Horror Noire: A Representação Negra no Cinema de Terror [Resenha Literária]


Horror Noire: A Representação Negra no Cinema de Terror integra a Coleção Dissecando, da DarkSide® Books e encontramos um verdadeiro dossiê sobre a história dos negros no cinema! O Terror nos permite analisar sobre o racismo na cultura pop, não só pela presença de atores negros, como a ausência deles também, afinal, os filmes podem manipular a percepção das pessoas sobre crenças, fatos e valores. Por muito tempo, aos negros cabiam apenas papéis subservientes, ainda que sejam responsáveis por boa parte da bilheteria do cinema. O que a Dra. Robin R. Means Coleman faz nessa edição é desconstruir a imagem racializada do gênero.

Coleman faz uma importante diferença entre filmes de terror “com negros” e “filmes negros” de terror. O primeiro geralmente é produzido por pessoas não negras para o consumo popular e apresenta uma mensagem sobre como a negritude é representada no cinema, muitas vezes de forma negativa relacionando a figura do negro com monstros, vilões. Já os “filmes negros” de terror chama atenção para a identidade racial.


A obra é dividida em capítulos e começa com a era: pré-1930 em que atores brancos representavam negros usando maquiagem, usando de estereótipos racistas. É a época do cinema mudo e marcou bastante pela questão da supremacia branca em filmes pavorosos como O nascimento de uma nação, baseado no romance e na peça The Clansman, dirigido por D. W. Griffith. O longa na época foi um sucesso comercial e leva os crédito por ser um dos eventos responsáveis pelo ressurgimento da Ku Klux Klan que o usava como forma de recrutamento. Coleman descreve bem como o personagem Gus foi usado para mostrar que todo homem negro almeja uma mulher branca, contribuindo também para o “mito da sexualidade exacerbada do negro”. Gus é um vilão, um predador sexual negro que ataca mulheres brancas.

A autora também discorre sobre a tendência de não separar negros e macacos na escola evolutiva e dá como exemplo King Kong (1933), a distorção da imagem das religiões africanas e a sexualidade da mulher negra. Já na década de 40, além de mostrar negros como seres perigoso, eles eram também usados como alívio cômico em filmes de terror. Coleman também chama atenção para o fato de que nas décadas seguintes o foco de Hollywood se voltou para a tecnologia e como se achava que os negros não eram capacitados intelectualmente, eles foram omitidos ou relegados a papéis coadjuvantes. 


No entanto, é durante essa época que se tem A noite dos mortos vivos de George Romero e a autora se dedica bastante pra comentar o clássico que foge dos padrões da época. É um filme com protagonista negro, Ben (Duane Jones), e os acontecimentos finais podem ser vistos muito além da questão sobre zumbis. O longa é um marco para o gênero do terror e foi lançado num período turbulento sobre direitos civis nos Estados Unidos, embora só anos depois o próprio Romero fosse entender a importância de seu filme.


Já na década de 70 temos o Black Power e a volta dos negros para o cinema, tanto em filmes de negro como em filmes de terror com negros. E também mulheres negras representando a resiliência e filmes contendo negritude como Blácula, Blackenstein e Monstro sem alma, tendo como referência clássicos como Drácula, Frankenstein e O médico e o Monstro. Foi a era do do Blaxploitation e da tomada de consciência. No entanto, na década 80 há um retrocesso, os negros eram mais visto como amigos fiéis, e leais para morrer no lugar dos protagonistas brancos (como em O Iluminado de 1980). Aqui a autora também comenta a ausência de representatividade em filme ambientado nos subúrbios americanos, onde negros não tinham acesso, como em Uma noite Alucinante (1981), Poltergeist (1982), entre outros.


Já na década de 90 alguns filmes merecem uma análise mais atenta como Bem-Amada (1998) por ser um filme negro de terror com origem literária negra, com um elenco predominantemente negro, liderado por Oprah Winfrey. Também achei bem interessante a análise que a autora faz de Blade: o caçador de vampiros (1998). E nos anos 2000 Coleman nos mostra que alguns filmes foram inspirados pela cultura do hip-hop, uma vez que o século 21 o gênero teve que se adequar ao mercado, que inclusive sofre de criatividade, fazendo uso abundante de remakes. 


Difícil não se sentir indignada em alguns momentos da leitura, com vergonha pela humanidade. Com uma edição bastante completa, recheada de detalhes, Coleman nos apresenta um ótimo estudo sobre personagens negros nos cinemas, fazendo uma conclusão bem interessante sobre o gênero e seu papel social. É uma leitura para ser apreciada, sem pressa, de interesse não só para os amantes do cinema, mas para todos. 

FICHA TÉCNICA

Título: Horror Noire: A Representação Negra
Autora: Robin R. Means Coleman
Nota: 5/5
Onde Comprar: Amazon e Loja DarkSide® Books

Michele Lima
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Sobre O que tem na nossa estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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5 comentários:

  1. Oi Mi! O lançamentos é interessante, mas não é para mim no momento. Como sempre a edição parece estar bem linda. Bjos!! Cida
    Moonlight Books

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  2. Oi, Mi! Tudo bom?
    Eu fiquei morrendo de vontade de ler esse livro quando a Bibs recebeu e tô com ele no carrinho pra BF. Achei um tema muito pertinente e deve ter tanta coisa interessante no desenvolver desses argumentos que aaaaaaa, me ajuda BF!

    Beijos,
    Denise Flaibam.
    www.queriaestarlendo.com.br

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  3. Oi, Mi!
    Taí um livro da Darkside que super me interessou. Vou esperar uma promoção pra adquirir.
    Beijos
    Balaio de Babados

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  4. Oi Mi!

    Dos lançamentos da Dark nesse segundo semestre, esse foi um livro que eu realmente gostei demais. Principalmente por conta de toda carga emocional que ele apresentou, e a autora fez uma pesquisa incrível. Estou até com os filmes pra assistir com um olhar mais apurado agora. Como você disse em alguns momentos ficamos indignados com a leitura, e é exatamente assim que temos que ficar. Esse livro vai perdurar por muitos anos, e será uma grande divisor de mundos.

    Beijos
    Naty

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  5. Oi Mi!
    Eu vi uma resenha sobre ele no insta de uma amiga e ela também gostou muito. Por levantar a questão do racismo no cinema é interessante, mas confesso que talvez não funcionasse tanto para mim. Não vi nenhum dos filmes citados e talvez isso me incomodasse por não entender especificamente as analises.
    A edição mais uma vez lindissima.

    Abraços
    Emerson
    http://territoriogeeknerd.blogspot.com/

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