A Guerra não tem Rosto de Mulher [Resenha Literária]


Os livros de Svetlana parecem diretos - coleções de entrevistas com russos comuns gravando suas memórias de grandes eventos. No entanto, esses "romances documentais" são muito mais estranhos e perturbadores do que isso, criados e editados com o olhar frio de um repórter para obter detalhes e o ouvido de uma poeta com os intrincados ritmos da fala humana. Lê-los é como espionar um confessionário. Esta é a história mais crua e mais desconfortavelmente íntima.
Guerra é guerra. Não é teatro...
A Guerra não tem Rosto de Mulher se concentra em um assunto surpreendente: mulheres que lutaram com as forças soviéticas durante a Segunda Guerra Mundial. Enquanto em países como a Grã-Bretanha e os EUA, as mulheres eram em grande parte afastadas da frente, na Rússia as mulheres eram treinadas como franco-atiradores, pilotos, mecânicos de tanques, artilheiros antiaéreos. 


Entretanto, até Alexievich atravessar o que era então a União Soviética, incentivando ex-“garotas da linha de frente” nos anos cinquenta e sessenta a conversar, quase ninguém havia prestado atenção naquela época e um mesmo sentimento é ecoado por quase todos no livro.
Quero falar... Falar! Desabafar! Finalmente querem nos escutar também. Passamos tanto tempo caladas, até em casa. Que bom que você veio. Passei o tempo todo esperando, sabia que alguém viria.
A obra é um discurso, um impressionante discurso: uma câmara de eco cacofônica composta por mais de 200 entrevistas, o livro não é apenas um corretivo para relatos de conflitos centrados no ser humano; é uma experiência devastadora e, por vezes, esmagadora.


Conhecemos assistentes médicos, cujo trabalho era agarrar-se à blindagem dos tanques soviéticos para resgatar aqueles que estavam lá dentro, e um piloto que deixa sua filha para trás no campo enquanto ela voa. Apesar dos horrores, há um senso de libertação de olhos brilhantes e um humor desagradável sobre a camaradagem surreal da vida como uma mulher soldado: as camisas dos homens usadas como roupas íntimas, os oficiais confundiram a forma como a mais afiada das armadas afiadas do Exército Vermelho, onde atiradores poderiam ser meras “garotas”.
... Uma mulher pequena, com uma longa trança em torno da cabeça, estava cobrindo o rosto com as mãos: “Não, não vou. Voltar pra lá? Não consigo... Até hoje não assisto filmes de guerra, na época eu era menina de tudo. Sonhava e crescia, crescia e sonhava.
Frequentemente, essas histórias são quase angustiantes demais para serem lidas. Uma mulher sem nome relata desapaixonadamente como uma companheira de resistência foi forçada a afogar seu próprio bebê, o choro poderia traí-los aos alemães. Várias pessoas admitem que ainda não conseguem olhar para a cor vermelha porque isso provoca memórias que agitam o estômago.


Uma ironia amarga é subjacente ao livro, dificilmente única na Rússia. Embora a União Soviética tenha ficado feliz em colocar as mulheres de uniforme, elas nunca foram autorizadas a esquecer que, uma vez terminada a guerra, seu dever era vestir vestidos e batons e nunca falar do que havia acontecido. Como Valentina Pávlovna Tchudáieva, ex-sargento, comandante de um canhão antiaéreo, observa amargamente: "No começo nos escondíamos, não usávamos nem as medalhas. Os homens usavam, as mulheres não. Os homens eram os vencedores, heróis, noivos, a guerra era deles; já para nós, olhavam com outros olhos... vou lhe dizer, tomaram a vitória de nós.” Talvez, finalmente, quem sabe um dia, essa dívida possa ser paga.

Um livro denso, cruel e real, que retrata uma época pouco falada da história mundial. A Editora Companhia das Letras fez um belíssimo trabalho ao traduzir as obras de Svetlana para o país, eu que li tantos livros esse ano, posso claramente eleger o meu favorito. À autora meu muito obrigada por ter percorrido esse triste caminho da história da nossa humanidade.

FICHA TÉCNICA

Título: A Guerra não tem Rosto de Mulher
Autora: Svetlana Aleksiévitch
Nota: 5/5
Onde Comprar: Amazon

 

Natália Silva
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Sobre O que tem na nossa estante

É amante de livros, filmes, séries e adora uma boa música. Escreve para O Que Tem Na Nossa Estante.

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5 comentários:

  1. Oi Natália,
    Gosto muito de livros com essa temática apesar de não ler tanto.
    Achei muito interessante a premissa e o impacto da história.
    Dica anotada com certeza!

    Bjs
    http://diarioelivros.blogspot.com

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  2. Olá...
    Ainda não li nada da Svetlana, mas, me lembro de quando ela veio para a Flip fiquei bastante interessada em seus livros! Ainda não conhecia esse livro, mas, fiquei com vontade de ler, parece ser um livro bem denso e que nos faz pensar bastante.
    Bjo

    http://coisasdediane.blogspot.com/

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  3. Oi, Nat!
    Achei o título do livro bem interessante e depois da sua resenha, estou pensando em seriamente dar uma chance a ele. Parece um tipo de leitura que trará um bom aprendizado.
    Beijos
    Balaio de Babados

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  4. Essas histórias são bem fortes e marcam a gente, né? Ainda não conhecia esse livro, mas fiquei curiosa para me aprofundar mais! ❤

    https://www.kailagarcia.com

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  5. sou louca pra ler os livros dessa autora! já conhecia o livro e fiquei ainda mais curiosa em ler depois desse seu post

    www.tofucolorido.com.br
    www.facebook.com/blogtofucolorido

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