Reinações de Narizinho [Resenha Literária]


Monteiro Lobato foi escritor, diretor, produtor, contista, ensaísta e tradutor, mas é mais conhecido popularmente por conta de seus livros infantis e nos últimos tempos também pela questão sobre o racismo. Há quem diga que Lobato era racista (e eu me incluo nessa), mas é inegável também que o escritor vivia num mundo bastante diferente do que é hoje, com costumes bem diferentes. O que antes parecia ser uma brincadeira, hoje já temos mais recursos para identificar como algo nada saudável.

E pensando nisso, em situar Monteiro Lobato no seu contexto histórico, que a Companhia das Letrinhas nos apresenta uma edição que contém um compilado de histórias o Sítio do Picapau Amarelo com uma introdução excelente que nos explica quem era o escritor e a cada momento necessário existe uma nota explicativa que ensina as crianças um pouco da sociedade da época. 


A edição nos lembra que a escravidão era um memória recente e por isso, por exemplo, Dona Benta era a sinhá, Tia Nastácia considerada Negra de Estimação. No entanto, outras questões interessantes aparecem na obra, como a Narizinho, uma personagem feminina impetuosa e inteligente, bem como Emília. De certa forma a cada intervenção do editor que aparece no livro é um chamado para as crianças refletirem sobre o tema. 

A obra apresenta 11 histórias: Narizinho Arrebitado, O sítio do Picapau amarelo, O marquês de rabicó, O casamento de Narizinho, Aventuras do Príncipe, O gato Félix, Cara de Coruja, O irmão do Pinóquio circo de cavalinhos, Pena de papagaio, O pó de pirlimpimpim, além de curiosidades e introdução, tudo com ilustrações de Lole e capa dura


Vamos acompanhar o surgimento de Emília que deixa de ser uma simples boneca da pano para ter voz e atitude, às vezes bem interesseira, já que é assim que Narizinho convence Emília a se casar com o Marquês de Rabicó. Temos também a chegada do Pedrinho, o Visconde de Sabugosa e tantos outros personagens, inclusive de contos de fadas. Em A cara de Coruja temos as princesas como Cinderela, Branca de Neve, se divertindo com Narizinho. E todo o universo criado por Monteiro Lobato é fantástico, as histórias com o príncipe peixe, noivo de Narizinho, nos mostra uma ambientação marinha encantadora. E o uso do pó de pirlimpimpim, em que a pessoa cheira e viaja para outros mundos, algo bem curioso, 

É evidente que Narizinho é grande protagonista das histórias, ela conduz boa parte das tramas, encara o casamento (ainda que de mentirinha) com certa naturalidade, ainda quer manter sua independência apesar de casada, e consegue lidar com Emília que é uma personagem complexa, simpática em alguns momentos arrogante, com frases racistas em tantos outros. E Tia Nastácia com sua enorme sabedoria popular também tem importância na obra.


Monteiro Lobato trabalha com o realismo fantástico e em alguns momentos suspeitamos de que tudo não passa da imaginação das crianças, mas ao embarcar na fantasia delas nos aventuramos por mundo desconhecidos e personagens inusitados. Todos interagem no sítio, a boneca, formiga, vespa, um sabugo de milho, qualquer um pode ter nos entregar diálogos imaginários. 

E é preciso também falar da linguagem. Em O irmão Pinóquio, descobrimos que Dona Benta fazia uma espécie de tradução do português de Portugal para o do Brasil para ajudar as crianças a entenderem as histórias. E os livros do Sítio do Picapau Amarelo possuem uma linguagem mais infantil, mas próximas dos infantojuvenis, além de vários termos do interior, que são explicados na edição.


Reinações de Narizinho é uma excelente oportunidade para conhecer as histórias de Monteiro Lobato, toda a polêmica que o envolve e ainda embarcar em ótimas aventuras, sem deixar de refletir sobre questões raciais.

FICHA TÉCNICA

Título: Reinações de Narizinho
Autor Monteiro Lobato
Nota: 5/5
Onde Comprar: Amazon

 

Michele Lima
Compartilhe no Google Plus

Sobre O que tem na nossa estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

comentário(s) pelo facebook:

9 comentários:

  1. Oi, Mi!
    Que edição fofa!
    Não li Monteiro Lobato, mas assistia ao Sítio do Picapau Amarelo e gostava bastante.
    Beijos
    Balaio de Babados
    Sorteio de aniversário Balaio de Babados e O que tem na nossa estante. Participe!

    ResponderExcluir
  2. Olá, Michele.
    Eu li os livros dele depois de grande, mas apreciei as aventuras dessa turminha da mesma forma. Eu sempre achei que tudo aconteceu mesmo e não era só fantasia deles não. Sou criança igual hehe. Quanto a questão do racismo se formos ver a grande maioria dos autores dessa época e antes disso serão considerados racistas hoje em dia.

    Prefácio

    ResponderExcluir
  3. Oi, Michele!
    Achei bem legal essa edição elaborada sobre as histórias que conhecemos há tanto tempo. As ilustrações estão lindíssimas.

    Beijos
    Construindo Estante || Instagram

    ResponderExcluir
  4. Oi Mi! Eu li obras do autor na infância e as guardo com carinho, acho que são muito ricas e não podem deixar de ser conferidas pelo leitor mais jovem e pelo mais velho também. Bjos!! Cida
    Moonlight Books

    ResponderExcluir
  5. Oi Mi,

    Que edição mais gracinha! Eu adorava ler as obras do autor na infância!
    Dica anotada!


    Bjs e uma boa semana!
    Diário dos Livros
    Conheça o Instagram

    ResponderExcluir
  6. Oi Mi,
    Quanta nostalgia ver um livro do Monteiro Lobato!
    Creci em uma escola onde ele era bem querido e divulgado, lembro das idas a biblioteca para conversar sobre.
    beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com

    ResponderExcluir
  7. Olá,
    A edição está bem bonita e achei bacana esses pontos que o editor sinaliza.
    Minha mãe sempre foi bem mais fã do Sítio do que eu, rs.

    até mais,
    Canto Cultzíneo

    ResponderExcluir
  8. Nos últimos tempos eu tinha realmente ouvido falar em uma discussão sobre o racismo do autor (sobre ele e Lovecraft também) mas nunca tinha lido alguma passagem que remetesse isso até pouco tempo atrás e fiquei bem chocada. Realmente, outros tempos e outra realidade. Gostei do fato de a editora ter adicionado notas de rodapé e explicado sobre a época em que o livro foi escrito. Ajuda a conscientizar um pouco mais as crianças.
    O Sítio me dá uma sensação de nostalgia tão gostosinha. A editora arrasou no livro, ficou bem bonito.

    Abraço,
    Parágrafo Cult

    ResponderExcluir