A mulher com olhos de fogo [Resenha Literária]

Dentro ou fora da prisão, você nunca vai conhecer uma pessoa como ela. Ela se recusa a receber visitas e não fala com ninguém. Geralmente ela nem toca na comida, e fica bem acordada até amanhecer.
Firdaus é uma mulher egípcia que sofreu violência de homens em todos os papéis de sua vida, como criança, como mulher, como esposa, prostituta e trabalhadora. O enredo revela Firdaus em diferentes relações com homens que não a vê como um ser humano, mas sim como um objeto. Ela os força de maneira diferentes a vê-la como pessoa e, nesse esforço, nada muda, mas expõe a hipocrisia e o domínio masculino em um sistema patriarcal que nega às mulheres a liberdade de escolha.
(...) apareceu uma mulher que levava consigo uma faca pequena, ou talvez uma navalha. Elas cortaram um pedaço de carne do meio das minhas pernas.”

Ela usa seu corpo para se rebelar contra o status quo ou a violência que lhe foi cometida por meio da prostituição, mas mesmo essa independência é temporária quando um homem se força a ser seu cafetão.

A protagonista simboliza as mulheres oprimidas sem liberdades reais cujas vidas são negadas e frustradas intelectualmente e fisicamente; onde não há respeito ou oportunidade na vida para buscar amor, independência ou carreira. Este livro examina a história de uma mulher que se tornou prostituta no Egito após a ocupação britânica pós-colonial, mostra como ela é oprimida por um sistema de classes que é uma consequência do imperialismo ocidental e como todas as mulheres são dúbias em aceitar formas de subserviência ou opressão em relação ao status social ou posição que é abusada pela violência ou dominação masculina. 


Incompreensível que uma história publicada em 1976 possa ser tão verdadeira em 201943 anos depois. Apesar dos esforços feitos por mulheres de todo o mundo – defendendo ações afirmativas, direitos iguais, praticamente implorando para homens nos enxergarem como iguais e não como objetos sexuais – nós ainda estamos passando pelas mesmas experiências e lutando as mesmas batalhas décadas depois. Isso nos faz questionar por quanto tempo isso será permitido, como gerações após gerações nascidas por mulheres podem ligar as mesmas mulheres?

Em certa ocasião ele me deu uma grande surra com seu sapato. Meu rosto e meu corpo ficaram inchados e cheios de contusões.
Muitas vezes, a literatura árabe mostra corrupção contra a agressão colonial; no entanto, este livro mostra a agressão não na objetificação das mulheres, mas nas relações sexuais entre os homens e a mulher, Firdaus, que não consegue escapar de sua posição de classe em uma sociedade rígida que não oferece liberdade. 

O romance começa com uma médica, querendo conversar com Firdaus, uma mulher na prisão, que vai ser enforcada. Inicialmente, ela se recusa a vê-la. O silêncio dela é tudo o que lhe dá controle sobre quem tem autoridade que a abusou e oprimiu. A médica de certa maneira faz parte de uma classe privilegiada que aceita um sistema em que os homens exploram as mulheres. A escolha da autora de escolher uma narradora feminina privilegiada remove a ideia de que o personagem é uma vítima, mas que o leitor é dúbio em seu silêncio também. 


Esta parece ser uma boa maneira de alcançar os leitores de países industrializados e pode motivar o leitor, independentemente do país ou status socioeconômico, a falar contra a violência e a opressão das mulheres com uma voz coletiva. As mulheres em todos os lugares devem reconhecer Firdaus como uma pessoa sem autoridade ou liberdade que está presa em uma sociedade social, econômica e política imperfeita que é patriarcal, mas que é simbólica em sua recusa em ser dominada por homens em espírito e mente. 
Ser uma prostituta de sucesso era melhor do que ser uma santa iludida. Todas as mulheres são vítimas de embuste. Os homens enganam as mulheres e as punem por terem sido enganadas, forçam-nas a se degradar e as punem por chegarem tão baixo, prendem-nas ao casamento e então as castigam por toda a vida com serviços humilhantes, insultos e surras.
O livro mostra uma mulher explorada por homens e como eles se recusam a ver a verdade de um sistema defeituoso e de relações de gênero, silenciando a mulher, matando-a no final. Ela chegou ao ponto de início porque, embora não tenha controle físico, autoridade, e sofra opressão de classe, ela pode controlar sua mente e a verdade de sua situação recusando-se a ceder ao sistema, quer isso implore que sua vida seja poupada, ficar em silêncio ou falar. Ela escolhe falar a verdade. Seu fim é trágico, mas é sua escolha, e a liberdade não existe mais fisicamente.

Esta é a história dessa grande mulher. Mas também é a história de uma mulher que você conhece. Uma mãe, uma irmã, uma amiga, uma vizinha. Firdaus encarna uma mulher falhada pela sociedade e depois morta por esta mesma sociedade, porque sua existência é uma lembrança constante de nosso fracasso. Como uma espinha no nariz, e olhando pra você toda vez que se olha no espelho, mostrando que não pode se esconder e nem pode encobrir.


É um livro curto com 160 páginas, que você pode ler em uma única vez, mas que tem milhares de camadas para percorrer. Saadawi permite que a protagonista narre sua própria história e através de sua narração, você pode sentir sua dor, mas você também enxerga sua força e determinação. Como do fundo do poço, ela foi capaz de encontrar força interior para viver de acordo com as próprias regras e deixou de ser uma vítima. Quando a morte bateu em sua porta, ela a enfrentou com suas próprias armas.

Uma leitura altamente recomendada tanto para mulheres quanto para homens. Não só te faz pensar, mas te deixa desconfortável e te desafia a reexaminar seus valores morais e princípios, deixando claro como nossa sociedade é claramente montada de forma preconceituosa contra as mulheres. 

O máximo de estrelas que posso oferecer por aqui são 5, mas este com certeza é um daqueles livros que valem todas as estrelas do mundo. Em uma edição perfeita, sem falhas e lindíssima, este livro se tornou um dos meus favoritos. E Firdaus... onde quer que você esteja, você é um exemplo para nós mulheres. 

FICHA TÉCNICA

Titulo: A mulher com olhos de fogo – o despertar feminista 
Autor: Nawal El Saadawi
Nota: 5/5
Onde Comprar:  Amazon

 

Natália Silva
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Sobre O que tem na nossa estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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6 comentários:

  1. Impossível ler essa resenha e não querer conhecer esse livro, ele parece ser espetacular. Já entrou para a minha lista!

    https://www.kailagarcia.com

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  2. Oii Natália

    Pelo visto é um livro intenso apesar de curto, achei a premissa toda fascinante e dura. Vou anotar pra conferir quando der.

    Beijos, Ivy

    www.derepentenoultimolivro.com

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  3. Olá, Natália.
    Eu pretendo ler esse livro porque tudo que imaginei que ele seria ao ler a sinopse foi confirmado lendo sua resenha. Só discordo em um ponto de você sobre nada ter mudado. Se formos comparar com alguns anos atrás a mulher conquistou muita coisa sim, mas ainda falta um caminho enorme para percorrer.

    Prefácio

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  4. Oie, Natália

    Tô chocada com a resenha e o livro. Nossa. Eu quero MUITO ler esse livro depois de tudo que você falou. São temas que ainda são tão atuais e que precisam tanto de visibilidade... Adorei a dica e a resenha.

    Beijos,
    Caverna Literária

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  5. Oi, Nat!
    Menina, eu achando que o livro era uma autobiografia ahhaahhahah Já quero conferir com certeza!!
    Incrível como obras de anos atrás ainda se fazem presentes na nossa realidade.
    Beijos
    Balaio de Babados

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  6. Oi Natália,

    Parece ser um livro muito marcante e impactante. Gosto muito de histórias assim, ainda mais com o assunto abordado em volta das mulheres.
    Dica anotada!
    Bjs e uma boa semana!
    Diário dos Livros
    Conheça o Instagram

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