuga dos dois é repleta de ação, mas principalmente de medo. Medo de serem capturados, mas principalmente do medo que vem das consequências de terem que utilizar tanto seus poderes. Andy se mostrou um paizão durante toda a fuga dos dois, e mesmo durante os momentos de maior dificuldade, com seus momentos de dúvida e fraqueza, como todo ser humano, enquanto estava consciente dos seus atos não permitiu que esses sentimentos se tornassem maiores que o amor pela filha. 


Esse amor entre os dois foi o ponto mais forte do livro para mim, pois a mãe entregou a filha após uma sessão de tortura que não me pareceu das mais extremas, enquanto ele permaneceu forte em seu objetivo de proteger a menina. Ele mesmo aponta a injustiça de os dois, mas principalmente Charlie, estarem passando por tanta dificuldade, como resultado de em algum momento, ele e a esposa (na época uma desconhecida para ele) terem precisado de dinheiro para sobreviver. 

Andy e a filha me proporcionaram momentos emocionantes, e depois quando descobri que Charlie foi inspirada em Naomi, filha do autor, fiquei ainda mais tocada, porque a incendiária é uma das crianças mais fortes sobre as quais já li, mesmo sendo destacado a fragilidade dela, totalmente compatível com sua idade. 

A história se passa em dois momentos distintos, primeiro a fuga dos dois e posteriormente a captura, e depois o tempo em que os dois, após serem sequestrados, são levados às instalações da Oficina. É nessas instalações que o autor nos apresenta as mentes mais deturpadas da história, o capitão Hollister, que comanda toda a operação, os médicos Patrick Hockstetter e Herman Pynchot, e finalmente, e mais importante, John Rainbird, um assassino contrato pela organização responsável por boa parte da reviravolta da trama. 


Vou focar mais em Rainbird, porque ao contrário dos outros três personagens, a motivação dele se tornou muito mais pessoal durante o desenvolvimento do enredo. Seu principal objetivo é matar Charlie quando os experimentos chegarem ao fim, não porque teme o que ela pode fazer, mesmo sabendo do poder de destruição do seu poder, mas sim, pelo prazer de matar, pois acreditar que a morte dela vai ser diferente de tantas mortes infringidas por ele no passado. 

Vale lembrar que nesse ponto da história Charlie tem apenas 8 anos de idade, e que os sentimentos deste personagem, tão claramente sexuais, nos mostram uma faceta do ser humano que não é nada agradável, a pedofilia. Rainbird, para se faz passar por algo que não é para convence-la a participar dos testes, e em diversos momentos me senti enojada pelos sentimentos direcionados a criança. 

O conteúdo extra desta edição é um texto escrito por Grady Henderson, em que ele aponta algumas analogias utilizadas por King, e considera que o momento de encontro com Rainbird é que transforma “as coisas de implícitas para explícitas”, e o próprio autor afirma que a relação dos dois é sexual. Desde o começo é falado o quanto Vicky é bonita e como Charlie se parece com ela, e quanto potencial tem de ser mais bonita que a mãe, mas aos poucos. Segundo Henderson, a pirocinese é claramente uma analogia a sexualidade feminina, principalmente, quando a primeira é nomeada pelo pai como a Coisa Ruim

Outro ponto que me marcou bastante na leitura, e que também é ressaltado no texto extra, é a facilidade com que o governo, na forma de suas forças militares, justifica suas ações, frequentemente envolvendo a vida de pessoas inocentes que acabam no meio do fogo cruzado. Tudo é justificado em defesa nacional, até mesmo a morte de seres humanos para desenvolver armas, e o assassinato de uma criança. Prato cheio para leitores que gostam de teorias da conspiração. 

Eu tive uma experiência bastante pessoal com esse livro. Primeiro foi com relação ao número de páginas. Eu não tenho o hábito de olhar em que página estou, mas quando a leitura não é tão fácil, eu procuro estipular o número de páginas a serem lidas, e foi esse o caso. Pois bem, o que dizer quando o mesmo número de páginas lidas, ou que avancei ou que faltam para chegar ao objetivo, fica se repetindo? Foi surreal e esse número está na minha cabeça de forma que fico imaginando que tem algum significado que eu ainda não descobri. 


Outras coincidências estão relacionadas a série The Alienist (CLIQUE AQUI) da Netflix, que comecei a ver na última semana da leitura deste livro. A abordagem de transtornos como a pedofilia e a questão de garotos que gostam de usar roupas femininas, sem necessariamente serem transgêneros. Como são temas não tão frequentes juntos no tipo de livro que leio ou séries que assisto, me chamaram bastante atenção. Tiveram outras coincidências, mas vou me ater a essas. 

Foi uma leitura bem gostosa de se fazer, apesar da falta de fluidez em alguns momentos, mas o livro como um todo merece uma leitura mais atenta, então não me incomodei, especialmente quando cheguei ao final e vi que precisava deste cuidado. Mais uma vez finalizo uma leitura de King querendo outras, desta vez além de querer completar com as edições já lançadas da coleção Biblioteca King, porque o A Incendiária é um dos livros mais bonitos da minha estante, com capa dura, diagramação primorosa, revisão ótima, e conteúdo extra excelente, também quero outros títulos escritos no mesmo período e com abordagens similares. 

A Incendiária foi escrito porque Stephen King ficou fascinado com a ideia de uma personagem como Carrie poder passar seus poderes para uma filha. Ele chegou a abandonar a escrita por um tempo, mas retomou, e ainda bem, pois amei conhecer os McGee, e com certeza gosto ainda mais de Carrie, A Estranha, meu primeiro King lido na vida, depois de saber que dela veio a inspiração para este livro.

FICHA TÉCNICA

Título: A Incendiária
Autor: Stephen King
Nota: 5/5
Onde Comprar: Amazon


Luciane Leite
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Sobre O Que Tem Na Nossa Estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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11 comentários:

  1. Olá Luciane!
    Lindas fotos e excelente resenha. Estou só aguardando uma promoção para comprar o meu e reler. Li a muito tempo em uma edição antiga que me emprestaram e essa nova está linda demais!
    Bjs

    EntreLinhas Fantásticas

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    1. Oi, Thalita.

      Obrigada.
      Essa edição ta maravilhosa mesmo.

      Beijos!

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  2. Eu não sei se teria coragem de ler esse livro, só de ler sua resenha me parece que a história iria me impactar de mais.. Mas achei a edição linda de mais. Adorei as fotos e a resenha :)

    www.vivendosentimentos.com.br

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Oi, Monique.

      E uma história impactante mesmo. Mas o King merece uma chance sempre.

      Beijos!

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  3. Hey!
    Ainda não li nada do King, mas sou fascinada pelas histórias que ele cria.
    Assim que eu puder quero ler algo dele. Meu irmão tem It em casa e também O Iluminado. Estou querendo me aventurar mais nesse gênero ultimamente!

    www.ooutroladodaraposa.com.br

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    1. Olá!

      A grande vantagem do King é que ele escreve diversos gebeeos, muitas vezes os mesclando.
      A incendiária e um misto de ficção científica com suspense. Eu ainda não li nenhum romance de terror pesado dele, apenas contos, li mais suspense. Mas pretendo ler tudo.

      Beijos!

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  4. super bacana conhecer mais desse livro! li algumas poucas coisas do stephen king na adolescência e gostei bastante, queria ler ainda mais

    www.tofucolorido.com.br
    www.facebook.com/blogtofucolorido

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    1. Oi, Livia.
      Eu comecei a pouco tempo e estou amando cada vez mais.

      Beijos!

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  5. Oi Luciane!
    Eu adoro King, mas não me interessei muito por A Incendiaria logo que ele foi lançado. Mas desde então tenho ouvido bons comentários sobre ele e coloquei na minha listinha de obras do autor para conferir logo.
    Não sabia que a personagem tinha sido inspirada na filha do autor.
    Fiquei imaginando quais os cruzamentos com The Alienist (confesso que a série nao me fisgou muito).
    Beijos,
    Alem da Contracapa

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    1. Oi, Mariana.

      O cruzamento com The Alienist foi principalmente com relação aos meninos que gostam de se vestir de menina, sem necessariamente serem trans, pois na série fala muito disso, e no livro tem um personagem chave que também se veste de mulher.
      Tem relação com a pedofilia também.

      Beijos!

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