Do fundo da Estante: Alucinações do Passado vs Remake


O post de hoje é uma crítica de Alucinações do Passado de 1990 e o remake de 2019. 

Alucinações do Passado

Um dos últimos grandes filmes de Hollywood! O diretor Adrian Lyne pegou os seus fãs e a crítica especializada de surpresa com este que é seguramente o melhor trabalho de sua carreira. Mais publicitário do que realmente um autor de cinema, ele vinha dos sucessos Flashdance (1983), 9 1/2 Semanas de Amor (1986) e Atração Fatal (1987) antes deste Alucinações do Passado, um dos melhores filmes sobre a guerra do Vietnã, que é nota 10 como drama sobre os efeitos pós-guerra, tanto quanto como um filme de suspense ou terror.

Mesmo como uma inexplicável indicação ao Oscar por Atração Fatal (que convenhamos, não é um grande filme mesmo com a antológica interpretação de Glenn Close), ninguém esperava um filme consistente e perturbador sob o comando de Adrian Lyne, pois ele conseguiu fazer um trabalho tão impressionante quanto Francis Ford Coppola em Apocalipse Now de 1979 e Oliver Stone em Platoon de 1986 - é quase palpável todo o horror que o personagem principal, Jacob (um extraordinário Tim Robbins) enfrenta, enquanto não sabe ao certo se o que vive é sonho ou realidade. 


Veterano da guerra do Vietnã, Jacob vive com Jezzie (a saudosa Elizabeth Peña), funcionária de uma agência dos correios de onde trabalha, enquanto tenta superar a perda do filho (Macaulay Culkin) e o fim do casamento com Sarah (Patricia Kalember), mas estranhas alucinações que surgem de repente, o colocam em dúvida sobre sua sanidade. Jacob enxerga pessoas cujo semblante se assemelha as mais bizarras pinturas do irlandês Francis Bacon em meio aos cenários decadentes de Nova York escolhidos a dedo para servir ao cilma tétrico da história.

Lyne carrega na tensão e capricha nas encenações, dando a exata noção da insanidade do protagonista. O brilhante roteiro não deixa claro o que pode ser realidade, sonho, pesadelo ou lembranças, porém concluiu de forma satisfatória o enredo sem deixar pontas soltas e sem exagerar no plot twist. Tim Robbins tem aqui o momento alto de sua carreira, mais até do que nos sensacionais O Jogador (1992) e Um Sonho de Liberdade (1994), se entregando de corpo e alma a um personagem cheio de nuances, rico em dramaticidade e que possui no mínimo, umas cinco cenas marcantes. Elizabeth Peña (La Bamba) também está ótima em cena, coadjuvando Robbins com muita segurança, e Macaulay Culkin tem um pequeno, porém importante personagem, assim como o talentoso Danny Aielo.


A representação da loucura neste filme, serviu de inspiração pra muitos filmes que vieram a seguir, mais precisamente Amnésia (1999) e A Origem (2010), excelentes filmes do diretor Christopher Nolan, a série Lost e o game Silent Hill, que posteriormente se tornou um longa metragem. Todos beberam na fonte de Alucinações do Passado, que inovou e ainda hoje é merecidamente reverenciado. 

O título original, Jacob's Ladder (A escada de Jacob) faz referência aos seguintes versículos bíblicos de Genesis:
E chegou a um lugar onde passou a noite, porque já o sol era posto; e tomou uma das pedras daquele lugar, e a pôs por seu travesseiro, e deitou-se naquele lugar.
E sonhou: e eis uma escada posta na terra, cujo topo tocava nos céus; e eis que os anjos de Deus subiam e desciam por ela;
E eis que o Senhor estava em cima dela, e disse: Eu sou o Senhor Deus de Abraão teu pai, e o Deus de Isaque; esta terra, em que estás deitado, darei a ti e à tua descendência;
E a tua descendência será como o pó da terra, e estender-se-á ao ocidente, e ao oriente, e ao norte, e ao sul, e em ti e na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra;
E eis que estou contigo, e te guardarei por onde quer que fores, e te farei tornar a esta terra; porque não te deixarei, até que haja cumprido o que te tenho falado.
Acordando, pois, Jacó do seu sono, disse: Na verdade o Senhor está neste lugar; e eu não o sabia.
E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus.
Então levantou-se Jacó pela manhã de madrugada, e tomou a pedra que tinha posto por seu travesseiro, e a pôs por coluna, e derramou azeite em cima dela.
E chamou o nome daquele lugar Betel; o nome porém daquela cidade antes era Luz.
Participações especiais de Jason Alexander, Pruitt Taylor Vince, Eriq La Salle, Ving Rhames e S. Epatha Merkenson.

Nota 5/5

Alucinações do Passado 2019


Um dos piores remake de todos os tempos! Eu sempre vou bater na mesma tecla: remakes são uma praga que tomaram conta de Hollywood e que, em respeito a todos os envolvidos nas obras originais, jamais deveriam ter sido realizados.

O já clássico Alucinações do Passado completa 30 anos em 2020 e merece um relançamento nos cinemas do mundo todo, mas provavelmente não terá. Pode ter no máximo uma exibição em algum canal de TV  graças a alguma alma sensata. Antes disso, somos presenteados com este remake que deveria ter sido destruído ao invés de engavetado e nunca lançado.

O diretor David M. Rosenthal (quem???) nos entrega um filme tosco, carregado no gore, com mudanças desnecessárias na história e com um elenco que parece nunca ter atuado, tamanho o amadorismo. 


Não sentimos empatia pelo personagem principal (Michael Ealy, numa das atuações mais canastronas dos últimos anos) porque ele simplesmente transita no que parece ser um videoclipe estilizado ao invés da direção de arte impecável que servia à história no filme original. A fotografia, estranha, parece um meio termo entre o translúcido e os tons pastéis, e os enquadramentos são os mais sem graça possíveis - sem contar a montagem acelerada que tira qualquer resquício de emoção que poderia existir. A maquiagem também é de quinta categoria, assim como os efeitos práticos. Tudo é constrangedor e nem de longe lembra a matriz na qual se inspirou.

As principais cenas do original são reproduzidas pela metade. Isso mesmo. Quando a gente acha que vai, acaba não indo. Fica a impressão de que o diretor quis seguir a linha de Corra! (2017), mas não levou em conta o fato de não ter o pulso firme do diretor Jordan Peele e nem os ótimos Daniel Kaluuya e Catherine Keener no elenco.

Jacob, o protagonista, é um cirurgião militar nesta versão e não consegue salvar o seu irmão Isaac (Jesse Williams, ruim) após um ataque em plena guerra, que não parece ser a do Vietnã como no filme anterior e sim no Afeganistão. Não conseguindo viver com esse trauma, Jacob é acometido por visões e acontecimentos que fogem a realidade, como por exemplo, o reencontro com Isaac morando num túnel do metrô, depois de ser avisado por outro veterano de guerra que já havia morrido e em seguido é morto novamente.


Definitivamente, essa não foi uma maneira nada inteligente de mesclar sonho, realidade, pesadelos e lembranças como Adrian Lyne fez brilhantemente. O que temos pra hoje é um pastiche total e não uma reimaginação da história, que é o que deveria ser um remake.

Com praticamente meia hora a menos (o que faz muita diferença), o final que se segue ao plot nada criativo, é apressado demais, mal idealizado, mal estruturado e mal dirigido, encerrando a obra da maneira mais decepcionante possível.

Adrian Lyne não se manifestou a respeito e, como irá dirigir o remake de Vítima por Testemunha (1981), deve ter optado em ficar quieto caso seu filme seja outro remake desnecessário.

A nota 3 no IMDB está alta. 

Nota: ZERO

Italo Morelli
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Sobre O que tem na nossa estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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2 comentários:

  1. Eita, deu para notar pela sua crítica o quão ruim foi o remake. Te entendo bem e compartilho da sua ideia de que remakes deveriam ser considerados crimes. Um exemplo para mim, foi o remake de Rocky Horror Picture Show. Sou apaixonada pelo original dos anos 70 com Tim Curry e Susan Sarando mas por mais que ame a Laverne Cox, só senti vergonha alheia com o remake de 2016. Algumas obras devem ser colocadas em pedestais e não devem ser tocadas porque é impossível alcançar o nível de qualidade do original.

    Abraço,
    Larissa | Parágrafo Cult

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